21/Oct/2026
Segundo avaliação da AgResource, as dificuldades de exportação pelo Mar Negro podem redirecionar para Brasil, Estados Unidos e Argentina parte da demanda por milho que a Ucrânia não consegue atender. Cerca de 12 milhões de toneladas de grãos precisarão ser adquiridas de outros fornecedores nos próximos 90 dias. As restrições logísticas representam um fator de pressão sobre a oferta global mais relevante do que eventuais mudanças na produtividade das lavouras norte-americanas, especialmente para milho e trigo. Diante desse cenário, a recomendação é cautela com novas posições de baixa nos dois cereais. A soja, que também registra perdas, aproxima-se de uma condição semelhante de venda excessiva. O milho norte-americano permanece pressionado desde que o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) elevou a oferta projetada para a nova safra 10,3 milhões de toneladas, e aumentou a estimativa de produtividade nacional no relatório de outubro.
A colheita ainda está em andamento e as mínimas das cotações podem ocorrer nos próximos dez dias, embora o mercado apresente sinais de excesso de posições vendidas. O milho está excessivamente vendido e a estimativa de produtividade do USDA ainda pode sofrer alterações. Desde 1980, as revisões de produtividade do milho entre o relatório de outubro e o resultado final, divulgado em janeiro, apresentaram frequência semelhante de aumentos e reduções. Uma mudança nessa estimativa poderia alterar o balanço norte-americano 5,1 milhões a 7,6 milhões de toneladas. Entretanto, os ajustes de produtividade costumam modificar os balanços dos Estados Unidos em cerca de 2 milhões a 3 milhões de toneladas, enquanto as dificuldades logísticas no Mar Negro podem afetar os balanços dos países exportadores em 11 milhões a 15 milhões de toneladas.
Os portos do sul da Rússia e da Ucrânia foram fechados em agosto, e os compradores inicialmente aguardaram uma solução diplomática para a retomada dos embarques. Esse cenário de espera, porém, perdeu força. Até 20 milhões de toneladas de grãos precisarão ser adquiridas de outras origens até o fim do ano comercial. No mercado de milho, a relação entre estoques e consumo dos países exportadores, indicador da disponibilidade de produto em relação ao consumo, poderá recuar para 7,5%, ante níveis de 10% a 11%, caso a Ucrânia deixe de embarcar 10 milhões de toneladas. O cálculo já considera o maior consumo interno de milho no Brasil. A AgResource também questiona a premissa utilizada pelo USDA de que as exportações pelo Mar Negro estarão operando em capacidade máxima a partir de 1º de novembro. Essa hipótese não se sustenta diante das dificuldades logísticas atuais.
Os efeitos sobre os balanços globais de oferta e demanda, portanto, poderão aparecer nos relatórios do USDA entre dezembro e fevereiro, à medida que as restrições de embarque se reflitam nas projeções de comércio internacional. A Europa já demonstra maior procura por milho norte-americano. na Bolsa de Paris, o cereal era negociado a cerca de US$ 8,50 por bushel, alta de US$ 0,70 desde a divulgação do relatório de outubro do USDA. A expectativa é de continuidade das compras europeias nos próximos nove meses. O preço europeu apresenta prêmio de US$ 3,81 por bushel em relação ao milho embarcado pelo Golfo do México, evidenciando a diferença entre os mercados diante das condições de oferta e logística. Apesar da possibilidade de movimentos pontuais de baixa, inclusive abaixo de US$ 4,60 por bushel nos Estados Unidos, recuos dessa magnitude podem representar oportunidades de compra, diante dos riscos de redução da disponibilidade exportável e da migração da demanda para fornecedores alternativos.
No mercado de trigo, importadores anteriormente atendidos pela Rússia passaram a recorrer à Europa, pressionando as cotações na região nas últimas duas semanas. A Rússia mantém embarques mensais entre 2,8 milhões e 3 milhões de toneladas por rotas alternativas, incluindo portos do Mar Báltico. Ainda assim, a redução da capacidade de escoamento pelo Mar Negro amplia a necessidade de redistribuição dos fluxos comerciais. O USDA estima em 14,7% a relação entre estoques e consumo dos países exportadores de trigo fora da região do Mar Negro, nível próximo do menor patamar em duas décadas. Esse indicador pode recuar para o menor nível já registrado caso esses fornecedores precisem compensar uma redução de 10 milhões de toneladas nos embarques. Nesse contexto, é possível que o trigo apresente movimentos pontuais abaixo de US$ 6,50 por bushel, embora a restrição de oferta internacional possa limitar a continuidade das perdas.
A migração dos compradores para outras origens também poderá ganhar força no mercado de milho caso não haja a criação de um corredor de exportação pelo Mar Negro nas próximas duas a quatro semanas. A combinação entre restrições logísticas, aumento da procura europeia e redução da disponibilidade exportável tende a tornar o cenário global de oferta mais apertado, mesmo diante de uma safra norte-americana volumosa. A soja, por sua vez, aproxima-se de uma condição de venda excessiva, segundo o Índice de Força Relativa (RSI), indicador que compara a intensidade das altas e das quedas recentes de um ativo. A consultoria considera que movimentos desse tipo tendem a passar por correções e avalia que a queda recente dos preços apresenta fundamentos estruturais pouco consistentes. Além disso, as condições climáticas na América do Sul ganham importância a cada semana, podendo alterar as perspectivas de produção e influenciar o comportamento das cotações internacionais. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.