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17/Apr/2026

EUDR: método identifica origem geográfica da soja

Cientistas britânicos desenvolveram um método capaz de identificar a origem geográfica da soja, a partir da composição química do próprio grão. A técnica foi apresentada como ferramenta adicional de verificação de procedência em cadeias complexas e tem aplicação potencial no Regulamento Antidesmatamento da União Europeia (EUDR), previsto para entrar em vigor no fim de 2026. O estudo foi publicado nesta semana na revista científica Communications Earth & Environment, do grupo editorial Nature, por pesquisadores do Kew Gardens, em Londres, da Universidade de Sheffield e da organização World Forest ID. A lógica do método, que considera na localização uma margem de 192 quilômetros, é que cada região produtora deixa nos grãos uma combinação química própria, moldada pelo solo e pelo clima local.

Os pesquisadores mediram isótopos estáveis, variantes naturais de elementos como hidrogênio, carbono e oxigênio que o grão absorve durante o crescimento, e 14 minerais e metais característicos do solo onde a soja foi cultivada. Um modelo estatístico cruza essas informações com um banco de dados que inclui localização geográfica de cada amostra e estima o ponto provável de colheita no mapa. O estudo utilizou 267 amostras coletadas no Brasil, na Argentina e na Bolívia durante a safra de 2022. Segundo os autores, os três países respondem por mais de 94% da soja produzida na América do Sul. Os pesquisadores testaram três configurações do modelo: uma só com isótopos, uma só com minerais e uma combinando as duas análises. A versão combinada foi a mais precisa e reduziu a área de busca para 440 mil quilômetros quadrados, equivalente a 3,8% do território considerado na análise.

Na prática, isso significa que o sistema não aponta a fazenda exata, mas consegue restringir a verificação de procedência a uma porção específica do mapa, em vez de depender apenas da origem declarada pelo exportador. Os autores descrevem o resultado como um avanço na rastreabilidade de commodities, que permite tanto a determinação de origem quanto a verificação de declarações de origem no espaço geográfico real. A aplicação mais imediata apontada pelo estudo é o uso em checagens ligadas ao EUDR. A norma europeia exige que importadores comprovem as coordenadas geográficas precisas de onde a commodity foi produzida e que essa produção respeitou a legislação do país de origem. O artigo alerta que declarações de origem são passíveis de fraude e que tarifas comerciais impostas recentemente pelos Estados Unidos sobre produtos agrícolas podem criar incentivo financeiro adicional para falsificações de procedência.

Com o método, autoridades poderiam confrontar a origem declarada de um carregamento com a assinatura química do próprio grão. As autoridades competentes estão encarregadas de realizar verificações de conformidade usando quaisquer meios técnicos e científicos adequados para determinar o local exato de produção", citam os pesquisadores, reproduzindo trecho do próprio texto do EUDR para justificar a pertinência da ferramenta. O custo por amostra varia entre US$ 50,00 e US$ 120,00 para a análise de minerais e entre US$ 200,00 e US$ 500,00 para os isótopos, dependendo da quantidade de amostras processadas e do número de variáveis medidas. Os autores listam limitações. Quase metade das previsões ficou a mais de 200 quilômetros do ponto real de colheita. A precisão cai em regiões próximas a fronteiras políticas, como a divisa entre Brasil e Argentina, onde um pequeno desvio pode deslocar a previsão para o outro lado da linha.

Na coleta de amostras, os pesquisadores enfrentaram resistência de produtores localizados próximos a frentes de desmatamento, que frequentemente se recusaram a fornecer material. A tecnologia não deve ser vista como uma solução definitiva, mas como uma técnica a ser adicionada ao conjunto de ferramentas disponíveis para autoridades e outros atores. O estudo foi publicado num momento em que a governança privada da cadeia brasileira da soja passou por mudança. Em janeiro de 2026, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) retirou o setor da Moratória da Soja, compromisso voluntário que vedava a compra de grãos produzidos em áreas da Amazônia desmatadas após julho de 2008. O artigo menciona a Moratória da Soja como referência de sistema de monitoramento que combina cadastro de fazendas, imagens de satélite, visitas de campo e registros de produção, e afirma que cada fonte adicional de informação aumenta a qualidade das previsões do modelo.

Os pesquisadores também alertam para uma brecha regulatória com efeito direto sobre o Brasil. O EUDR, na redação atual, define desmatamento como a perda de cobertura de copa, isto é, a área de vegetação coberta pelas copas das árvores, acima de 10%, critério que deixa fora biomas como o Cerrado e o Chaco. A Moratória da Soja exerceu proteção efetiva contra o desmatamento na Amazônia brasileira, o que inadvertidamente desviou a pressão do desmatamento para o Cerrado. As taxas de supressão de vegetação no Cerrado continuaram a crescer até 2024. O Chaco, bioma semiárido que se estende pelo Paraguai, pela Bolívia e pela Argentina, também passou por aceleração do desmatamento nas últimas décadas e não conta com proteção regulatória equivalente. Acordos comerciais e regulamentações precisam acompanhar as rápidas mudanças na paisagem, o que ressalta a necessidade urgente de incluir todos os biomas afetados na legislação antidesmatamento. Brasil, Argentina e Bolívia, os três países considerados no estudo, são responsáveis por mais de 90% do desmatamento associado à soja no continente. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.