06/Oct/2026
O avanço do biodiesel amplia a demanda por óleo de soja e, simultaneamente, aumenta a importância econômica dos coprodutos gerados pelas operações de esmagamento, refino e produção de biocombustíveis. Com o Brasil operando sob B15 desde agosto de 2025 e a Lei do Combustível do Futuro prevendo aumentos anuais até 2030, a valorização de glicerina, lecitina, ácidos graxos e tocoferóis pode contribuir para diversificar receitas e proteger margens em um ambiente de maior sensibilidade ao custo da matéria-prima. Para 2026, a StoneX estima consumo de biodiesel de aproximadamente 10,4 milhões de m³ caso o B15 seja mantido. O governo também manifestou intenção de elevar a mistura para B16 ainda em 2026, embora, nas informações mais recentes disponíveis em julho de 2026, o B15 permanecesse em vigor e não houvesse confirmação da aprovação do B16. A maior demanda por óleo de soja ocorre em um cenário de preços elevados da matéria-prima.
O óleo bruto degomado estava cotado a R$ 6.953,38 por tonelada em São Paulo em março de 2026, recorde trimestral, o que aumenta a relevância econômica de cada receita adicional obtida com os coprodutos. A glicerina é o coproduto de maior volume e um dos que apresentam maior potencial de escala. Cada litro de biodiesel gera aproximadamente 10% de glicerina bruta, e a produção brasileira anual em 2026 deve superar 1 milhão de toneladas. O Brasil apresenta perfil essencialmente exportador do produto bruto. Em 2024, foram exportadas cerca de 598 mil toneladas de glicerina bruta, a preço médio de US$ 400,00 por tonelada, gerando aproximadamente US$ 240 milhões. Há estimativas setoriais de exportações de cerca de US$ 460 milhões no último ano e de aproximação de US$ 1 bilhão em 2026, mas esses números constituem projeções e não dados oficiais. China e Europa são os principais mercados compradores, com participações de 78,5% e 7,9%, respectivamente.
O mercado europeu apresenta maior valorização para a glicerina refinada. A Verified Market Research estimou o mercado mundial de glicerina refinada em US$ 1,76 bilhão em 2021, com projeção de US$ 2,8 bilhões em 2030, equivalente a um crescimento médio anual de 5,25%. Aproximadamente 40% da demanda global é destinada à produção de epicloridrina, utilizada na fabricação de resinas epóxi. A glicerina também é utilizada em cosméticos, produtos de higiene pessoal, medicamentos e alimentos. Na forma bruta, pode compor até 10% da dieta de ruminantes, dentro das regras estabelecidas pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). O principal potencial de agregação de valor está no refino. Abaixo de 99,5% de pureza, a glicerina tende a ser destinada a aplicações de menor valor, enquanto os graus USP e EP ampliam o acesso aos mercados farmacêutico e cosmético. As referências de preços apresentam grande dispersão. Em julho de 2026, uma referência de mercado indicava glicerina USP/BP FOB entre US$ 1.450,00 e US$ 1.475,00 por tonelada.
Referências brasileiras de 2023 e 2024 apontavam glicerina refinada entre US$ 450,00 e US$ 480,00 por tonelada FOB Santos e glicerina bruta em torno de US$ 300 por tonelada CIF China. Como essas referências envolvem diferentes regiões, datas e especificações, o diferencial efetivo precisa ser determinado a partir de cotações com compradores. A glicerina do Sudeste Asiático permanece mais competitiva que a brasileira em determinados mercados. Um projeto concreto de agregação de valor é o investimento de aproximadamente R$ 100 milhões do Grupo Potencial em uma refinaria de glicerina na Lapa (PR), com capacidade de até 50 mil toneladas por ano e inauguração prevista para 2026. O investimento equivale a cerca de R$ 2.000,00 por tonelada anual de capacidade. Em 2023, apenas 13 das 69 usinas de biodiesel do Brasil possuíam refinaria própria, indicando espaço para projetos integrados ou compartilhados.
A lecitina apresenta valor unitário superior, embora seja um mercado mais disputado e com menor disponibilidade de dados públicos para o Brasil. As estimativas internacionais variam conforme a metodologia. A Fortune Business Insights calcula o mercado mundial de lecitina de soja em US$ 623,7 milhões em 2025, com crescimento de 7,58% ao ano até 2034. A DataHorizzon estima US$ 1,34 bilhão em 2025, enquanto a Mordor projeta o mercado de lecitina em geral, considerando diferentes origens, em US$ 1,05 bilhão em 2025 e US$ 1,52 bilhão em 2031, crescimento anual de 6,06%. Para a lecitina de soja, a faixa de estimativas disponíveis situa o mercado entre aproximadamente US$ 0,6 bilhão e US$ 1,3 bilhão. Alimentos e bebidas respondem por 50,8% do consumo de lecitina. Os suplementos apresentam crescimento estimado de 8,67% ao ano, a lecitina orgânica avança 8,60% e a de girassol, 7,61%. Os maiores prêmios são obtidos em produtos destinados a consumidores que demandam rótulos limpos, matérias-primas não-GMO e produtos sem determinados alérgenos.
