18/Mar/2026
A interrupção temporária nos embarques de soja brasileira para a China pode refletir uma decisão estratégica do governo chinês para controlar o volume de importações após o recorde de 2025, e não apenas questões fitossanitárias. Em 2025, a China recebeu 14 milhões de toneladas de soja em maio, sendo cerca de 12 milhões originárias do Brasil, concentrando a oferta no primeiro semestre. O país busca gerenciar o ritmo e o momento das importações, princípio da política agrícola chinesa, para evitar excesso de oferta. Dados recentes indicam 2,4 milhões de toneladas embarcadas em janeiro e 8,9 milhões em fevereiro, com projeção de cerca de 16,5 milhões de toneladas em março.
A chegada simultânea de cargas americanas já contratadas pode agravar o excesso de oferta entre maio e junho, reforçando a necessidade chinesa de controle. A adoção de novo sistema de inspeção durante o pico de embarques levanta questionamentos sobre o momento da medida, sugerindo uso de preocupações fitossanitárias para gerir o fluxo comercial. Historicamente, a China já recorreu a instrumentos semelhantes, como em 2017, quando pressionou os Estados Unidos por sementes de plantas daninhas, e em 2003, ao suspender compras de soja de Estados Unidos e Argentina devido a contaminação por fungos, medidas interpretadas pelo mercado como protecionistas. O episódio também sinaliza a intenção chinesa de substituir regras, padrões e procedimentos internacionais tradicionais por normas próprias, alegadamente científicas.
Além da soja brasileira, volumes contratados dos Estados Unidos, Argentina, Uruguai e Rússia chegam à China nos próximos meses, mantendo o risco de concentração de oferta e pressão sobre o equilíbrio do mercado doméstico. No Brasil, o Ministério da Agricultura retomou a coleta de amostras na maior parte dos embarques, mas cerca de 10% das cargas ainda passam por inspeção direta da Vigilância Agropecuária Internacional (Vigiagro), com emissão de certificados fitossanitários condicionada à conclusão do processo em quatro a cinco dias. Reuniões entre órgãos públicos e representantes do setor discutem o tema para garantir o fluxo controlado de exportações. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.