31/Aug/2026
A pesquisadora do Cepea/Esalq-USP e professora da Esalq/USP Nicole Rennó Castro participaram do 65º Congresso da European Regional Science Association (ERSA), realizado entre 25 e 28 de agosto, em Sofia, na Bulgária. No evento, foram apresentados resultados de dois estudos desenvolvidos por meio da parceria entre o Cepea e a Abiove. O primeiro estudo analisa como as variações no preço do farelo de soja são transmitidas aos preços das rações no Brasil. Os resultados já foram divulgados pelo Cepea e pela Abiove em material técnico disponível no site do Cepea e comentados pelos autores na coluna Vozes do Agro, da Globo Rural. A pesquisa mostra que o repasse das variações dos preços do farelo para as rações é forte, mas gradual e assimétrico. A principal contribuição do estudo foi, portanto, demonstrar que o canal de transmissão farelo–ração existe e é economicamente relevante. Esse mecanismo, porém, opera de forma gradual, fazendo com que seus efeitos sejam menos facilmente percebidos pela sociedade, e de maneira assimétrica, o que limita parte dos ganhos decorrentes de uma redução dos preços do farelo. O segundo estudo, ainda inédito, analisa como a expansão territorial da produção de soja se relaciona com o desenvolvimento econômico local e com a interiorização de outros elos da cadeia. Os principais resultados são:
* Em média no Brasil, cada 1.000 hectares adicionais de soja no próprio município estão associados a aproximadamente 11 novos empregos formais fora da agropecuária, R$ 3,6 milhões adicionais de PIB não agropecuário real e 49 novos residentes. Isso indica que a expansão da soja não movimenta apenas a atividade agrícola: ela também amplia a demanda por comércio, transporte, serviços e outras atividades locais. Esse resultado médio, contudo, encobre diferenças importantes entre os municípios.
* Nas cidades com até 10.417 habitantes e naquelas entre 10.418 e 21.512 habitantes, o crescimento do emprego, do PIB não agropecuário e da população está mais ligado à expansão da soja no próprio município. Nesses casos, a produção agrícola funciona como um impulso direto para a economia local. Nos centros maiores, essa dinâmica se desloca progressivamente para a produção regional: essas cidades atendem não apenas à sua própria produção, mas também à demanda gerada pelos municípios produtores ao redor. Entre os municípios com mais de 48.303 habitantes, cada 1.000 hectares adicionais de soja nos municípios vizinhos estão associados a cerca de 68 novos empregos formais não agropecuários, R$ 9,4 milhões adicionais de PIB não agropecuário real e 118 novos residentes.
* A expansão da cadeia também apresenta uma organização regional. A geração de empregos na produção de soja ocorre em municípios de todos os portes, mas as atividades industriais não se distribuem da mesma forma. Os empregos nas indústrias de óleos vegetais, biodiesel e rações passam a responder positivamente à expansão regional da soja nos municípios com mais de 21.512 habitantes e se concentram sobretudo nos maiores centros urbanos. Isso sugere uma divisão de funções entre os municípios: enquanto a produção agrícola se espalha pelo território, as etapas industriais tendem a se instalar em centros regionais capazes de reunir matéria-prima, infraestrutura, logística, trabalhadores e acesso a mercados.
Mais importante, a interiorização dessas atividades industriais também se relaciona a efeitos econômicos expressivos, embora concentrados em centros regionais com população entre aproximadamente 87 mil e 342 mil habitantes. Nesse grupo, cada emprego adicional nos segmentos industriais da cadeia está associado a cerca de 19 empregos formais em outras atividades, R$ 2,6 milhões adicionais de PIB não agropecuário real, R$ 2 milhões em valor adicionado pelos serviços e 44 novos residentes. O resultado mostra que a atração de uma indústria da cadeia pode ampliar a atividade econômica muito além de seus próprios postos de trabalho. Sua operação mobiliza transporte, manutenção, comércio, serviços empresariais e atividades voltadas aos trabalhadores e às suas famílias, reforçando o papel desses municípios como polos econômicos do interior. Fonte: Cepea.