10/Apr/2026
A crise fitossanitária que travou em março os embarques de soja do Brasil para a China revelou que a China é capaz de interferir no ritmo do maior fluxo bilateral de commodities agrícolas do mundo quando tem razões para isso. O episódio "parece uma campanha coordenada". O Brasil viveu em março um roteiro que os Estados Unidos já conhecem: medidas técnicas usadas como instrumento de pressão no momento mais sensível da safra. A China respondeu por 75% das exportações brasileiras de soja no acumulado de janeiro a março, segundo a Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec). Em março, o Brasil embarcou 15,84 milhões de toneladas, alta de 0,7% sobre igual mês de 2025, mas os embarques ao país asiático ficaram 1,16 milhão de toneladas abaixo do ano anterior. Holanda, México, Tailândia e Bangladesh absorveram parte dessa diferença.
Para abril, a Anec projeta 15,78 milhões de toneladas, crescimento de 16,9%, com a colheita já em 82,1% da área na primeira semana do mês. As autoridades chinesas se mostraram "repentinamente muito tolerantes" com ervas daninhas em cargas brasileiras poucos dias depois de o presidente norte-americano, Donald Trump, sinalizar o adiamento da cúpula com Xi Jinping, encontro que o mercado esperava como gatilho para novos compromissos chineses de compra de produtos agrícolas dos Estados Unidos. O momento foi classificado como deliberado. Pico da colheita, exportações em aceleração, logística sob pressão. É o momento perfeito para ‘mandar um sinal’ a um fornecedor. Restrições repentinas apareciam, relacionadas a pragas, fungos, ervas daninhas, níveis de umidade, material estranho, até a cor do grão.
Cada uma apresentada como questão técnica, cada uma difícil de contestar. Mas, o timing nunca era aleatório. A China tinha incentivo econômico concreto para desacelerar o fluxo. Em 2025, a enxurrada de soja brasileira zerou as margens das esmagadoras chinesas, saturou o mercado de óleo de soja e transformou a China em exportadora do produto. Neste ano, além da nova safra recorde do Brasil, ainda estava a caminho parte das 12 milhões de toneladas de soja norte-americana prometidas por Xi em outubro. A China retomou a propaganda sobre dietas animais com baixo teor de proteína e republicou, em veículos estatais, diretrizes nutricionais orientando consumidores a reduzirem o consumo de óleo vegetal. Há precedentes. Restrições ligadas ao fungo Phytophthora, em 2003, coincidiram com um salto das importações chinesas, e reclamações sobre materiais estranhos na soja norte-americana surgiram em 2017, durante forte expansão das exportações dos Estados Unidos.
A crise começou no início de março, quando a Administração Geral de Aduanas da China (GACC) passou a exigir tolerância zero para sementes de ervas daninhas, revestimentos de agrotóxicos e danos por calor nos carregamentos brasileiros. Em 6 de março, Cargill, CHS e Cofco pediram esclarecimentos ao Ministério da Agricultura. A Cargill suspendeu os embarques para a China e interrompeu as compras no mercado doméstico. Cerca de 20 navios, equivalentes a 1,2 milhão de toneladas, ficaram retidos nos portos aguardando inspeção. O ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, defendeu o endurecimento da fiscalização. Em 13 de março, o Ministério da Agricultura publicou ofício voltando a permitir que as controladoras coletassem amostras na maior parte dos embarques, mas a emissão do certificado seguiu condicionada à análise oficial, processo que leva de quatro a cinco dias.
Em 17 de março, Carlos Fávaro propôs a criação de um protocolo sanitário bilateral e descartou risco de bloqueio. "Se esse fosse o interesse da China, já teria feito", afirmou. Reconheceu, porém, que desde a abertura do mercado chinês à soja brasileira nunca foi estabelecido um protocolo formal entre os dois países. Em 20 de março, uma delegação brasileira viajou à China para negociar. O resultado foi uma solução provisória: a China suspendeu a exigência de tolerância zero até que os dois países definam um limite formal. As cargas ainda precisam estar livres de sementes tratadas quimicamente e insetos vivos. A resolução não muda o quadro estrutural. Os dados só fazem sentido quando vistos como parte de uma política coordenada. Se a estratégia de exportação depende esmagadoramente de um único comprador, o fornecedor “não controla o jogo”. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.