13/Jul/2026
A valorização do óleo de soja registrada na Bolsa de Chicago durante o primeiro semestre de 2026 foi parcialmente refletida no mercado brasileiro. Enquanto os preços internacionais foram sustentados pela demanda norte-americana por biocombustíveis, pela valorização do petróleo e pela melhora das margens de esmagamento, o Brasil registrou aumento da oferta em decorrência do processamento recorde de soja e da manutenção da mistura obrigatória de biodiesel no diesel em 15% (B15), sem a implementação do B16. No mercado interno, o óleo de soja bruto degomado, com ICMS de 12%, na região de São Paulo, atingiu R$ 6.953,38 por tonelada em 24 de março, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), maior valor desde 1º de dezembro de 2025. Atualmente, a cotação está em R$ 6.500 por tonelada, recuo de 6,5% em relação ao pico registrado no primeiro trimestre. Esse comportamento ampliou o descolamento entre os preços domésticos e internacionais.
Enquanto o óleo impulsionou as cotações do complexo soja na Bolsa de Chicago, no Brasil a maior disponibilidade do produto tornou as exportações o principal mecanismo para absorção do excedente. A diferença entre os mercados decorre principalmente do comportamento da demanda. Nos Estados Unidos, o consumo de óleo de soja para combustíveis renováveis vem sustentando o mercado físico e fortalecendo as cotações futuras. No Brasil, a expectativa de aumento da demanda doméstica foi reduzida pela manutenção da mistura obrigatória em B15, adiando o consumo adicional que seria proporcionado pela adoção do B16. A elevação da mistura já vinha sendo defendida pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), que argumentava que o País reunia condições técnicas para ampliar o percentual sem necessidade de novos testes, considerando que a regulamentação da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) admite variação entre 14,5% e 15,5% nos postos de combustíveis.
Entretanto, o Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) condicionou qualquer alteração à conclusão dos testes técnicos previstos na Lei do Combustível do Futuro. A indústria também fundamenta a proposta na elevada capacidade instalada de processamento. Segundo a Abiove, o parque industrial brasileiro possui capacidade anual entre 72 milhões e 73 milhões de toneladas de soja, superior ao volume atualmente processado. A utilização plena dessa capacidade permitiria ampliar significativamente a produção de farelo e óleo de soja, elevando a oferta destinada tanto ao mercado doméstico quanto às exportações. Estudos do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Esalq/USP indicam ainda que cada tonelada de soja processada gera R$ 5.746,00 em valor adicionado à economia, enquanto a exportação direta do grão gera R$ 1.862,00 por tonelada. Mesmo sem alteração na mistura obrigatória, o processamento continuou avançando.
Em junho, a Abiove elevou sua estimativa de esmagamento de soja no Brasil em 2026 para 63 milhões de toneladas, ante 62,5 milhões projetados anteriormente. A previsão de produção de óleo foi revisada para 12,65 milhões de toneladas, enquanto a estimativa de exportações do derivado passou para 1,65 milhão de toneladas. Entre janeiro e abril, o processamento industrial atingiu 18,124 milhões de toneladas, crescimento de 10,1% em relação ao mesmo período de 2025. Segundo a Abiove, a expansão do esmagamento não resultou em restrição de oferta. A entidade avalia que os estoques finais permanecem superiores aos observados em anos anteriores, refletindo a combinação entre safra elevada e ampliação da capacidade industrial. Apenas em 2026 foram incorporadas aproximadamente 5 milhões de toneladas anuais de capacidade adicional de esmagamento, resultado de investimentos realizados principalmente por empresas ligadas ao segmento de biodiesel.
Dados da StoneX reforçam esse cenário. A consultoria informa que as vendas de biodiesel cresceram 7,5% na comparação anual, enquanto a oferta de óleo de soja avançou 9,4%, impulsionada pelo processamento recorde observado no primeiro quadrimestre. Com maior disponibilidade interna, as exportações brasileiras de óleo de soja aumentaram 44% entre janeiro e maio, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). O aumento da oferta reduziu o diferencial de preços entre o óleo brasileiro e a referência internacional. A StoneX estima que, em junho, o diferencial em Paranaguá (PR) variou entre 15 e 25 centavos de dólar negativos por libra-peso em relação à Bolsa de Chicago, atingindo os menores níveis da série histórica acompanhada pela consultoria. Esse desconto favorece as exportações, mas evidencia que o crescimento da oferta doméstica superou a expansão da demanda interna. As exportações contribuem para reduzir parte da pressão provocada pela manutenção da mistura em B15, embora não eliminem completamente o excedente.
O Brasil deverá responder por aproximadamente 16% do consumo mundial de óleo de soja em 2026/27, equivalente a cerca de 11,5 milhões de toneladas, mas a evolução desse volume continuará condicionada à política nacional de biodiesel. Na avaliação do setor, como a elevação da mistura não ocorreu em 2026, a próxima atualização prevista para março de 2027 poderá levar diretamente ao B17. A Abiove avalia que qualquer avanço na mistura obrigatória teria impacto imediato sobre a demanda doméstica. Segundo a entidade, o aumento de 1% na mistura durante um ano completo elevaria a demanda por biodiesel em aproximadamente 1 milhão de metros cúbicos, equivalente a cerca de 1 bilhão de litros, exigindo incremento próximo de 4 milhões de toneladas no esmagamento de soja. De acordo com o cronograma do setor, os testes técnicos que condicionam a elevação da mistura deverão ser concluídos até o final de 2026. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.