16/Sep/2026
A China está no caminho para cumprir a meta de comprar 25 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos em 2026, mas o avanço depende principalmente de aquisições direcionadas por empresas estatais chinesas, e não de uma retomada ampla da demanda comercial privada. Segundo análise da Demetrica, o principal risco para o cumprimento do compromisso deixou de estar relacionado à oferta agrícola e passou a ser político, diante da dependência das compras estatais e da evolução das negociações entre China e Estados Unidos. Os processadores privados chineses continuam abastecidos principalmente com soja brasileira, com parte relevante das necessidades de curto prazo já coberta até dezembro. Ao mesmo tempo, a soja norte-americana permanece em desvantagem tarifária no mercado chinês, reduzindo o incentivo comercial para que compradores privados acumulem grandes volumes dos Estados Unidos. Nesse contexto, as compras recentes têm sido concentradas em empresas estatais vinculadas ao compromisso comercial firmado entre os presidentes Donald Trump e Xi Jinping.
O compromisso teve origem no encontro entre Trump e Xi em outubro de 2025, quando o governo norte-americano anunciou que a China compraria pelo menos 12 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos nos dois últimos meses daquele ano e, posteriormente, ao menos 25 milhões de toneladas em cada ano civil entre 2026 e 2028. A primeira meta levou mais tempo do que o inicialmente previsto para ser alcançada e foi impulsionada principalmente por empresas estatais chinesas. Na base de ano civil estabelecida pelo acordo, a China importou aproximadamente 11,2 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos entre janeiro e agosto de 2026, alta de cerca de 89% em relação ao mesmo período de 2025. Além disso, havia 8,98 milhões de toneladas em vendas contratadas, mas ainda não embarcadas, segundo dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) com data de 3 de setembro. A soma entre o volume já importado e as vendas contratadas alcança 20,16 milhões de toneladas, equivalente a aproximadamente 81% da meta anual de 25 milhões de toneladas.
A Demetrica, contudo, ressalta que esse percentual não deve ser interpretado como cumprimento já assegurado, pois as 8,98 milhões de toneladas pendentes pertencem ao ano-safra 2026/27 e parte dos embarques poderá ocorrer somente depois de 31 de dezembro. O acordo considera o ano civil, criando um risco de descasamento entre as vendas contratadas e o prazo efetivo para contabilização da meta. Esse volume pendente concentra o principal risco para o cumprimento do compromisso. As vendas já contratadas podem ser adiadas ou canceladas, enquanto a elevada dependência de compras estatais torna os embarques mais sensíveis à evolução do ambiente político entre Washington e Pequim. Caso as negociações avancem e o governo chinês continue direcionando empresas estatais para a aquisição de soja norte-americana, a meta de 25 milhões de toneladas tende a se tornar cada vez mais factível.
Em caso de deterioração das relações bilaterais, porém, o elevado volume de vendas pendentes fica mais vulnerável a atrasos ou cancelamentos. Considerando apenas o volume efetivamente internalizado até agosto, a China ainda precisaria importar aproximadamente 14 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos em 2026 para atingir a meta. O volume é considerado factível dentro da janela sazonal de maior disponibilidade da soja norte-americana, concentrada em outubro e novembro. Os Estados Unidos possuem oferta e capacidade logística para atender esse fluxo adicional, enquanto o mercado chinês apresenta consumo suficiente para absorver as compras. A eventual confirmação da meta, entretanto, não representaria uma normalização das relações comerciais entre China e Estados Unidos nem uma retomada ampla da demanda privada chinesa pela soja norte-americana.
Os processadores privados chineses permanecem fortemente vinculados ao fornecimento brasileiro, que atualmente ocupa a posição de principal origem das importações chinesas. Em paralelo, o programa de compras dos Estados Unidos depende, em grande medida, da atuação de empresas estatais e de compromissos associados às negociações políticas entre os dois países. O cenário reforça a importância da disputa comercial para a formação dos fluxos globais de soja. A concentração das compras chinesas de soja norte-americana em estatais reduz a evidência de uma recuperação estrutural da competitividade dos Estados Unidos no mercado chinês. Para o Brasil, a manutenção da preferência dos compradores privados chineses pela soja brasileira preserva a posição do País como principal fornecedor, enquanto eventuais avanços ou retrocessos nas negociações entre Washington e Pequim podem alterar a distribuição dos embarques entre as duas origens. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.