Empresas integradas de esmagamento, refino e produção de ingredientes especiais apresentam maior capacidade de defesa de margens. No Brasil, ainda há falta de dados públicos confiáveis sobre volume, preços e comércio exterior de lecitina. O levantamento por meio do Comex Stat, com identificação das respectivas NCMs, é necessário antes de decisões de investimento. A lecitina é obtida na etapa de degomagem do óleo bruto. Centrífugas separam as gomas hidratadas, que posteriormente passam por secagem a vácuo e resfriamento. Parte das esmagadoras incorpora essas gomas ao farelo, atribuindo-lhes o valor correspondente ao produto. A secagem e comercialização como lecitina fluida permite capturar um diferencial de valor, enquanto etapas adicionais possibilitam produzir lecitina desoleada, fracionada, padronizada ou não-GMO. Estimativas utilizadas em estudos de engenharia indicam plantas de 2 mil a 10 mil toneladas por ano, com margens brutas de 35% a 45% e líquidas de 18% a 25%.
Essas referências são provenientes de materiais comerciais e utilizam premissas potencialmente otimistas, devendo ser tratadas como indicativas para estudos preliminares. Os ácidos graxos representam outra oportunidade de integração entre esmagamento, refino e biodiesel. No refino químico, a borra constitui a principal matéria-prima para a produção de óleo ácido. Um estudo brasileiro identificou 27,6% de matéria graxa na borra, enquanto a acidulação resultou em concentrado de ácido graxo com 95,2% de matéria graxa. A Binatural caracteriza a borra como uma emulsão oleosa alcalina utilizada na produção de sabões e concentrados de ácidos graxos livres. As estimativas para o mercado internacional de ácidos graxos apresentam grande dispersão, variando de US$ 10 bilhões a US$ 175 bilhões conforme o escopo considerado. Um conjunto mais consistente de estimativas aponta para um mercado de aproximadamente US$ 34 bilhões a US$ 35 bilhões.
A Mordor estima US$ 34,27 bilhões em 2026, com crescimento anual de 5,31%, enquanto o mercado de oleoquímicos é estimado em US$ 35,58 bilhões em 2026, com os ácidos graxos representando 42%. A soja não é a principal matéria-prima dessa cadeia global. Óleo de palma e palmiste respondem por aproximadamente 63% da produção industrial de ácidos graxos, enquanto soja e colza, conjuntamente, representam cerca de 27%. Sabões e detergentes absorvem aproximadamente 41% do volume comercializado. No mercado brasileiro, o destino dominante dos ácidos graxos está relacionado ao próprio biodiesel. A transformação da borra em ácido graxo permite reinserir o produto na cadeia de produção do biocombustível. Outros mercados incluem sabões, graxas e coletores utilizados na flotação de minérios. A Binatural comercializa glicerina, ácido graxo e borra tanto no mercado interno quanto no exterior, incluindo a China.
O maior valor unitário potencial está nos tocoferóis, embora esse mercado seja também o mais dependente de escala e especificação. Os tocoferóis são obtidos a partir do destilado de desodorização do refino, conhecido como DD. Uma revisão técnica do USDA de 2024 indica concentração de 3% a 15% de tocoferóis nos DDs de soja. A soja respondeu por 46,25% das matérias-primas utilizadas na produção de vitamina E natural em 2025. A Fortune estima o mercado mundial de tocoferóis naturais em US$ 761,6 milhões em 2025 e US$ 857,6 milhões em 2026, com crescimento anual composto de 15,6% até 2034. Esse ritmo é considerado elevado em relação a outras referências do setor, que apontam crescimento de aproximadamente 5,6% ao ano para a vitamina E natural. A vitamina E sintética apresenta, em geral, menor preço, o que limita a expansão dos produtos naturais em mercados mais sensíveis ao custo. As referências de preços disponíveis são modeladas e não constituem cotações firmes.
