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17/Aug/2026

Biocombustíveis: previsibilidade regulatória é desafio

O Brasil reúne condições para ampliar sua participação no mercado global de biocombustíveis, apoiado pela disponibilidade de matérias-primas, capacidade produtiva e desenvolvimento tecnológico, mas a expansão depende de maior previsibilidade regulatória no mercado doméstico e da redução de barreiras não tarifárias nos mercados externos. A combinação desses fatores será determinante para transformar a vantagem produtiva brasileira em novos investimentos, mercados e demanda para cadeias de cana-de-açúcar, milho e soja. O potencial de crescimento extrapola os mercados tradicionais de etanol e biodiesel. O combustível sustentável de aviação (SAF), os biocombustíveis destinados ao transporte marítimo e novas aplicações industriais do etanol representam frentes adicionais de expansão. No caso do SAF, o investimento médio em uma planta é estimado em US$ 1,5 bilhão, o que torna contratos de longo prazo para aquisição do combustível um elemento importante para viabilizar o financiamento dos projetos.

A demanda doméstica das companhias aéreas brasileiras, isoladamente, não seria suficiente para absorver toda a produção de plantas de maior escala, aumentando a necessidade de acesso a mercados externos. A inserção internacional, contudo, enfrenta barreiras não tarifárias, especialmente na Europa. A expansão das exportações dependerá da capacidade do Brasil de sustentar, com evidências técnicas e científicas, a sustentabilidade das matérias-primas utilizadas na produção de biocombustíveis e de ampliar a atuação institucional na defesa dos critérios brasileiros de produção e descarbonização. A segurança regulatória doméstica e a estratégia comercial externa passam, portanto, a ser elementos complementares para a atração de capital e a abertura de mercados. A disponibilidade de matérias-primas constitui uma das principais vantagens competitivas do Brasil. A 2ª safra representa um diferencial relevante para a oferta de grãos destinados às cadeias de biocombustíveis.

Cerca de 40% da soja plantada já ocorre na 2ª safra, enquanto a produção de milho apresentou forte crescimento na última década. Essa estrutura amplia a disponibilidade de matéria-prima e permite maior integração entre produção agrícola, processamento industrial e geração de energia renovável. O transporte marítimo aparece como uma das principais novas fronteiras para o etanol. Testes com motores capazes de utilizar o biocombustível indicam potencial de aplicação na descarbonização do transporte marítimo. Caso 10% do combustível utilizado pelo setor marítimo fosse substituído por etanol, a demanda adicional poderia alcançar cerca de 60 bilhões de litros. O volume supera a capacidade atual de oferta e evidencia que a abertura desse mercado exigiria expansão relevante da produção brasileira. A dimensão atual da indústria brasileira também oferece uma base para essa expansão. O País possui 368 usinas de etanol, incluindo unidades de milho e cana-de-açúcar, e 58 usinas de biodiesel.

A produção anual é de aproximadamente 63 bilhões de litros de etanol e 16 bilhões de litros de biodiesel. O crescimento dessas cadeias gera efeitos adicionais sobre o agronegócio, com maior demanda por soja para produção de biodiesel e aumento da oferta de farelo destinado à produção de proteína animal. No etanol de milho, o DDG, coproduto do processamento, também amplia a geração de valor dentro da cadeia. A expansão da demanda será fundamental para absorver o aumento potencial da produção. Além do transporte marítimo, o etanol de milho pode avançar em aplicações químicas e na produção de bioplásticos, enquanto a tecnologia álcool-to-jet permite a transformação de álcool em SAF. Essas alternativas reduzem a dependência dos mercados tradicionais e podem ampliar a capacidade de agregação de valor da produção agrícola brasileira. No mercado de biodiesel, a previsibilidade da política de mistura permanece como fator relevante para a formação das expectativas de investimento.

O mandato está atualmente em B15, com 15% de biodiesel adicionado ao diesel, enquanto o avanço para B16 permanece em discussão. A possibilidade de mudanças nos percentuais de mistura, incluindo debates sobre B16 e B25, interfere diretamente na projeção de demanda e, consequentemente, na decisão de investimentos em capacidade produtiva. A questão regulatória ganha maior importância diante do elevado volume de capital necessário para novas plantas. Incertezas sobre mandatos, regras de comercialização e acesso a mercados podem elevar o risco percebido pelos investidores e dificultar a contratação de financiamento de longo prazo. Para o capital internacional, a estabilidade institucional passa a ser um componente relevante da competitividade brasileira, ao lado da disponibilidade de matéria-prima e dos custos de produção. O cenário externo adiciona outra fonte de risco. Barreiras não tarifárias, mudanças nas políticas comerciais de grandes compradores e critérios de sustentabilidade podem limitar a expansão das exportações mesmo quando o Brasil apresenta vantagem em disponibilidade e custo de matéria-prima.

A consolidação de novos mercados exigirá, portanto, não apenas aumento da produção, mas também maior capacidade de comprovar os atributos ambientais dos biocombustíveis brasileiros e de antecipar mudanças regulatórias nos países importadores. A perspectiva para o setor é de expansão das oportunidades, mas condicionada à convergência entre segurança regulatória, investimentos, diversificação da demanda e acesso internacional. O Brasil possui escala produtiva e disponibilidade de matérias-primas para ampliar a participação nos mercados de etanol, biodiesel e SAF, além de explorar aplicações marítimas e industriais. O principal desafio será transformar essa vantagem estrutural em contratos, investimentos e mercados permanentes, reduzindo a exposição às incertezas regulatórias domésticas e às barreiras comerciais externas. Fonte: Exame. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.