03/Sep/2026
Segundo a Demétrica Analytics, compromissos de compra negociados entre Estados Unidos e China podem direcionar parte da demanda chinesa para a soja norte-americana, mas não são suficientes para recuperar a competitividade perdida para o Brasil. O principal teste para uma retomada sustentável da demanda será o retorno das processadoras privadas chinesas às compras de soja dos Estados Unidos por razões comerciais, sem depender de direcionamento do governo chinês. É necessário distinguir as compras de soja negociadas politicamente da demanda comercial sustentável. O governo chinês pode orientar empresas estatais a adquirir produtos agrícolas norte-americanos, mas essa estratégia não elimina os critérios econômicos considerados pelas processadoras.
Preço, frete, margem de esmagamento, teor de proteína, disponibilidade e tarifas continuam determinando a escolha entre a soja brasileira e a norte-americana. Se a soja brasileira continuar apresentando maior competitividade econômica, torna-se mais difícil para os compradores comerciais chineses manterem de forma recorrente um prêmio pela soja dos Estados Unidos. A diferença entre compras determinadas por compromissos governamentais e demanda comercial efetiva, portanto, será determinante para avaliar a sustentabilidade de uma recuperação das exportações norte-americanas. A distinção ganhou relevância nas últimas semanas. No início de agosto, tradings estatais chinesas, entre elas a Sinograin, realizaram compras estimadas por operadores em cerca de 1 milhão de toneladas de soja da nova safra dos Estados Unidos.
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) confirmou quase 500 mil toneladas em negócios, enquanto fontes do mercado relataram volumes adicionais. Esse foi o movimento mais agressivo de compras antecipadas da safra norte-americana pela China em quatro anos. Os negócios ocorreram após a queda das cotações na Bolsa de Chicago e antes da visita do presidente chinês, Xi Jinping, aos Estados Unidos, prevista para 24 de setembro. A China havia concordado em adquirir 25 milhões de toneladas de soja norte-americana por ano até 2028. Antes da rodada de compras de agosto, porém, os negócios para este ano somavam pouco mais de 4 milhões de toneladas. O principal fator de avaliação, contudo, não é apenas o volume adquirido, mas o perfil dos compradores.
Caso grandes volumes continuem dependendo das empresas estatais chinesas enquanto as processadoras privadas mantêm preferência pela soja brasileira, o movimento indicará uma recuperação limitada e diferente de uma retomada ampla da competitividade norte-americana. Um acordo comercial pode redirecionar as compras chinesas durante determinado período, mas não altera de forma permanente a dinâmica econômica do comércio internacional. Nesse contexto, a agricultura continuará sendo uma ferramenta relevante nas negociações entre os dois países, uma vez que compromissos de compra permitem aos dois governos anunciar resultados mensuráveis. Para os produtores norte-americanos, entretanto, um acordo relevante precisaria contemplar mais do que um volume elevado de compras anunciado.
Entre os fatores necessários estão a redução ou eliminação significativa das tarifas, compras suficientes para melhorar efetivamente o programa de exportação dos Estados Unidos, participação das processadoras privadas chinesas e maior previsibilidade para além de uma única safra. Um acordo comercial duradouro tende a ser mais relevante para o setor do que um anúncio de compras expressivo seguido por novo período de incerteza. A retirada das tarifas melhoraria a competitividade da soja norte-americana e poderia redirecionar parte do comércio para os Estados Unidos, especialmente durante sua janela sazonal de exportação. A eliminação das tarifas, porém, não reverteria as mudanças estruturais ocorridas na última década.
A produção brasileira de soja cresceu de forma expressiva, enquanto a China desenvolveu cadeias de suprimento cada vez mais integradas à soja brasileira. Dessa forma, a retirada de barreiras comerciais não elimina o aumento da produção brasileira nem o interesse chinês em diversificar suas fontes de abastecimento. Em sentido contrário, uma nova escalada das tensões comerciais entre Estados Unidos e China voltaria a deixar os produtores norte-americanos vulneráveis a uma redução rápida da demanda chinesa. O risco reforça a importância de avaliar a recuperação das exportações não apenas pelos volumes negociados em acordos políticos, mas pela capacidade de reconquistar competitividade no mercado chinês. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.