24/Mar/2026
A Justiça do Paraná voltou a pressionar a Imcopa, processadora de soja do Paraná, a definir uma data para o novo leilão de suas fábricas de processamento do grão. A juíza Mariana Gluszcynski Fowler Gusso, da 26ª Vara de Falências de Curitiba, negou o pedido da empresa de mais 60 dias para tratar do assunto e deu prazo de apenas 15 dias para que ela se manifeste. A decisão, publicada no Diário da Justiça Eletrônico Nacional (DJEN) na sexta-feira (20/03), foi obtida pelo Broadcast Agro. No mesmo despacho, a magistrada barrou uma tentativa da Justiça Federal de penhorar imóveis de uma das plantas colocadas à venda e rejeitou embargos de declaração do Banco Voiter. A venda das fábricas é o ponto mais importante da reestruturação da Imcopa, que está em recuperação judicial desde fevereiro de 2013. É por meio dessa alienação que a companhia pretende quitar dívidas previstas no plano aprovado pela Justiça, incluindo rescisões de cerca de 500 trabalhadores. Enquanto a venda não acontece, o processo segue sem desfecho.
A empresa havia alegado que "as condições de mercado permaneceram inalteradas" para justificar a prorrogação. A juíza não acolheu o argumento. "Considerando-se o transcurso do prazo requerido, concedo 15 (quinze) dias para manifestação", escreveu. Não é a primeira vez que o juízo encurta o fôlego da companhia: em novembro passado, a mesma magistrada já havia dado prazo para a Imcopa se pronunciar sobre o certame. O primeiro leilão, realizado em 3 de julho de 2025, terminou sem propostas. Foram ofertadas as unidades industriais de Araucária e Cambé, no Paraná, e a marca de óleo de soja Leve, no formato de Unidades Produtivas Isoladas (UPIs), por valores mínimos que somavam R$ 1,677 bilhão: R$ 900 milhões pela planta de Araucária, R$ 750 milhões por Cambé e R$ 27 milhões pela marca. Nesse modelo, o comprador assume a operação sem herdar as dívidas da empresa, o que costuma tornar o ativo mais atraente para investidores.
O plano de recuperação prevê a continuidade da tentativa de venda. No mesmo despacho, a juíza impediu a penhora de cinco imóveis em Araucária que compõem a UPI da empresa, uma das unidades previstas para venda. A ordem havia sido dada pela 15ª Vara Federal de Curitiba em uma execução fiscal. Para a Imcopa, porém, a medida atingia justamente bens que integram o pacote levado ao mercado e poderia atrapalhar o plano de recuperação. A magistrada concordou. Em ofício enviado em 13 de março ao juízo federal, afirmou que "a penhora das matrículas compromete o cumprimento do plano, de forma que a constrição não deve subsistir". Ao mesmo tempo, ela deixou claro que isso não significa suspender a cobrança de tributos contra a companhia. Uma coisa, no entendimento da juíza, é proteger ativos ligados à venda das UPIs. Outra é paralisar, de forma ampla, as execuções fiscais. "A suspensão da execução fiscal, na forma requerida pela recuperanda, não será requerida por este Juízo", escreveu.
Na prática, a decisão preserva a tentativa de venda da unidade de Araucária, sem bloquear a atuação do Fisco. A magistrada também rejeitou os embargos de declaração do Banco Voiter. O banco alegava que deveria ter votado no terceiro aditivo ao plano de recuperação, por entender que havia sido atingido pelas mudanças. A juíza afastou a tese ao concluir que o crédito não teve alteração de valor nem das condições originais de pagamento, situação em que a legislação retira o direito de voto do credor. O despacho ainda registra que esse crédito já havia sido cedido a pessoas físicas, sem oposição do administrador judicial nem da Imcopa. A juíza ainda anotou que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), um dos principais credores da companhia, apresentou agravo de instrumento para contestar pontos do processo, mas não obteve efeito suspensivo. Em outra frente, determinou que a Imcopa entregue ao administrador judicial, em 15 dias, a documentação contábil pendente, depois de o auxiliar do juízo informar que os registros ainda não haviam sido apresentados pelas recuperandas.
Fundada em 1967, a Imcopa tem capacidade para esmagar 1,5 milhão de toneladas de soja por ano, produzir 240 mil toneladas de proteína concentrada e envasar até 80 mil garrafas de óleo por hora. A unidade de Cambé é habilitada para processar soja não transgênica, produto demandado por cadeias exportadoras ligadas à produção animal orgânica. O plano prevê que, após a venda, cerca de 500 trabalhadores sejam desligados, com rescisões pagas com os recursos do leilão, e depois recontratados pelo novo operador. A recuperação judicial é atravessada por uma disputa societária entre o Grupo Petrópolis, do empresário Walter Faria, e a gestora R2C, ligada a seus ex-assessores Ruy Del Gaiso e Renato Mazzucchelli. O conflito gira em torno do controle de cerca de R$ 3 bilhões em créditos da companhia, adquiridos por meio da offshore Crowned, registrada em Luxemburgo. Em 2023, a Justiça Federal do Distrito Federal transferiu esses créditos para empresas ligadas a Faria. A R2C questiona a operação no Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em Brasília. Em 2020, a Bunge chegou a arrematar os ativos por R$ 1 bilhão, mas o negócio foi cancelado por causa dessas disputas. Fonte: Broadcast Agro.