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12/Aug/2026

Entrevista com Adianor Borghetti - Fecoagro/RS

A cultura do trigo no Rio Grande do Sul enfrenta novo encolhimento na safra 2026, informa o presidente da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado do Rio Grande do Sul (Fecoagro/RS), Adriano Borghetti. Pressionados pela elevação nos custos de produção, pela compressão das margens de rentabilidade e pela volatilidade climática, os produtores gaúchos reduziram a área dedicada ao cereal em 31,5% neste ano, somando cerca de 790 mil hectares. O movimento consolida uma queda acumulada de 50% na área semeada com o grão no Estado nos últimos quatro anos, conforme dados da Rede Técnica Cooperativa (RTC).

Para cobrir os custos de instalação da lavoura, puxados principalmente pelos preços de fertilizantes e combustíveis, o agricultor precisa colher hoje 60 sacas por hectare, ante 45 a 50 sacas registradas na safra anterior. Em paralelo ao recuo do trigo, a canola se consolida como a principal alternativa de inverno no Estado. Impulsionada por preços firmes, alta liquidez no mercado e papel estratégico na rotação de culturas para controle de plantas daninhas, a área de canola quase dobrou no solo gaúcho, saltando de 200 mil hectares para aproximadamente 380 mil hectares.

Apesar do respiro, o cenário financeiro do produtor gaúcho continua delicado após intempéries climáticas sucessivas, que levaram ao endividamento e à restrição ao crédito bancário. Neste ambiente, o presidente da Fecoagro/RS para o triênio 2026/29, avalia que o setor estuda alternativas para estancar o endividamento e reorganizar a produção agrícola no Estado. Borghetti detalha na entrevista os gargalos da cultura do trigo, a ascensão da canola, os riscos de investimento para a próxima safra de verão (1ª safra 2026/2027) e os planos da entidade para apoiar as cooperativas do Estados. Segue a entrevista:

O produtor gaúcho vem enfrentando sucessivas safras com margens apertadas, custos elevados de insumos e restrição de crédito. Como a Fecoagro/RS avalia esse momento das culturas de inverno e a nova redução na área de trigo?

Adriano Borghetti: O cenário das culturas de inverno é bastante preocupante. O trigo sempre foi uma das principais culturas do Rio Grande do Sul, mas nos últimos quatro anos a área plantada caiu 50%. Nesta safra, segundo dados da RTC (Rede Técnica Cooperativa), que reúne 21 cooperativas, temos uma nova queda de 31,5% em relação ao ano anterior, ficando em cerca de 790 mil hectares. O trigo é uma cultura excelente para o sistema agrícola, pois dilui custos fixos da propriedade e ajuda na rotação de solo. Contudo, o custo elevado de produção e o preço do grão abaixo do necessário apertaram demais a rentabilidade e a relação de troca. Para se ter uma ideia, no ano passado, uma lavoura de médio custo exigia entre 45 e 50 sacas de trigo por hectare para fechar a conta. Este ano, essa exigência subiu para 60 sacas por hectare, impulsionada principalmente pelos aumentos nos preços de fertilizantes e combustíveis. Diante desse custo e das incertezas climáticas, muitos produtores preferiram não arriscar e reduziram o investimento ou saíram da cultura.

As chuvas intensas e as quedas de granizo registradas nas últimas semanas no Rio Grande do Sul trouxeram prejuízos para o trigo? Quais são os riscos climáticos para os próximos meses?

Adriano Borghetti: Até o momento, não tivemos impactos relevantes na produtividade geral do trigo, pois a maior parte das lavouras estava na fase de desenvolvimento vegetativo. Lavouras pontuais sofreram com granizo, mas nada que comprometa a safra do Estado como um todo. O risco maior está nas próximas etapas, quando a planta entra nas fases de emborrachamento e espigamento. As geadas tardias podem provocar grandes perdas. Já na fase de floração, o excesso de chuva favorece o aparecimento da giberela, uma doença fúngica que prejudica a qualidade do grão. Por fim, chuvas excessivas na pré-colheita fazem o trigo perder pH e qualidade comercial. É uma cultura de alta complexidade.

Em contrapartida ao recuo do trigo, a canola registrou um salto de área no Estado. O que tem motivado essa migração do produtor?

