14/Oct/2026
As importações brasileiras de trigo recuaram nos últimos 12 meses, enquanto o avanço da colheita na Região Sul do País mantém o mercado atento à produtividade e à qualidade do cereal. No Rio Grande do Sul, as condições climáticas adversas preocupam, e, no Paraná, a dificuldade de obtenção de trigo Tipo 1 tem levado a alterações em contratos e ao adiamento de entregas. Portanto, a oferta restrita de cereal com a qualidade exigida pelas indústrias pode aumentar a necessidade de importações nos próximos meses. Segundo dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), as importações brasileiras de trigo somaram 6,01 milhões de toneladas entre outubro de 2025 e setembro de 2026, volume 10,9% inferior ao registrado nos 12 meses anteriores. Em setembro, especificamente, o Brasil adquiriu 428,54 mil toneladas, quedas de 16,7% frente a agosto e de 24,6% em relação a setembro de 2025. A Argentina foi a principal fornecedora do cereal ao Brasil no mês, com 81,8% do volume total, seguida pelo Paraguai (13,4%) e pelo Canadá (4,7%).
Quanto à competitividade do cereal importado, entre 28 de setembro e 2 de outubro, os preços do trigo argentino ficaram abaixo dos valores do produto no Paraná e no Rio Grande do Sul. Com base em dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a paridade do cereal argentino posto no Paraná foi de US$ 268,61 por tonelada, equivalente a R$ 1.399,11 por tonelada, considerando-se o dólar médio de R$ 5,20. No mesmo período, o trigo do Paraná apresentou média de R$ 1.540,54 por tonelada. No Rio Grande do Sul, a paridade argentina foi de US$ 251,48 por tonelada, ou R$ 1.309,89 por tonelada, ante a média estadual de R$ 1.450,08 por tonelada calculada pelo Cepea. Segundo a Conab, a colheita já foi concluída em Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Goiás. Na Bahia, 40% da área estava colhida; em São Paulo, 55%; e, em Santa Catarina, 0,9% até 2 de outubro. No Rio Grande do Sul, conforme a Emater-RS, a colheita havia alcançado 4% da área cultivada até 8 de outubro, concentrada nas lavouras mais precoces.
A maior parte das áreas ainda estava em enchimento de grãos (60%) ou em maturação (27%). As chuvas frequentes, a baixa luminosidade e a ocorrência de granizo e de ventos fortes prejudicaram o desenvolvimento das lavouras, aumentando as preocupações quanto ao potencial produtivo e à qualidade. No Paraná, segundo o Departamento de Economia Rural (Deral/Seab), 70% da área estadual havia sido colhida até 5 de outubro. As chuvas persistentes dificultam os trabalhos de campo, comprometem a qualidade dos grãos e influenciam na incidência de doenças nas lavouras. Na Argentina, levantamento da Bolsa de Cereais de Buenos Aires indicou que 84% da área de trigo estava em alongamento do colmo ou em estágios posteriores. Além disso, 91% da área apresentava umidade adequada ou ótima, e 64% estavam em boas ou excelentes condições de cultivo. Após as chuvas recentes, as primeiras estimativas apontam produtividade acima das médias regionais das últimas cinco safras, mas abaixo do observado na temporada passada, exceto no noroeste da Argentina.
Os danos provocados pelas geadas das semanas anteriores ainda estão em avaliação. Nos últimos sete dias, as cotações do trigo apresentam movimentos distintos dentre as regiões. No mercado de balcão (preço pago ao produtor), os preços têm recuo de 1,11% no Rio Grande do Sul e 0,56% no Paraná, mas avanço de 1,97% em Santa Catarina. No mercado de lotes (negociação entre empresas), há altas de 0,69% no Paraná e de 0,31% em Santa Catarina. Em São Paulo, os preços se mantêm praticamente estáveis, com leve recuo de 0,05%, enquanto no Rio Grande do Sul, os valores têm baixa de 0,21%. A desvalorização da moeda norte-americana favoreceu a competitividade do trigo importado, contribuindo para limitar as altas em algumas regiões e pressionar as cotações em outras. A queda dos preços do milho pressiona as cotações do trigo, uma vez que ambos os cereais podem substituir um ao outro na composição de rações para animais.
O aumento da estimativa de estoques norte-americanos na temporada 2026/27 também influenciou a baixa. Em sentido contrário, as preocupações com o escoamento de commodities pelo Mar Negro, diante da escalada do conflito entre Rússia e Ucrânia, limitaram as perdas. No relatório mensal de oferta e demanda divulgado, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) elevou a estimativa dos estoques finais de trigo norte-americanos para 20,14 milhões de toneladas. Quanto aos estoques finais mundiais, a projeção foi reduzida, de 276,29 milhões de toneladas no relatório de setembro para 276,04 milhões de toneladas agora. As quedas estimadas para a União Europeia e a China foram parcialmente compensadas por aumentos na Rússia e nos Estados Unidos. Para a temporada 2026/27, o consumo mundial foi projetado em 827,9 milhões de toneladas, acima da produção estimada de 822,39 milhões de toneladas.
O USDA também reduziu em 3 milhões de toneladas a estimativa das exportações russas de trigo para 2026/27, para 40 milhões de toneladas, o menor volume desde a temporada 2021/22. As limitações logísticas nos portos do Mar Negro e do Mar de Azov têm restringido o ritmo dos embarques russos. A projeção de exportações dos Estados Unidos também foi reduzida, de 21,09 milhões de toneladas para 20,41 milhões de toneladas. Com esses ajustes, a estimativa de exportações mundiais passou de 211,77 milhões no relatório de setembro para 208,97 milhões de toneladas. Nesse cenário, na Bolsa de Chicago, o contrato de trigo Soft Red Winter com vencimento em dezembro de 2026 registra recuo de 1,8% nos últimos sete dias, a US$ 6,71 por bushel (US$ 246,55 por tonelada). Na Bolsa de Kansas, o contrato de mesmo vencimento do trigo Hard Winter tem baixa de 2,2% no mesmo período, para US$ 7,19 por bushel (US$ 264,28 por tonelada). No Porto de Buenos Aires, as cotações FOB permanecem estáveis no período, a US$ 251,00 por tonelada. Fonte: Cepea. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.