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25/Mar/2026

China flexibiliza exigências sobre a soja brasileira

A decisão da China de aceitar, de forma provisória, que cargas de soja do Brasil destinadas ao processamento industrial não precisem cumprir a exigência de “tolerância zero” para sementes de ervas daninhas sugere que o impasse fitossanitário esteve ligado também à tentativa de controlar o ritmo e o momento das importações, e não apenas a uma preocupação técnica. As autoridades chinesas se mostraram repentinamente muito tolerantes com sementes de ervas daninhas em carregamentos de soja brasileira poucos dias depois do presidente norte-americano, Donald Trump, anunciar o adiamento de sua cúpula com Xi Jinping. A sequência de eventos enfraquece a interpretação de que o problema era exclusivamente sanitário. A flexibilização veio em um momento decisivo, logo depois de o presidente Donald Trump sinalizar o adiamento do encontro com Xi, reunião que vinha sendo vista pelo mercado como janela para novos compromissos chineses de compra de produtos agrícolas norte-americanos.

A China recorre com frequência a temas fitossanitários como instrumento de gestão de fluxo em períodos de mudança de oferta e de sensibilidade política. A China tem um histórico de bloquear remessas usando questões fitossanitárias como forma de controlar o ritmo e o momento das importações. O episódio ganhou tração no início de março, quando reclamações da alfândega chinesa sobre sementes de plantas daninhas, grãos com tratamento químico e danos por calor levaram o Ministério da Agricultura do Brasil a endurecer procedimentos de inspeção nos portos. O impacto foi imediato: navios carregados com soja passaram a aguardar a conclusão de análises, tradings pediram esclarecimentos ao governo brasileiro e as ofertas para embarque à China chegaram a desaparecer em parte do mercado. Segundo relatos, pelo menos 20 embarcações aguardavam a liberação dos trâmites para poderem partir rumo ao país asiático. A resposta brasileira veio com o envio de uma missão técnica à China em 20 de março.

A negociação abriu uma saída temporária. As autoridades chinesas concordaram em suspender, por ora, a aplicação do padrão de tolerância zero para sementes de ervas daninhas em cargas brasileiras voltadas ao esmagamento doméstico, até que Brasil e China definam um limite formal em consultas futuras. Permanecem em vigor, porém, as exigências de ausência de sementes tratadas quimicamente e de insetos vivos, condição que seguirá balizando a emissão de certificados fitossanitários. A inflexão ocorre em um contexto em que o Brasil caminha para ampliar rapidamente a oferta, enquanto a soja norte-americana perde tração nas compras chinesas. O País se prepara para uma safra recorde, com produção estimada em 177,85 milhões de toneladas pela Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), e exportações projetadas em 112,2 milhões de toneladas pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

A Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) chegou a indicar potencial de embarques de até 16,3 milhões de toneladas em março, embora projeções posteriores tenham migrado para algo mais próximo de 15 milhões, diante da lentidão no carregamento. Os alertas chineses sobre sementes de ervas daninhas em cargas brasileiras começaram no fim de 2025, justamente quando os embarques do Brasil cresceram e pressionaram preços. A China já acionou mecanismos semelhantes em outras fases de ajuste do mercado, como restrições associadas ao fungo Phytophthora, em 2003, que coincidiram com um salto das importações chinesas, enquanto reclamações sobre materiais estranhos na soja dos Estados Unidos apareceram em 2017, durante um período de forte avanço das exportações norte-americanas. Do lado dos Estados Unidos, as vendas para a China estavam perto de 11 milhões de toneladas até 12 de março, patamar próximo das cerca de 12 milhões vinculadas ao compromisso firmado na cúpula de outubro de 2025.

A maior parte das compras ocorreu entre novembro e o início de janeiro, mas os anúncios perderam força em fevereiro e março. O adiamento da cúpula tende a reduzir a possibilidade de qualquer novo compromisso ser executado dentro do ano comercial de 2025/26. Dados alfandegários indicam que a China importou 12,55 milhões de toneladas de soja entre janeiro e fevereiro de 2026, cerca de 1 milhão de toneladas a menos que um ano antes. Nesse intervalo, a maior parte do volume veio do Brasil e da Argentina, invertendo o padrão sazonal típico do começo do ano, quando a participação norte-americana costuma ser maior. Em janeiro, apenas 38 mil toneladas dos Estados Unidos passaram pela alfândega chinesa; em fevereiro, o volume subiu para 1,45 milhão de toneladas. Ao aliviar o gargalo de inspeções no Brasil, a flexibilização reduz risco de atraso no pico de embarques e reforça o caráter “administrado” do fluxo de importação em momentos politicamente sensíveis. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.