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05/Oct/2026

EUA: oferta menor não sustenta alta dos futuros

Os Estados Unidos colheram 41,6 milhões de toneladas de trigo na safra 2026, queda de 23% ante o ano anterior e menor produção desde 1970. O dado foi confirmado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) no relatório divulgado em 30 de setembro. Apesar da redução expressiva da oferta, considerada estruturalmente positiva para os preços pela Stag International, o resultado não trouxe desvio suficiente em relação às expectativas para interromper a recente queda dos futuros na Bolsa de Chicago, uma vez que o mercado ainda aguarda confirmação de maior demanda pelo trigo norte-americano. Os estoques de trigo em 1º de setembro totalizaram 50,3 milhões de toneladas, queda de 14% na comparação anual e abaixo do consenso de mercado. A redução dos estoques é considerada um fator de sustentação para os preços, mas a diferença em relação às projeções foi insuficiente para provocar uma reprecificação relevante dos contratos futuros. A retração da produção esteve concentrada no trigo de inverno, cuja colheita recuou 27%, no menor volume dessa classe desde 1965.

Dentro desse grupo, a produção de trigo vermelho duro de inverno, ou hard red winter, caiu 42%, para 12,7 milhões de toneladas. A produção de trigo de primavera recuou 10%, para 12,25 milhões de toneladas, enquanto a de durum diminuiu 24%, para 1,764 milhão de toneladas. A área total colhida caiu 15%, para 12,91 milhões de hectares. A menor oferta, isoladamente, não garante preços mais elevados. Com parte relevante da redução da produção já incorporada às cotações e os estoques apenas marginalmente abaixo das expectativas, o mercado precisa de uma confirmação mais consistente da demanda para transformar o quadro de oferta restrita em uma trajetória sustentada de alta. O USDA projeta exportações norte-americanas de trigo em 21 milhões de toneladas na safra 2026/27, das quais aproximadamente 6 milhões de toneladas já foram vendidas. O volume comercializado corresponde a cerca de 15% da produção dos Estados Unidos, ante 17% no mesmo período do ano passado e 14% em 2024/25. Em relação ao tamanho da safra, o ritmo das vendas externas não apresenta atraso significativo.

O principal ponto de atenção está na possibilidade de a demanda mundial por importação migrar para o trigo dos Estados Unidos, reduzindo os estoques de passagem norte-americanos, especialmente diante das incertezas envolvendo a oferta do Mar Negro. Até o momento, o trigo dos Estados Unidos permanece relativamente caro em relação aos preços que os compradores internacionais estão dispostos a pagar, limitando a formação de demanda adicional. As condições para o plantio do trigo de inverno nas planícies do Sul e do Centro dos Estados Unidos também permanecem favoráveis. Houve melhora das perspectivas de chuvas em partes do Colorado, Kansas, Oklahoma, Nebraska e Texas, o que reduz riscos imediatos para o estabelecimento das lavouras. Paralelamente, voltaram ao radar as discussões sobre um possível acordo destinado a proteger as exportações pelo Mar Negro. Turquia e Organização das Nações Unidas (ONU) iniciaram novas conversas com Rússia e Ucrânia para tentar estabelecer um cessar-fogo limitado no Mar Negro, com foco na proteção da navegação comercial e da infraestrutura portuária.

A iniciativa adiciona pressão sobre as cotações do trigo, embora ainda existam obstáculos relevantes. A Rússia busca concessões nas negociações, enquanto a Ucrânia apresenta baixa expectativa de restabelecimento de um corredor de grãos no curto prazo. O movimento recente dos futuros indica retirada gradual do prêmio de risco incorporado aos preços após os ataques à infraestrutura logística do Mar Negro. Esse processo pode continuar enquanto não houver evidências concretas de aumento da demanda pelo trigo norte-americano, especialmente depois de o mercado já ter incorporado o quadro de menor produção e estoques mais apertados nos Estados Unidos. Uma queda de magnitude semelhante à observada em 2022 exigiria, entretanto, mais do que negociações diplomáticas. Naquele período, a Iniciativa de Grãos do Mar Negro resultou na reabertura efetiva da capacidade de exportação da Ucrânia, e não apenas em tratativas para um possível acordo. O movimento também coincidiu com forte redução das posições compradas de fundos especulativos, ampliando a pressão baixista sobre os preços.

Apesar das negociações diplomáticas, o risco geopolítico permanece elevado. Entre 29 e 30 de setembro, a Rússia realizou uma nova campanha de ataques contra a Ucrânia, tendo a infraestrutura de energia entre os principais alvos. Foram empregados múltiplos sistemas de mísseis e 188 drones durante a noite, seguidos por outros 285 drones, além de mísseis e munições de ataque no dia seguinte. Também houve registro de um suposto drone russo no espaço aéreo da Moldávia. O mercado de trigo permanece, portanto, condicionado por dois vetores principais: de um lado, a menor produção e os estoques mais apertados nos Estados Unidos; de outro, a ausência de confirmação de uma migração relevante da demanda internacional para o produto norte-americano e a possibilidade de melhora dos fluxos pelo Mar Negro. Enquanto a oferta menor estabelece um fundamento de sustentação, a evolução das exportações dos Estados Unidos e do cenário geopolítico será determinante para a direção dos preços na Bolsa de Chicago. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.