02/Mar/2026
O rali recente da soja na Bolsa de Chicago ocorre em meio a amplo ceticismo, de agricultores e de especuladores, apesar de os fundos de investimento terem elevado suas posições compradas ao maior nível desde o início de dezembro. O contrato de maio avançou quase U$ 0,10 por bushel no dia 25 de fevereiro, encerrando a US$ 11,65 por bushel, o equivalente a cerca de US$ 428,00 por tonelada. O movimento foi impulsionado pelo anúncio da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) de que enviou ao governo norte-americano sua proposta de novos mandatos de mistura de biocombustíveis, com conclusão prevista até o fim de março. Rumores de novas compras chinesas pelo Noroeste do Pacífico também deram suporte às cotações.
Segundo dados da Commodity Futures Trading Commission (CFTC) referentes à semana encerrada em 17 de fevereiro, os grandes gestores foram compradores líquidos de 43 mil contratos de soja, elevando a posição comprada líquida para 159 mil contratos. Após o rali do dia 25 de fevereiro, estima-se que os fundos estariam próximos de 180 mil contratos comprados. Não está em território recorde, mas está no caminho. Três fatores explicam o interesse dos fundos na oleaginosa. O primeiro é a baixa retenção de soja da safra velha pelos produtores norte-americanos, o que reduz a pressão natural de venda. O segundo ponto é a expectativa de definições positivas sobre as obrigações de volume renovável (RVO). O terceiro é a possibilidade de novas compras chinesas, ainda sem confirmação oficial.
Apesar da alta, o movimento não encontra convicção ampla. Do lado dos produtores, a soja velha já foi majoritariamente comercializada, enquanto os preços da safra nova seguem abaixo do custo de produção em diversas regiões. Do lado dos especuladores, permanecem dúvidas quanto à sustentabilidade do rali diante da oferta global confortável. Não há otimismo com a soja agora. Com safra recorde no Brasil, eventual aperto no mercado norte-americano poderia ser compensado por importações de farelo. No milho, o cenário é distinto. Os Estados Unidos colheram cerca de 432 milhões de toneladas em 2025, superando o recorde anterior em aproximadamente 43 milhões de toneladas. A oferta elevada e a comercialização por parte dos produtores têm limitado as tentativas de recuperação dos preços.
A área de milho nos Estados Unidos em 2026 deve ficar entre 38,4 milhões e 39 milhões de hectares, acima dos 38 milhões de hectares projetados pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA). Entre os fatores para a manutenção de área elevada estão a rede de proteção do seguro agrícola incluída no pacote tributário do governo Trump e os pagamentos do programa de assistência federal ao agricultor (FBA), de US$ 11 bilhões, cuja distribuição começou na semana passada. É questionável o efeito estrutural de pagamentos diretos em um ambiente de excesso de oferta. Quando o governo incentiva a produção de uma cultura já em excesso de oferta, não ajuda a causa de longo prazo dos agricultores por preços mais altos. Os recursos acabam sendo repassados ao longo da cadeia, pressionando custos de insumos e arrendamentos sem melhorar de forma duradoura a rentabilidade.
É importante a implementação de medidas voltadas à ampliação do consumo doméstico, como o uso permanente do etanol E15. Os Estados Unidos precisam usar grãos domesticamente. A tendência é de perda de participação nas exportações mundiais. Estimativas de custo de produção da AgV Solutions apontam para cerca de US$ 177,00 por tonelada no milho e US$ 439,00 por tonelada na soja, considerando custos fixos e variáveis. Com o contrato maio do milho próximo de US$ 185,00 por tonelada, a cultura se aproxima do ponto de equilíbrio para parte dos produtores. Já a soja permanece abaixo dessa referência. No índice amplo de commodities da Bloomberg, a alta acumulada no ano é de cerca de 10%, enquanto o subíndice agrícola avança 1,3%. Os fundos evitam montar posições vendidas agressivas em grãos para não correr o risco de serem surpreendidos por eventual ingresso do setor agrícola nesse movimento mais amplo. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.