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03/Sep/2026

Vantagem da soja brasileira na China é estrutural

Segundo a Demétrica Analytics, o Brasil construiu uma vantagem competitiva duradoura no mercado chinês de soja, enquanto os Estados Unidos dificilmente devem retornar à posição que ocupavam antes da guerra comercial com a China. As tensões comerciais aceleraram a perda de participação norte-americana, mas não foram a única causa da mudança. A expansão da produção brasileira, a melhoria da infraestrutura de exportação e a maior integração com as processadoras chinesas contribuíram para tornar essa alteração predominantemente estrutural. O declínio da participação da soja norte-americana nas compras chinesas é substancialmente estrutural, e não apenas cíclico. A China também teria incorporado, após a primeira guerra comercial com os Estados Unidos, a percepção de que a dependência excessiva de uma única origem amplia os riscos políticos relacionados ao abastecimento.

A recuperação das vendas norte-americanas para a China não está descartada, principalmente durante a janela sazonal de exportação dos Estados Unidos, período em que a soja norte-americana tende a apresentar maior competitividade. Um aumento das compras chinesas, contudo, não necessariamente representaria a recuperação da participação de mercado registrada antes do conflito comercial. Para recuperar uma parcela relevante do mercado chinês, os Estados Unidos precisariam combinar preços competitivos, redução ou eliminação de tarifas, condições favoráveis de frete e maior demanda chinesa. Mesmo nesse cenário, a avaliação é de que a China não deve retornar voluntariamente ao nível de dependência da soja norte-americana observado no passado.

O Brasil consolidou vantagem competitiva por meio da escala, do crescimento da produção e da integração cada vez mais profunda com a demanda chinesa. Esse conjunto de fatores amplia a capacidade brasileira de atender ao principal mercado importador mundial e reduz a possibilidade de uma reversão integral dos fluxos comerciais observados antes da guerra comercial. Paralelamente, o mercado norte-americano de soja passa por uma transformação estrutural. A expansão da capacidade de esmagamento nos Estados Unidos, impulsionada principalmente pela demanda por óleo de soja destinado ao diesel renovável e a outros biocombustíveis, vem elevando a participação do consumo doméstico justamente em um período de perda de força das exportações.

Dados mostram que, em 2012/2013, aproximadamente 44% da produção norte-americana de soja era destinada às exportações, enquanto 56% seguiam para o esmagamento. Em 2025/2026, as exportações representem cerca de 36% da produção, ante aproximadamente 62% direcionados ao processamento doméstico. As exportações norte-americanas de soja em 2025/26 devem terminar em torno de 42 milhões de toneladas. Mesmo com uma melhora dos embarques no fim do ano comercial, esse volume representaria o programa de exportação mais fraco desde 2012/13, apesar de uma produção significativamente maior que a registrada naquela temporada. Para 2026/27, portanto, a avaliação é de que o tamanho da safra norte-americana, isoladamente, não será suficiente para determinar o comportamento do balanço de oferta e demanda.

Também será necessário considerar o volume absorvido pelo esmagamento doméstico, o nível efetivo das compras chinesas de soja dos Estados Unidos e a competitividade do produto norte-americano em relação à soja brasileira. Um dos equívocos do mercado é pressupor que os fluxos comerciais retornarão automaticamente ao padrão histórico. A estrutura do mercado mundial de soja está em processo de mudança, com alterações permanentes nas relações entre produção, processamento, exportações e origens de abastecimento. Entre os principais riscos para a soja norte-americana em 2026/27 está a combinação de uma nova safra brasileira de grande volume com compras chinesas abaixo dos compromissos políticos assumidos ou fortemente concentradas no Brasil. Esse cenário poderia ampliar ainda mais a participação brasileira no mercado chinês e limitar a recuperação das exportações dos Estados Unidos. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.