03/Sep/2026
Segundo a StoneX, o cumprimento integral do compromisso da China de comprar 25 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos nos próximos 12 meses pode apertar o balanço norte-americano a ponto de deslocar compradores tradicionais para o Brasil e criar condições para aumento das importações de soja brasileira pelos próprios Estados Unidos. A oferta norte-americana não é suficiente para acomodar esse volume adicional de demanda, o consumo doméstico e as exportações projetadas sem uma safra significativamente maior que a atualmente esperada. Nesse cenário, o mercado global teria de reorganizar os fluxos comerciais da oleaginosa. A tendência seria de fortalecimento dos preços físicos nos Estados Unidos e redução relativa dos preços no Brasil, de forma a estimular compradores que tradicionalmente recorrem à soja norte-americana, mas que não sejam a China, a migrar para a oferta brasileira. Esse movimento permitiria redistribuir a disponibilidade global diante da maior parcela da produção dos Estados Unidos destinada ao mercado chinês.
O ajuste poderia chegar ao ponto de tornar-se economicamente atrativas as importações de soja brasileira pelos próprios Estados Unidos. O país já registrou, em seu maior volume anual, importações de aproximadamente 2 milhões de toneladas de soja. Nesse caso, a necessidade de abastecimento poderia levar a um aumento das compras brasileiras, enquanto outros clientes habituais dos Estados Unidos seriam direcionados para fornecedores da América do Sul. O risco de aperto ocorre em um momento de forte demanda doméstica norte-americana. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) estima a produção de soja em 2026/27 em cerca de 123 milhões de toneladas, recorde. O esmagamento doméstico está projetado em aproximadamente 75,7 milhões de toneladas, as exportações em 45,2 milhões de toneladas e os estoques finais em apenas 8,7 milhões de toneladas. A projeção oficial também evidencia a mudança estrutural no balanço norte-americano.
Em agosto, o USDA elevou a estimativa de esmagamento para a temporada, em razão da forte demanda por óleo de soja destinado à produção de biocombustíveis. O consumo doméstico, sustentado pelas políticas norte-americanas de combustíveis renováveis, é considerado um dos principais diferenciais deste ciclo. Paralelamente, a China mantém o compromisso de adquirir 25 milhões de toneladas de soja dos Estados Unidos por ano até 2028. O volume representa mais da metade de toda a exportação norte-americana projetada pelo USDA para 2026/27. O acordo, entretanto, não elimina a vantagem de preço construída pelo Brasil no mercado chinês. Em 2025, a China adquiriu apenas 15% de sua soja dos Estados Unidos, ante 41% em 2016, em um período marcado pelo crescimento da oferta brasileira e pelas tensões comerciais entre China e Estados Unidos. A expectativa é de que a China cumpra a meta de 25 milhões de toneladas, apesar do histórico irregular de execução de compromissos comerciais.
A motivação das compras atuais é considerada mais política do que econômica, já que a soja norte-americana normalmente chega aos portos chineses com preço superior ao produto brasileiro. A China estaria disposta a absorver parte dessa diferença como componente de uma negociação comercial mais ampla com os Estados Unidos, envolvendo também acesso ao mercado consumidor norte-americano e a tecnologias dos Estados Unidos. A competitividade relativa da soja norte-americana também é afetada pelo câmbio. A valorização do dólar ante o Real já reduziu a competitividade do produto dos Estados Unidos em diferentes momentos, mesmo antes da consideração das tarifas. A vantagem brasileira tende a aumentar nos próximos anos, apoiada pelo câmbio e pela possibilidade de o produtor brasileiro realizar duas safras na mesma área ao longo do ano, diluindo parte dos custos fixos de produção. Esse diferencial reforça a necessidade de os Estados Unidos ampliarem as fontes internas de consumo de soja, principalmente por meio dos biocombustíveis.
O aumento do esmagamento doméstico contribui para absorver parte da produção e reduzir a dependência do mercado externo, especialmente em um ambiente de maior competição com o Brasil. O cumprimento integral do acordo chinês, portanto, não implicaria necessariamente redução imediata das compras chinesas de soja brasileira. O principal efeito poderia ocorrer sobre os demais destinos da soja norte-americana. Com uma parcela maior da oferta dos Estados Unidos direcionada à China, compradores tradicionais teriam de buscar volumes em outros países, ampliando o espaço comercial do Brasil no mercado internacional. A valorização excessiva dos preços nos Estados Unidos, contudo, poderia reforçar a competitividade brasileira no longo prazo. Preços norte-americanos muito elevados tenderiam a estimular uma expansão ainda maior da produção de soja no Brasil, aumentando a oferta global e pressionando posteriormente os retornos dos produtores dos Estados Unidos. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.