Dados da IndexBox indicam DD de soja entre US$ 0,80 e US$ 1,50 por quilo, concentrado com 50% a 70% de tocoferóis entre US$ 18,00 e US$ 30,00 por quilo e d-alfa-tocoferol com pureza superior a 96% entre US$ 35,00 e US$ 55,00 por quilo. Nos Estados Unidos, tocoferóis mistos com concentração de 50% a 70% são referenciados entre US$ 15,00 e US$ 22,00 por quilo. O DD representa aproximadamente 40% a 55% do custo do produto final. A elevada dispersão entre as fontes reforça que esses valores devem ser utilizados apenas como ordem de grandeza. O mercado brasileiro de tocoferóis permanece pouco desenvolvido, e parte do DD produzido no País é comercializada para concentradores, muitos deles localizados na China. A China importa DD e obtém entre 60% e 70% de sua oferta das Américas. O primeiro estágio de agregação de valor para as refinarias brasileiras consiste em comercializar o DD com caracterização adequada de teor de tocoferol, acidez livre e certificações.
A concentração interna demanda processos como destilação molecular, esterificação e purificação e tende a ser economicamente viável apenas quando há volume agregado de diferentes refinarias. Em termos de priorização de investimentos, lecitina e óleo ácido aparecem como alternativas de menor complexidade e potencialmente menor necessidade de capital, utilizando estruturas já presentes nas plantas de esmagamento e refino. A lecitina também oferece possibilidades de diferenciação por meio de produtos não-GMO, desoleados e padronizados. A glicerina apresenta maior potencial de escala, impulsionada pelo crescimento da produção de biodiesel, mas o retorno depende do diferencial entre a glicerina bruta e a refinada e da capacidade de competir com produtores asiáticos. Nesse caso, associações regionais entre usinas podem permitir a divisão dos investimentos em uma refinaria e melhorar a escala econômica.
Para os tocoferóis, a estratégia de curto prazo tende a estar mais relacionada à comercialização qualificada do DD do que à implantação imediata de unidades de concentração. A caracterização do produto, a certificação e a contratação em períodos favoráveis de preços podem proporcionar ganhos sem a necessidade de grandes investimentos em novas plantas. Em uma operação de 100 milhões de litros por ano de biodiesel, a geração estimada é de aproximadamente 9 mil a 10 mil toneladas de glicerina bruta. Considerando um diferencial líquido hipotético entre refinar e vender o produto bruto de US$ 60,00 a US$ 150,00 por tonelada de glicerina bruta, o ganho bruto anual ficaria entre US$ 0,5 milhão e US$ 1,5 milhão. Com investimento estimado em aproximadamente R$ 20 milhões, o retorno poderia ocorrer em vários anos. A simulação indica que projetos de refino de glicerina tendem a apresentar melhor lógica econômica em operações de maior escala ou em estruturas compartilhadas entre usinas, e não necessariamente em unidades isoladas de pequeno porte.
As estimativas de investimentos e paybacks utilizadas nessa análise são indicativas e, exceto pelo projeto do Grupo Potencial, não correspondem a investimentos divulgados pelas empresas. Os valores servem para priorizar estudos e não para fundamentar decisões definitivas de investimento. Projetos efetivos exigem cotações de fornecedores, avaliação de mercado, disponibilidade de matéria-prima, custos logísticos e estudo de viabilidade específico para cada unidade. Também existem limitações relevantes nos dados disponíveis. Não foram identificados dados públicos confiáveis sobre volume e preços de lecitina e tocoferóis produzidos no Brasil. Os relatórios internacionais de mercado apresentam diferenças significativas de escopo e metodologia, podendo gerar estimativas divergentes em múltiplos. As cotações de glicerina e DD variam conforme região, data, pureza e especificação. Os investimentos e paybacks dos coprodutos, com exceção do projeto do Grupo Potencial, são estimativas e precisam ser validados em estudos técnicos e econômicos.
A indústria de soja e biodiesel entra em uma etapa em que eficiência operacional, escala industrial e capacidade de monetização dos coprodutos passam a ser elementos complementares da estratégia. Glicerina, lecitina, ácidos graxos e tocoferóis deixam de ser apenas resíduos ou coprodutos secundários e podem representar fontes adicionais de receita, diversificação de mercados e proteção das margens. O diferencial competitivo tende a depender menos exclusivamente da capacidade instalada e mais da capacidade de extrair maior valor de cada tonelada processada. Para esmagadoras e usinas de biodiesel, a estratégia passa por identificar o valor econômico dos coprodutos, mapear os mercados compradores, definir as especificações necessárias, dimensionar o investimento e estabelecer uma estrutura comercial capaz de transformar receitas secundárias em fontes recorrentes de margem. Fontes: Abiove, Imea, Mordor, Potencial, CNN Brasil, MDIC, MAPA, Stonex, Cepea, Verified Market, Fortune, DataHorrizon, Binatural, Reuters. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.