12/Jun/2026
A safra brasileira de trigo tem neste ano um cenário desafiador. Especialistas destacam o aumento de custos do plantio, os riscos climáticos com a perspectiva da ocorrência do El Niño e o endividamento do produtor, o que deve se refletir, pelo segundo ano consecutivo, em menor área semeada tanto no Rio Grande do Sul como no Paraná, principais Estados produtores. No Rio Grande do Sul, a semeadura está em fase inicial, cobrindo, até a semana passada, 12% da área prevista, segundo dados da Emater-RS. A Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) estima que 800 mil hectares sejam semeados com trigo no Estado nesta temporada, ante 1,16 milhão de hectares em 2025. Se os números forem confirmados, esta será a segunda redução consecutiva de área plantada. A baixa rentabilidade atingiu níveis críticos. Por isso, a expectativa quanto a esta safra é negativa. Até o momento a Emater-RS não fez projeções para a produção 2026 de trigo.
Observa-se queda na utilização de sementes fiscalizadas e maior participação de recursos próprios no financiamento da safra, situação atribuída aos custos de produção elevados, que devem implicar uma redução de tecnologia no campo. O Índice de Inflação dos Custos de Produção (IICP), divulgado pela Farsul, registrou alta de 1,55% em abril, acumulando avanço de 4,9% no ano, impulsionado por uma valorização de 8% nos fertilizantes, cujos preços internacionais refletem as tensões no Oriente Médio. É um cenário de custo alto para formar a lavoura, porque os insumos encareceram muito, principalmente os adubos nitrogenados. Sobre os preços mais altos da ureia, decorrentes do conflito no Oriente Médio, uma das alternativas adotadas pelos produtores é a pulverização de nitrogênio líquido em vez de granulado. Eles estão fazendo uma adubação nitrogenada parcelada na hora do plantio junto com fósforo e com potássio, e depois fazem essa complementação com adubação líquida porque está mais barato. O trigo é comercializado no Rio Grande do Sul, em média, a R$ 65,50 por saca de 60 Kg.
No Paraná, o cenário é semelhante. Segundo o Departamento de Economia Rural (Deral/Seab), a área de trigo no Estado deve ser de 722 mil hectares, redução de 13% na comparação com o ano anterior. Até o dia 9 de junho, a semeadura no Paraná havia alcançado 78% da área, em linha com 2025. Os custos de produção mais altos desestimulam o plantio. No Estado, o valor médio é de R$ 68,80 por saca de 60 Kg, enquanto o custo operacional pode atingir R$ 80,49 por saca de 60 Kg. As médias estaduais escondem eficiências regionais. Às vezes, o produtor tem um tipo de solo que faz com que ele consiga produzir mais. Plantar trigo no inverno também rende uma excelente cobertura vegetal para o solo que receberá o grão de verão e isso acaba sendo considerado pelo produtor na decisão de cultivar trigo. As projeções do Deral indicam uma produção de 2,36 milhões de toneladas, retração de 18% em comparação com 2,86 milhões de toneladas da safra anterior. A produtividade média esperada para o cereal é de 3.272 Kg por hectare, inferior aos 3.476 Kg por hectare alcançados no ciclo passado.
Em relação aos preços do cereal, os especialistas veem o mercado pressionado. Apesar da redução de oferta do cereal, a oferta de trigo de países vizinhos limita a possibilidade de alta. Há ainda a concorrência do milho no mercado de ração, que também sinaliza um teto para as cotações do trigo de menor qualidade. Conforme a oferta de milho aumenta, ele é direcionado para o setor de ração no lugar do trigo. Para além das dinâmicas regionais de custo e plantio, o monitoramento do fenômeno climático El Niño consolida-se como o principal fator de apreensão comum para o potencial produtivo e a qualidade final do trigo brasileiro. No Paraná, existe o perigo de chuvas excessivas a partir de setembro em decorrência de El Nino. Há risco de a colheita atrasar. Vale lembrar que um ano mais chuvoso prejudica a qualidade do grão, diferentemente das perdas por seca vistas nos anos anteriores. No Rio Grande do Sul, o temor de El Niño reside no florescimento das lavouras entre agosto e setembro, momento em que o excesso de umidade propicia doenças fúngicas, exigindo aplicações intensivas de fungicidas que elevam o custo da atividade. O trigo do Rio Grande do Sul estava se notabilizando por ter qualidade muito boa, e até melhor do que o trigo argentino. Agora, há riscos novamente. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.