22/Sep/2026
Os preços do trigo continuam subindo no Brasil, em meio às incertezas relacionadas à safra de 2026, principalmente quanto à qualidade dos grãos, ao rendimento e ao volume a ser produzido. O clima desfavorável ao longo do ciclo, marcado pelo excesso de chuvas, pelo aumento da umidade do solo e pela ocorrência de doenças em diversas regiões, tem comprometido o desenvolvimento das lavouras e, em algumas localidades, tem resultado em qualidade inferior à esperada. Os produtores já haviam se mostrado desestimulados a investir na cultura na safra de 2026, o que resultou em redução tanto da área cultivada quanto da produção. Com o avanço da colheita, os efeitos das condições climáticas sobre as lavouras vêm reforçando as incertezas, com relatos de redução do PH, da força do glúten e do Falling Number (teste que mede a qualidade do trigo para a farinha de panificação).
No Paraná e em São Paulo, há relatos de presença de trigo dos tipos 2 e 3 nos lotes colhidos, e menor disponibilidade do tipo 1, o que pode, consequentemente, aumentar a dependência de importações para atender ao consumo doméstico. Nos últimos sete dias, no mercado de balcão (preço pago ao produtor), os valores apresentam alta de 1,69% em Santa Catarina, 1,14% no Paraná e 0,29% no Rio Grande do Sul. No mercado de lotes (negociação entre empresas), os preços têm avanço de 2,34% no Paraná, 2,29% no Rio Grande do Sul, 2,24% em São Paulo e 2% em Santa Catarina. As novas estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), divulgadas no dia 15 de setembro, reforçam a tendência de alta dos preços no mercado doméstico.
Para a temporada de trigo de 2026, a Conab aponta reduções na área, na produção e na produtividade, associadas à cautela dos produtores diante do risco climático. Neste mês, a área foi estimada pela Conab em 1,927 milhão de hectares, a menor desde 2017 (quando foi de 1,916 milhão de hectares), quedas de 1% em relação à estimativa de agosto/26 e de expressivos 21,2% em relação a 2025. A produção cedeu 1,3% no comparativo mensal e 27,1% no anual, prevista em 5,74 milhões de toneladas, a menor desde 2019 (5,154 milhões de toneladas). A produtividade, por sua vez, recuou 0,3% de agosto para setembro e 7,5% em relação à safra anterior, estimada em 2,978 toneladas por hectare. Os estoques iniciais para setembro/26 estão previstos em 1,765 milhão de toneladas, aumento de 19,2% em relação a agosto/26.
Esse incremento compensou a redução da produção e das importações no balanço dos suprimentos internos (estoques iniciais + produção + importações), que aumentaram 1,1% entre agosto e setembro. Com isso, as importações foram reduzidas em 0,7% no comparativo mensal; no entanto, em relação à temporada anterior, devem aumentar 15%. Por fim, a estimativa dos estoques finais foi elevada para 1,067 milhão de toneladas, volume 18,5% superior ao projetado no levantamento anterior, mas 39,5% inferior ao previsto para a safra de 2025. A posição mais cautelosa de produtores em investir na cultura também está relacionada aos custos de produção. Em Cascavel (PR), o Custo Operacional Efetivo médio no início da safra (de abril a junho/26) foi de R$ 3.136,83 por hectare.
Considerando-se o preço médio pago ao produtor em setembro/26, de R$ 77,92 por saca de 60 Kg no oeste do Paraná, e a produtividade média do Paraná disponibilizada pela Conab para a safra de 2026, de 2,967 toneladas por hectare, a produção total seria de 49,45 sacas de 60 Kg por hectare. Dessa forma, seriam necessárias 40,27 sacas de 60 Kg por hectare para cobrir o custo efetivo, restando apenas 9,18 sacas de 60 Kg como margem sobre esse custo. Conforme dados divulgados pela Conab, até 11 de setembro, 18% da área destinada ao cultivo de trigo no Brasil já havia sido colhida. Dentre os Estados, Goiás se aproximava da finalização, com 98% das lavouras já colhidas, seguido por Mato Grosso do Sul, com 96%, e por Minas Gerais, com 87%.
Em São Paulo, o percentual permanecia estável em 15%, enquanto no Paraná a colheita avançou para 20%. Na Bahia, por sua vez, as atividades alcançaram 10% da área. No Paraná, especificamente, dados do Departamento de Economia Rural (Deral/Seab) indicavam que, até 14 de setembro, 29% do trigo já havia sido colhido. No campo, 58% estavam em maturação, 29%, em frutificação, 9%, em floração e 4%, em desenvolvimento vegetativo. Quanto às condições das lavouras, 75% estavam em boas condições, 22%, em condições médias e 3%, em condições ruins. A ocorrência de chuvas tem interrompido ou reduzido o ritmo da colheita em algumas regiões. A qualidade dos grãos continua preocupando os produtores do Paraná.
Em Santa Catarina, de acordo com relatório divulgado pela Epagri/Cepa em 18 de setembro, 63% das lavouras estavam em fase de desenvolvimento vegetativo e 37%, em floração. Quanto às condições, 97% das lavouras apresentavam situação boa e apenas 3% estavam classificadas como regulares. No Rio Grande do Sul, conforme dados divulgados pela Emater-RS, períodos de tempo mais firme na maior parte do estado até 17 de setembro favoreceram o desenvolvimento das lavouras. Naquele momento, 5% das áreas estavam em maturação, 44%, em enchimento dos grãos, 39%, em floração e 12%, em desenvolvimento vegetativo. A previsão de chuvas nas regiões sul das Grandes Planícies dos Estados Unidos, onde se concentra grande parte do cultivo de trigo de inverno, pressiona as cotações futuras.
Conforme dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), a semeadura da safra de 2027 alcançava 8% das lavouras até o dia 13 de setembro. Com isso, o contrato Dezembro/26 do trigo Soft Red Winter negociado na Bolsa de Chicago registra recuo de 1,5% nos últimos sete dias, cotado a US$ 7,14 por bushel (US$ 262,44 por tonelada). Na Bolsa de Kansas, o contrato Dezembro/26 do trigo Hard Winter tem baixa de 1,8% no mesmo período, a US$ 7,83 por bushel (US$ 287,98 por tonelada). Na Argentina, os preços FOB divulgados pelo Ministério da Economia registram avanço de 0,8% nos últimos sete dias, a US$ 262,00 por tonelada. Conforme a Bolsa de Cereais de Buenos Aires, 50% do trigo estava entre o alongamento dos colmos e as fases posteriores. Quanto às condições, 97,5% das lavouras estavam entre normal e excelente, enquanto, em termos hídricos, 87,7% apresentavam umidade de adequada a ótima. Fonte: Cepea. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.