26/Jun/2026
O fenômeno El Niño já está configurado e pode ganhar intensidade no último trimestre do ano, período que coincide com o avanço do plantio de soja nas principais regiões produtoras do Brasil. Modelos climáticos indicam anomalia de temperatura superior a 2°C, o que caracterizaria um evento de intensidade forte a muito forte, com potencial de impactos relevantes sobre o regime de chuvas no País. O efeito do fenômeno depende da interação com outros fatores climáticos, como temperatura do Atlântico, massas de ar frio, frentes frias e distribuição das precipitações, sem configuração automática de quebra generalizada de safra. A análise indica que os impactos tendem a ser regionais, variando conforme a localização geográfica e o calendário de plantio de cada área produtiva. Em Mato Grosso, principal produtor de soja do Brasil, eventos anteriores de El Niño mostraram efeitos distintos sobre a produtividade.
Em 2015/16, a média caiu de mais de 52 sacas de 60 Kg por hectare para 47 sacas de 60 Kg por hectare. Em 2023/24, o recuo foi mais acentuado, de 64 sacas de 60 Kg por hectare para 54 sacas de 60 Kg por hectare, em um contexto de restrição hídrica prolongada em parte do Centro-Oeste e ocorrência de seca severa ou extrema em ampla parcela dos municípios brasileiros. O risco se estende à 2ª safra de milho de 2027, uma vez que eventuais atrasos no plantio da soja deslocam a colheita e comprimem a janela do milho 2ª safra, ampliando a exposição a ondas de calor e irregularidade de chuvas. Mato Grosso do Sul apresenta histórico de alta incidência de ondas de calor, com queda média de produtividade do milho de 33% no ciclo 2023/24 em evento anterior de El Niño. Em Goiás, os impactos sobre a soja tendem a ser menores, mas o milho 2ª safra também apresenta sensibilidade elevada ao fenômeno.
Na região do Matopiba, formada por Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, a exposição ao risco climático é maior devido ao forte crescimento da área cultivada, que avançou 179% desde o início da última década. Em eventos anteriores, o milho registrou perdas superiores a 30% em Tocantins e acima de 50% no Piauí, evidenciando elevada vulnerabilidade a períodos de veranico e irregularidade de chuvas. O cenário reforça a necessidade de planejamento prévio à safra, com avaliação de estrutura de custos, definição de produtividade mínima para sustentação da margem e estratégias de contingência para eventuais atrasos de janela. O alinhamento entre calendário agrícola e financeiro é apontado como fator central para a gestão de risco. A cobertura de seguro rural ainda alcança menos de 10% da área agrícola brasileira, indicando baixa proteção frente a eventos climáticos adversos. O contexto reforça a importância de mecanismos de mitigação de risco para sustentar a estabilidade produtiva em um cenário de maior incerteza climática. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.