Adriano Borghetti: A canola tem evoluído de forma muito consistente no Rio Grande do Sul. As cooperativas vêm fazendo um trabalho técnico importante para mostrar a necessidade de diversificação do sistema de inverno, até mesmo para auxiliar no controle de plantas daninhas difíceis, como o azevém. Com a melhoria das tecnologias e variedades de sementes, a área de canola quase dobrou neste ano: saltou de 200 mil hectares na safra passada para cerca de 380 mil hectares. Trata-se de uma cultura que oferece boa liquidez de mercado e preços firmes, entregando uma relação de custo-benefício favorável ao produtor. Embora seja uma lavoura sensível e tenha sofrido danos por granizo e ventos fortes em pontos isolados, ela se consolidou como uma excelente opção para substituir parte da área que antes recebia trigo.

A perda de margem no inverno e a menor rentabilidade acumulada podem causar impacto nos investimentos e na área da próxima safra de verão de soja e milho no Estado?

Adriano Borghetti: Acredito que a área semeada de milho deve se manter estável em relação ao ano passado, assim como a de soja. O fator determinante para o verão será a cautela no nível de investimento. Em virtude da restrição de crédito e do endividamento acumulado, muitos produtores pretendem cortar despesas. O problema é que, para reduzir custos, alguns optam por diminuir a adubação ou deixar de aplicar calcário para correção do solo. No passado, o produtor gaúcho aplicava 300 kg a 350 kg de fertilizante por hectare; hoje, essa adubação caiu bastante. Essa redução no manejo do solo limita o potencial produtivo da lavoura. Não podemos generalizar, pois produtores com gestão rigorosa e pés no chão continuam bem estruturados, mas o fato é que o Rio Grande do Sul deixou de colher 30 milhões de toneladas de soja nos últimos quatro anos por causa de frustrações de safra. Isso traz um impacto financeiro gigantesco para produtores, cooperativas e para a economia do Estado.

Diante das dificuldades de caixa do produtor e das limitações das medidas federais de renegociação de dívidas, qual tem sido o papel das cooperativas para financiar a safra?

Adriano Borghetti: A Fecoagro/RS atua na representação institucional e política das cooperativas singulares, e são essas cooperativas que mantêm o contato direto com o produtor rural. Nos últimos anos, como muitos agricultores perderam o acesso ao crédito bancário tradicional por estarem alavancados, as cooperativas assumiram a responsabilidade de financiar a produção na ponta. Houve um crescimento expressivo das operações de barter - a troca na qual o produtor adquire sementes, fertilizantes e defensivos e trava o pagamento entregando um volume futuro de grãos, seja soja ou milho. As cooperativas foram fundamentais para manter a agricultura gaúcha de pé, mas isso também exige rigor de gestão para garantir o retorno desses recursos ao sistema cooperativo. Acompanhamos de perto a Medida Provisória de repactuação de dívidas lançada pelo governo, mas ela ainda é insuficiente e deixou muitos produtores e instituições financeiras de fora. Continuaremos trabalhando para destravar novos mecanismos de alongamento de dívidas com juros adequados.

Ferramentas de mercado de capitais, como Fiagros e Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), e o seguro agrícola têm sido alternativas viáveis para as cooperativas?

Adriano Borghetti: Algumas cooperativas associadas à federação buscam recursos via CRAs e Fiagros para complementar o caixa, mas o nível elevado da taxa básica de juros torna esse dinheiro caro, pressionando os custos financeiros das entidades. Sobre o seguro agrícola, vivemos um gargalo grave. A subvenção federal ao prêmio do seguro caiu nos últimos anos, enquanto as seguradoras, assustadas com as sucessivas perdas de safra no Rio Grande do Sul, elevaram o preço das apólices e reduziram os níveis de cobertura. Diante de um seguro caro e com baixa cobertura, muitos produtores preferem assumir o risco e plantar sem proteção, o que potencializa os prejuízos em anos de intempéries. Precisamos trabalhar fortemente para recompor a subvenção federal e buscar parcerias com o governo do Estado para criar um aporte estadual que barateie a contratação do seguro.

O senhor estará à frente da Fecoagro/RS para o triênio 2026-2029. Quais são as prioridades estratégicas da sua gestão para as cooperativas gaúchas?

Adriano Borghetti: Assumi a Fecoagro/RS em março com foco em dar mais suporte técnico, econômico e de comunicação às cooperativas singulares, fortalecendo nosso protagonismo institucional junto aos governos estadual e federal. Estamos realizando o planejamento estratégico da federação com a participação de 45 dirigentes para definir as metas dos próximos anos. As cooperativas do Rio Grande do Sul têm uma atuação ampla, cobrindo grãos (soja, milho, trigo, arroz, canola) e proteínas animais (leite, frango e suínos). Outra prioridade central da minha gestão é apoiar as iniciativas de intercooperação. Nosso compromisso é aprimorar a gestão, qualificar pessoas e assegurar competitividade ao produtor cooperado.

Fonte: Broadcast Agro.