23/Jul/2026
O padrão estrutural que define os prêmios
A série histórica de prêmios portuários da soja brasileira no Porto de Paranaguá, entre 2023 e 2026, revela um padrão que se repete com consistência: o primeiro semestre concentra as piores cotações, e o segundo semestre oferece as melhores janelas de comercialização. Essa sazonalidade não é aleatória — ela reflete diretamente o déficit de armazenagem do país. Sem espaço para guardar a safra, o produtor vende no pico da oferta, deprime os prêmios e perde renda. Quem armazena e aguarda o segundo semestre captura a recuperação.
2023 — O pior ano da série
2023 foi o ano de maior pressão sobre os prêmios da série analisada. A média anual ficou em apenas US$ 0,10/bushel em Paranaguá, com cinco meses em território negativo. O ponto mais crítico foi abril, com prêmio de menos US$ 1,59/bushel — o pior registro de toda a série. O primeiro semestre acumulou média de menos US$ 0,53/bushel, com quatro meses negativos. A recuperação só veio no segundo semestre, quando a média subiu para US$ 0,72/bushel, mas o dano à renda dos produtores que venderam entre março e junho já estava feito.
2024 — Recuperação parcial, padrão sazonal mantido
Em 2024 houve melhora, mas o primeiro semestre ainda registrou média negativa de menos US$ 0,28/bushel em Paranaguá, com quatro meses abaixo de zero — sendo fevereiro o pior, com menos US$ 1,00/bushel. A virada ocorreu a partir de maio, e o segundo semestre foi expressivamente positivo, com média de US$ 1,24/bushel e nenhum mês negativo. Setembro e outubro empataram no topo da série anual com US$ 1,62/bushel. O diferencial entre vender no pior e no melhor momento de 2024 chegou a US$ 2,62/bushel.
2025 — O melhor ano da série: nenhum mês negativo
2025 representou uma ruptura positiva em relação ao padrão anterior. Foi o único ano da série sem nenhum mês com prêmio negativo no Porto de Paranaguá — média anual de US$ 0,97/bushel. O primeiro semestre, historicamente problemático, registrou média de US$ 0,48/bushel, e o segundo semestre alcançou US$ 1,46/bushel, com agosto no topo com US$ 1,88/bushel. A combinação de maior disciplina na comercialização, demanda firme da China e menor pressão de oferta simultânea explicam parte desse resultado. 2025 é a referência do que o mercado pode oferecer quando a oferta é melhor gerenciada.
2026 — Normalização com leve deterioração no primeiro semestre
2026 manteve o padrão sazonal, porém com primeiro semestre ligeiramente mais fraco que 2025. A média do primeiro semestre ficou em US$ 0,41/bushel em Paranaguá, com março marginalmente negativo em menos US$ 0,11/bushel — o único mês negativo do ano. O segundo semestre sustentou média de US$ 1,13/bushel, com setembro no topo em US$ 1,27/bushel. A média anual de US$ 0,77/bushel consolida 2026 como um ano de prêmios razoáveis, abaixo de 2025 mas muito superior a 2023.
2027 — Sinal de alerta no primeiro semestre
Os dados disponíveis para 2027, cobrindo janeiro a junho no Porto de Paranaguá, indicam deterioração em relação aos dois anos anteriores. A média do primeiro semestre está em apenas US$ 0,05/bushel — três meses já registraram valores negativos: março (menos US$ 0,20/bushel), abril (menos US$ 0,23/bushel) e maio (menos US$ 0,08/bushel). Abril de 2027, com menos US$ 0,23/bushel, é o segundo pior abril da série, atrás apenas de abril de 2023, quando o prêmio chegou a menos US$ 1,59/bushel.
Comparando com a média histórica dos mesmos meses entre 2023 e 2026, o início de 2027 ficou acima da média — janeiro (US$ 0,55 vs. média histórica de US$ 0,29) e fevereiro (US$ 0,15 vs. média histórica de menos US$ 0,11) — mas a partir de março o padrão se deteriorou, com junho registrando apenas US$ 0,10/bushel, abaixo da média histórica de US$ 0,24/bushel para o mês.
O sinal mais relevante é que 2027 volta a apresentar um primeiro semestre com meses negativos em Paranaguá, interrompendo a sequência favorável de 2025 e 2026. Se o padrão sazonal se mantiver — e a série histórica sugere que sim — o segundo semestre de 2027 deve oferecer recuperação significativa, potencialmente acima de US$ 1,00/bushel entre agosto e outubro. Mas o produtor sem capacidade de armazenagem que vendeu entre março e maio de 2027 já realizou prêmios negativos, repetindo o ciclo de perdas que a série documenta de forma sistemática.
O que a série revela como regra
Quatro anos de dados no Porto de Paranaguá consolidam uma leitura clara: o Brasil tem um problema crônico de sazonalidade de prêmios que é agravado — e em grande parte causado — pelo déficit de armazenagem. Quando o produtor tem armazém e pode escolher quando vender, captura o segundo semestre. Quando não tem, vende no primeiro semestre e realiza, sistematicamente, os piores prêmios do calendário. O diferencial médio entre o pior e o melhor semestre na série 2023–2026 é superior a US$ 1,50/bushel — renda que muda completamente a viabilidade econômica de uma safra.
Fonte: Carlos Cogo - Cogo Inteligência em Agronegócio.