27/Aug/2026
A canola está ganhando espaço nas lavouras do Rio Grande do Sul, impulsionada principalmente pela demanda da indústria de biocombustíveis. A área plantada no Estado saltou 74% em apenas uma safra e alcançou 366 mil hectares em 2026, segundo estimativa da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). O Rio Grande do Sul responde por praticamente toda a área cultivada com canola no Brasil. A mudança ocorre após um longo período em que a canola era negociada com desconto de aproximadamente 10% em relação à soja. Com o crescimento da utilização da oleaginosa na produção de biodiesel, a relação de preços se alterou e atualmente a canola é negociada com prêmio de R$ 5 a R$ 10 por saca de soja. Esse diferencial, contudo, depende do comportamento dos preços do óleo e ainda está associado a um mercado em fase de desenvolvimento.
O principal vetor da transformação é a indústria de biodiesel. A 3tentos, que possui uma fábrica de biodiesel em Ijuí (RS), investiu R$ 60 milhões para adaptar equipamentos originalmente projetados para produzir o biocombustível a partir da soja e permitir também o processamento da canola. A unidade emprega mais de 250 pessoas e, embora tenha flexibilidade para utilizar diferentes fontes de gordura, incluindo matéria-prima animal, passou a direcionar parte da estratégia de originação para a canola. A vantagem industrial da canola está principalmente no maior teor de óleo. A oleaginosa apresenta percentual de óleo entre 39% e 42%, enquanto a soja possui cerca de 20%. O restante da matéria-prima resulta em farelo nos dois casos. Com o óleo de canola negociado atualmente em aproximadamente R$ 6 mil por tonelada, a composição da receita favorece o esmagamento da canola, com receita quase três vezes superior à obtida com o farelo.
A diferença de teor de óleo permite que a canola seja adquirida a valores próximos aos da soja e, ainda assim, apresente potencial de margem superior para a indústria. A estratégia de expansão da 3tentos também mostra a velocidade de crescimento da demanda industrial. A empresa originou cerca de 70 mil toneladas de canola no ano passado e pretende alcançar 160 mil toneladas em 2026. Esse volume permitiria que a fábrica de biodiesel de Ijuí operasse durante cinco meses utilizando canola como matéria-prima. A expansão pode ganhar novo impulso caso avancem projetos relacionados à produção de combustíveis sustentáveis de aviação (SAF) no Rio Grande do Sul. A expectativa é de que o projeto em estudo da Refinaria Riograndense possa acrescentar demanda por óleo e farelo caso a produção de SAF em larga escala avance.
Como cultura de segunda safra, a canola também apresenta potencial para fornecer matéria-prima para SAF destinado à exportação para a União Europeia. Do ponto de vista industrial, a principal diferença em relação à soja está no processamento. A canola exige uma etapa adicional de prensagem. No primeiro processo, são extraídos cerca de 20% do óleo. O material restante segue para uma etapa de banho com solvente, que permite a separação adicional do óleo e do farelo. Com a retirada do solvente, a extração total de óleo chega a aproximadamente 40%. A 3tentos vem aprimorando essa etapa industrial. Depois de adquirir uma tecnologia que não atingiu a capacidade operacional esperada, a empresa realizou novo investimento para a safra atual. A expectativa é que o custo de processamento da canola se aproxime do custo de esmagamento da soja, em Reais por tonelada.
A necessidade de acionar prensas adicionais é parcialmente compensada pela não utilização de outros equipamentos empregados no processamento da soja para produção de biodiesel. No campo, a competitividade econômica também favorece a expansão. Em média, uma lavoura de canola exige de 14 a 15 sacas por hectare em insumos e apresenta rendimento de aproximadamente 25 a 26 sacas por hectare. O resultado representa uma margem física de 10 a 12 sacas por hectare, avaliação considerada favorável em relação à soja e ao trigo. Na região, a 3tentos utiliza principalmente operações de barter para a originação do grão. A empresa também mantém um centro tecnológico de pouco mais de 30 hectares em Santa Bárbara do Sul (RS), destinado a testes de manejo de diferentes culturas, incluindo a canola, com o objetivo de ampliar o conhecimento técnico disponível aos produtores da região.
Na mesma área de influência, um produtor que administra 1,1 mil hectares cultivou 130 hectares de canola em 2026, substituindo áreas que seriam destinadas ao trigo e com entrega prevista para a 3tentos. A comparação com o trigo também favorece a canola em alguns aspectos. Embora o trigo apresente produtividade superior, exige maior número de aplicações de defensivos e está sujeito a descontos relacionados aos padrões de qualidade, inclusive em função do pH. Na canola, ainda não existe um padrão de qualidade consolidado, o que proporciona maior previsibilidade sobre o valor recebido pelo produtor. A 3tentos avalia a implantação de um sistema de classificação semelhante ao utilizado no Uruguai, com possibilidade de pagamento de prêmios de acordo com determinados parâmetros, mas o projeto ainda está em estágio inicial.
O avanço da canola, entretanto, não é isento de riscos agronômicos. Como cultura de inverno e segunda safra, a canola pode afetar as condições para o cultivo da soja subsequente. A colheita deixa pouca palha no sistema, reduzindo a cobertura do solo e podendo elevar o risco de erosão em períodos de excesso de chuva. Assim, a rentabilidade direta de 10 sacas por hectare precisa ser avaliada em conjunto com o possível impacto sobre a produtividade da soja cultivada posteriormente. Esse fator limita a possibilidade de substituição generalizada do trigo ou de expansão da canola para toda a área de soja do Rio Grande do Sul. A tendência mais provável é de maior utilização da oleaginosa em rotação com o trigo, permitindo que os produtores ajustem a composição das culturas de inverno de acordo com rentabilidade, condições agronômicas e demanda industrial. A 3tentos possui atualmente participação de aproximadamente 30% do mercado de canola comercializada no Brasil e pretende manter essa posição à medida que a área cultivada cresce.
A estimativa da empresa é de que a área estadual, atualmente próxima de 400 mil hectares, possa alcançar 1 milhão de hectares em dois a três anos. O potencial representa expansão expressiva, mas ainda distante dos cerca de 7 milhões de hectares ocupados pela soja no Rio Grande do Sul. O movimento indica que a canola começa a deixar de ser apenas uma alternativa tradicional de cultivo de inverno para assumir função estratégica na integração entre agricultura e biocombustíveis. A combinação de maior teor de óleo, demanda industrial crescente, possibilidade de prêmio sobre a soja e expansão da capacidade de processamento cria condições para aumento da área. Ao mesmo tempo, a sustentabilidade desse crescimento dependerá da relação entre preços do óleo e da matéria-prima, da eficiência industrial, da estrutura de comercialização e, principalmente, dos efeitos da cultura sobre o sistema produtivo da soja na safra seguinte. Fonte: TheAgriBiz Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.