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19/Jun/2026

Óleo de Palma: entrevista Victor Almeida-Abrapalma

A recorrente renovação das cotas de isenção do imposto de importação para o óleo de palma refinado dificulta prever preços e isso tem travado investimentos na expansão da cultura no Brasil, diz o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Palma (Abrapalma), Victor Almeida. Em entrevista, ele cita a "concorrência desigual" com o Sudeste Asiático, sobretudo com Indonésia e Malásia, que concentram a maior parte da oferta global, em um ambiente de custos trabalhistas, previdenciários e ambientais diferente do brasileiro. "Trazer esse óleo para o mercado interno, subsidiando a indústria deles, enquanto nós cumprimos todas as regras, turva o horizonte para o nosso agricultor", afirma. O Brasil tem cerca de 283 mil hectares plantados com palma de óleo, produção próxima de 700 mil toneladas por ano (concentrada no estado do Pará), e importa aproximadamente 300 mil toneladas, conforme dados da Abrapalma.

Almeida diz que a indústria de alimentos tem recorrido cada vez mais à cota atual sem imposto, de 150 mil toneladas, em vigor desde janeiro, sem que no mercado local haja desabastecimento. Segundo ele, cerca de 80 mil toneladas foram consumidas até agora, justamente no período em que a safra nacional começa a entrar no mercado. Para o executivo, a cadeia tem espaço para crescer em alimentos, biodiesel e, no longo prazo, em combustíveis avançados, mas depende de crédito de longo prazo, regularização fundiária e estabilidade tributária. A Abrapalma pretende apresentar em novembro um plano para o Brasil alcançar 1 milhão de hectares plantados com palma nos próximos dez anos. segue a entrevista:

O setor de alimentos no Brasil tem uma demanda firme por óleo de palma, mas o País ainda recorre às importações. Qual é o tamanho real da cadeia hoje e por que a oferta nacional não fecha essa conta?

Victor Almeida: O Brasil tem cerca de 283 mil hectares plantados com palma de óleo, produção de cerca de 700 mil toneladas por ano e importações próximas de 300 mil toneladas. Embora a área plantada tenha crescido nos últimos anos, a palmeira começa a produzir entre o terceiro e o quarto ano e se estabiliza por volta do sexto ano. Assim, o investimento inicial é elevado e a entrada de novas áreas em produção não ocorre de forma imediata. No Brasil, a demanda está concentrada principalmente no setor de alimentos. Com a proibição regulatória da gordura trans hidrogenada, grandes indústrias de alimentos precisaram mudar formulações e passaram a usar palma em margarinas, recheios e biscoitos, porque ela é o substituto natural e mais barato no mercado. O óleo de palma tem características físicas específicas, como uma alta concentração de triglicerídeos de cadeia palmítica, o que faz com que ele solidifique à temperatura ambiente.

Se existe mercado consumidor garantido, quais são os principais gargalos econômicos para acelerar o plantio no País?

Victor Almeida: O primeiro entrave é financeiro. Por ser uma cultura perene e de longo prazo, o investidor precisa de linhas de crédito com prazos longos e carência. O crescimento que estamos registrando tem vindo essencialmente da agricultura familiar, que possui suporte do Pronaf Bioeconomia. O modelo é excelente para fixar o produtor no campo e distribuir renda, mas esbarra no limite de R$ 250 mil por empréstimo, valor suficiente para plantar cerca de 9 a 10 hectares. Para ganhar escala, precisamos estruturar milhares de famílias e criar condições para produtores pequenos e médios ampliarem área. O segundo ponto é a falta de previsibilidade provocada pela política tarifária federal. O Brasil já teve um plano nacional estruturado, em 2010, que ajudou a impulsionar a cultura. Desde a pandemia, porém, o governo vem renovando cotas de isenção tarifária para o óleo refinado importado.

A indústria argumenta que a retirada dessas cotas poderia gerar desabastecimento. Esse risco é real?

Victor Almeida: Não há risco de desabastecimento. A cota atual, de 150 mil toneladas, aberta em janeiro, consumiu cerca de 80 mil toneladas até o momento. Isso mostra que há produto nacional disponível e que o ritmo de importação está lento porque a produção local abastece o mercado. O grande problema é que esses navios com óleo importado sem tarifa chegam ao Brasil exatamente no momento de pico da nossa colheita. No ano passado, empresas locais ficaram com estoques travados até abril por não conseguirem competir com o preço do produto de fora. Além disso, o governo brasileiro comete um erro estratégico ao isentar o óleo refinado e não o óleo bruto. A Indonésia taxa a exportação do óleo bruto porque quer que a atividade de refino e a geração de empregos fiquem lá dentro. O Brasil está ignorando a nossa capacidade industrial instalada para refinar esse produto aqui.

Do ponto de vista comercial e de custos, o produto que vem do Sudeste Asiático chega aos portos brasileiros em condições mais competitivas do que o produzido no Pará?

Victor Almeida: A competição é desigual porque Indonésia e Malásia operam sob condições trabalhistas e regulatórias muito diferentes das brasileiras. Não há o mesmo conjunto de obrigações com salário, alimentação, transporte, previdência social e equipamentos de proteção exigido no Brasil. O mercado norte-americano já aplicou sanções e baniu empresas daquela região por denúncias de trabalho forçado e degradante. O produtor brasileiro, por sua vez, segue uma legislação trabalhista e ambiental rigorosa e absorve esses custos na planilha de produção. Não bastasse isso, o frete para trazer um navio da Indonésia até Santos gira em torno de US$ 120 por tonelada. O custo logístico rodoviário para transportar o óleo do Pará até o mercado consumidor de São Paulo fica entre R$ 850 e R$ 870 por tonelada, o equivalente a cerca de 15% do valor do produto. Por incrível que pareça, é mais caro cruzar o País do que cruzar o oceano.

