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19/Jun/2026

Grãos: El Niño amplia risco para safra 2026/2027

Segundo a Rural Clima, a instalação de um episódio de El Niño de forte intensidade poderá elevar significativamente os riscos para a produção brasileira de grãos na safra 2026/27, especialmente para a soja do Cerrado e para o milho de 2ª safra. O padrão climático deve ser marcado por chuvas irregulares, períodos de estiagem e temperaturas elevadas ao longo do ciclo produtivo. O atual aquecimento das águas do Oceano Pacífico apresenta características semelhantes às observadas em 1997/98, considerado um dos eventos mais intensos já registrados, e difere do padrão observado em 2023/24. A expectativa é de que o aquecimento supere 2°C, configurando um episódio forte de El Niño, embora ainda sem evidências que sustentem classificações mais extremas. O principal foco de preocupação está no Cerrado brasileiro.

A previsão indica ocorrência de chuvas entre agosto e outubro, porém de forma irregular e insuficiente para garantir a regularização do regime hídrico. O cenário previsto combina precipitações isoladas, veranicos frequentes e temperaturas elevadas, com normalização mais consistente das chuvas apenas a partir de meados de novembro. Esse comportamento climático pode comprometer o calendário de plantio da soja. A ocorrência de chuvas antecipadas tende a estimular a semeadura, mas a falta de regularidade pode aumentar riscos de replantio, falhas de estabelecimento das lavouras e perdas de produtividade, repetindo parcialmente problemas observados na safra 2023/24. Além da irregularidade hídrica, o calor excessivo representa um fator adicional de risco. Temperaturas médias acima de 30°C a 32°C ampliam o estresse fisiológico das plantas, reduzem a eficiência do desenvolvimento vegetativo e podem intensificar eventuais perdas produtivas.

O milho de 2ª safra concentra as maiores preocupações para o ciclo 2026/27. Caso o plantio da soja ocorra de forma mais escalonada devido à irregularidade das chuvas, a colheita também poderá ser retardada, deslocando a janela de semeadura do milho para períodos menos favoráveis. Ao mesmo tempo, a Rural Clima trabalha com a hipótese de encerramento antecipado das chuvas em 2027, possivelmente já durante a primeira quinzena de abril. Nesse cenário, parte das lavouras de milho poderá atravessar fases críticas de desenvolvimento sob restrição hídrica, elevando significativamente o potencial de perdas produtivas. A combinação entre plantio tardio e redução precoce das precipitações representa atualmente o principal risco para a produção nacional de grãos. A presença do El Niño durante os meses de fevereiro e março de 2027 tende a favorecer esse comportamento climático, mesmo que o fenômeno já esteja em processo de enfraquecimento.

Os impactos potenciais não se limitam à produção agrícola. A seca prevista para a Região Norte poderá reduzir os níveis dos rios da bacia amazônica e comprometer a logística de exportação pelo Arco Norte. Em eventos recentes de estiagem severa, restrições operacionais afetaram significativamente a navegação de barcaças e a movimentação de cargas nos corredores fluviais. Por outro lado, o cenário tende a ser mais favorável para Região Sul do Brasil e para a Argentina. O aumento das chuvas associado ao El Niño pode beneficiar as lavouras de soja e milho nessas regiões, embora exista risco de excesso de precipitações durante o período de colheita no outono de 2027. Nos Estados Unidos, não se identifica, até o momento, ameaças climáticas relevantes para as culturas de soja, milho e algodão associadas ao fenômeno.

Apesar da elevação dos riscos climáticos, o atual cenário não deve ser interpretado como um evento catastrófico. A agricultura brasileira apresenta hoje maior capacidade de adaptação em comparação a episódios anteriores, sustentada por avanços tecnológicos, melhoramento genético, evolução das práticas de manejo e aprimoramento das condições dos solos. Os riscos climáticos associados ao El Niño ainda não estão incorporados aos preços dos mercados agrícolas. Eventuais ajustes nas cotações deverão ocorrer à medida que o plantio avance e que os impactos efetivos das irregularidades climáticas se tornem mais evidentes ao longo do segundo semestre. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.