24/Mar/2026
A Caramuru Alimentos entrou em 2026 com estrutura de capital mais leve, dívida alongada e um ciclo de crise de imagem encerrado. O CEO da empresa, Marcus Thieme, afirmou que a companhia aproveitou a liquidez ainda disponível no mercado no fim do ano passado e no início deste para reforçar o caixa e alongar vencimentos antes do agravamento das condições de crédito no agronegócio, enquanto conclui a regularização de pendências que marcaram a gestão anterior e mantém o registro para uma eventual abertura de capital. A estratégia de gestão de passivo foi executada em duas etapas. No terceiro trimestre de 2025, a Caramuru levantou US$ 200 milhões em pré-pagamento à exportação. Em janeiro deste ano, captou até R$ 600 milhões por meio de debêntures estruturadas como Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs).
Segundo Thieme, o movimento buscou alongar o prazo médio da dívida, que operava mais perto de dois anos, para algo acima de três anos. Na avaliação do executivo, a operação foi concluída antes de o mercado de crédito do agro entrar em uma fase mais difícil, com liquidez menor e investidores mais cautelosos diante do avanço das recuperações judiciais e extrajudiciais no setor. "Foi uma operação bastante acertada. O mercado agora está um pouco mais complexo", disse. A alavancagem da companhia, medida pela relação dívida líquida/Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado, encerrou 2025 em 1,49 vez, melhor patamar da série histórica, ante 2,93 vezes ao final de 2024. A dívida líquida totalizou R$ 1,21 bilhão em dezembro, praticamente estável em relação ao ano anterior, mas o salto de 94,7% no Ebitda ajustado, para R$ 812,5 milhões, foi o que derrubou o indicador.
Thieme disse que a Caramuru se sente confortável com alavancagem entre duas e três vezes, mas reconhece que o nível atual amplia a flexibilidade para novos investimentos. "A gente está em uma fase de baixa alavancagem e é quando a gente consegue avançar em alguns investimentos", afirmou. O movimento de gestão de passivo ocorre em um momento em que a companhia também tenta fechar um capítulo delicado de sua história recente. No início de 2025, a Caramuru precisou revisar balanços e aperfeiçoar controles internos após a identificação de irregularidades tributárias entre 2014 e 2017, período em que funcionários da empresa teriam realizado pagamentos indevidos a um auditor da Receita Federal no valor de R$ 6,2 milhões, segundo investigação interna conduzida pela própria companhia. O caso levou à saída do então presidente executivo em dezembro de 2024 e à entrada de Thieme no cargo, além da troca da auditoria independente, que passou da Deloitte para a Ernst & Young.
Thieme afirmou que todas as pendências com a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) foram regularizadas e que os balanços estão auditados. "Daqui para frente isso está superado", disse. O executivo ressaltou que a apuração partiu da própria governança da empresa. "A gente não foi investigado por ninguém, foi pela governança da empresa que veio a questão, mostrando a robustez do nosso programa de compliance", afirmou. Como parte do processo de reforço, a companhia ampliou para três o número de conselheiros independentes e estruturou novos comitês, incluindo um Comitê de Pessoas e ESG com reporte direto ao conselho de administração. Sobre a abertura de capital, Thieme manteve o discurso de empresa preparada, sem horizonte definido. A Caramuru mantém registro de companhia aberta na categoria A da CVM, publica releases trimestrais e formulário de referência e tem suas demonstrações financeiras auditadas por uma das principais firmas do setor.
"A empresa está preparada para crescer independente de ter uma janela de IPO ou não", afirmou. "A gente está sempre com a chuteira no pé", disse o executivo, acrescentando que a decisão dependerá da convergência entre o valor que os acionistas enxergam na companhia e o preço que o mercado estiver disposto a pagar. "A potencialidade do IPO vai depender dessa convergência. Por enquanto nem a fresta tem." Para o executivo, manter o registro aberto mesmo sem oferta imediata traz ganhos práticos. A exigência de transparência, disciplina de reporte e amadurecimento regulatório facilita as emissões de dívida e fortalece a relação com investidores, especialmente em um momento em que o crédito do agronegócio ficou mais seletivo. "Nós fizemos todo o trabalho de casa", disse Thieme, para quem a companhia sai desse ciclo mais preparada do que entrou. Fonte: Broadcast Agro.