A cadeia de processamento de palma no Brasil é concentrada. Isso traz fragilidade aos produtores independentes?

Victor Almeida: A concentração industrial não gera distorções porque o preço do fruto é indexado ao valor do óleo bruto no mercado internacional. É uma commodity global e o produtor não fica refém de uma dinâmica local, pois a paridade de importação dita o preço. Além disso, o perfil das indústrias está mudando. No início, as empresas precisavam ter 100% de plantio próprio para garantir o processamento dentro da janela de 24 horas pós-colheita, porque o fruto é altamente perecível. Hoje, empresas tradicionais como Agropalma e Belém Bioenergia já processam um porcentual relevante de frutos de terceiros e da agricultura familiar. O setor caminha para um modelo mais parecido com o da soja: as usinas tendem a se tornar cada vez mais industriais, enquanto o fornecimento da matéria-prima ficará mais concentrado em produtores independentes.

Para o agricultor familiar, a palma é uma atividade remuneradora?

Victor Almeida: É uma atividade muito relevante. A agricultura familiar já ocupa cerca de 39 mil hectares e está presente nos municípios produtores. O modelo dá previsibilidade porque o agricultor planta com contrato de compra da produção e o preço do fruto é vinculado ao preço do óleo. Um produtor com 10 hectares em fase produtiva pode ter uma renda muito superior à de culturas de subsistência. O principal custo é fertilizante, porque a mão de obra costuma ser da própria família. Para muitos agricultores, a palma trouxe algo que eles não tinham: previsibilidade de renda, possibilidade de planejamento, compra de equipamentos e permanência dos filhos no campo. Esse é um dos principais argumentos para expandir a cultura com pequenos e médios produtores.

A logística tira competitividade do óleo produzido no Pará?

Victor Almeida: Tira parte da competitividade. A produção está concentrada no Norte, enquanto o maior consumo está no Sudeste, no Sul e no Centro-Oeste. O frete interno pesa bastante. Mesmo assim, há espaço para ganho de escala, especialmente se o consumo regional crescer, se a indústria local se desenvolver e se houver mais previsibilidade para investimento.

O óleo de palma rende mais por hectare do que a soja e costuma ser citado como matéria-prima relevante para a transição energética. Por que a participação no biodiesel ainda é tímida?

Victor Almeida: Hoje, cerca de 10% da produção brasileira de óleo de palma é destinada ao biodiesel, processado em duas plantas no Pará. A participação ainda é limitada porque o programa de biodiesel no Brasil foi desenhado ao redor do complexo soja, com as principais usinas concentradas nas regiões Sul e Centro-Oeste. Trazer óleo de palma do Norte para competir em preço e logística com o óleo de soja disponível ao lado dessas usinas sempre dificultou o negócio. O cenário começa a mudar com a instalação de usinas de biodiesel no próprio Pará. Nossa visão para os próximos cinco anos é de que o aumento do mandato de mistura vai pressionar a oferta de óleo de soja. Como cada tonelada de óleo processada gera obrigatoriamente farelo, o esmagador pode enfrentar um teto se aumentar o esmagamento apenas para atender o mercado de energia. É nesse ponto que o óleo de palma tende a se tornar mais competitivo para combustíveis renováveis no Brasil.

O setor vê SAF e diesel verde como mercados reais para 2030 ou 2035?

Victor Almeida: Não vejo isso impactando as projeções de curto prazo do mercado brasileiro de palma, por duas razões. A primeira é o fator logístico e de refino: é mais competitivo converter uma estrutura que já existe do que construir uma biorrefinaria do zero. O segundo ponto é uma barreira de percepção internacional criada pela experiência da Indonésia, onde a cultura ficou associada ao desmatamento. No Brasil, a realidade é diferente. O cultivo usa áreas já abertas, muitas vezes pastagens degradadas, e tem potencial de balanço de carbono melhor do que outras culturas. Com o tempo, as palmas híbridas desenvolvidas com genética amazônica e as metas nacionais de mistura devem abrir espaço para esse mercado. Vejo isso mais para 2030 em diante. Na nossa avaliação, o óleo de palma também tende a ter vantagem técnica em relação ao óleo de soja para SAF, por possuir uma cadeia de carbono menor e exigir menos manipulação no processo de refino.

Quais são os planos da associação para dar escala à cultura e quais áreas seriam prioritárias para a expansão?

Victor Almeida: Em novembro vamos divulgar formalmente um plano para que o Brasil atinja 1 milhão de hectares plantados nos próximos dez anos. Para isso, precisamos destravar três pilares: linhas de crédito adequadas para produtores médios e pequenos, regularização fundiária e previsibilidade tributária, com manutenção de proteção contra importações em condições desiguais. Vamos trazer o caso da Colômbia como referência. O país saiu de 60 mil para 660 mil hectares com crédito de longo prazo e fomento à agricultura familiar sem as limitações severas de área por produtor que temos aqui. Geograficamente, a região amazônica tem áreas aptas ao cultivo, incluindo Pará, Rondônia, Roraima, Amapá e Acre. O Pará continua sendo nossa prioridade pela base industrial e logística já instalada. Outra meta é avançar em sistemas agroflorestais, consorciando dendê com cacau, para transformar essa combinação em um ativo de reflorestamento produtivo e gerador de renda.

Fonte: Broadcast Agro.