ANÁLISES

AGRO


SOJA


MILHO


ARROZ


ALGODÃO


TRIGO


FEIJÃO


CANA


CAFÉ


CARNES


FLV


INSUMOS

27/Feb/2026

EUA: alta de preços sustentada por fatores políticos

A alta de quase 8% nas cotações da soja na Bolsa de Chicago ao longo de fevereiro foi sustentada por fatores políticos, não por aperto real de oferta. A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, que derrubou parte da base legal das tarifas de Donald Trump, evidenciou uma fragilidade do mercado. Alguns observadores interpretaram a decisão como um enfraquecimento da posição norte-americana nas negociações comerciais com a China. O ponto central é que o rali depende inteiramente da expectativa de compras chinesas adicionais. A China havia cumprido a aquisição inicial de 12 milhões de toneladas anunciada em outubro, mas mais de 40% desse volume ainda não havia sido embarcado até o fim de janeiro.

Os 8 milhões de toneladas adicionais mencionados por Trump no início de fevereiro ainda não se confirmaram. Ao mesmo tempo, os preços FOB norte-americanos ficaram em patamar superior aos brasileiros durante boa parte do mês, reduzindo a competitividade do grão dos Estados Unidos no mercado global e freando as exportações para destinos fora da China. Um ponto central para o mercado é que, após a decisão judicial, não havia qualquer indicação de que a China suspenderia sua tarifa retaliatória de 10% sobre produtos norte-americanos, inclusive a soja. Essa sobretaxa, imposta em resposta às tarifas norte-americanas sobre o fentanil como parte da trégua comercial de outubro, é exatamente o que torna as compras privadas chinesas de soja dos Estados Unidos não competitivas frente à brasileira e à argentina.

Com Trump planejando visitar a China entre 31 de março e 2 de abril para pressionar Xi Jinping por compras adicionais de produtos agrícolas, o mercado ficou em compasso de espera sobre o que vem a seguir. O episódio expõe uma vulnerabilidade estrutural do modelo baseado em exportações para a China e reforça uma transição já em curso dentro do próprio governo norte-americano. No Fórum de Perspectivas do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA), realizado na mesma semana da sentença, a China ficou em segundo plano. Vários painéis destacaram a importância de expandir o uso de biocombustíveis para aumentar a demanda doméstica por grãos e oleaginosas. As discussões sobre política comercial focaram na abertura de novos mercados e na remoção de barreiras não tarifárias no exterior.

As projeções divulgadas no evento mostram a dimensão dessa aposta. O uso de óleo de soja em biocombustíveis deve saltar de 5,4 milhões de toneladas no ano-safra 2024/2025 para 7 milhões de toneladas em 2026/2027 e chegar a 8,2 milhões de toneladas em 2035/2036, quando se tornará o principal destino do óleo norte-americano, impulsionado por mandatos federais e estaduais de mistura de combustíveis renováveis para transporte rodoviário, aviação e navegação. O esmagamento doméstico deve crescer de 70 milhões de toneladas em 2025/2026 para 72,3 milhões de toneladas em 2026/2027 e 76,2 milhões de toneladas ao final do período projetado, elevando sua participação no uso total da oleaginosa de 51% em 2022/2023 para entre 59% e 60% na próxima década.

Em vários anos entre 2014 e 2020, as exportações superavam o esmagamento doméstico. As vendas externas perdem peso nesse reequilíbrio. Após recuarem para 42,9 milhões de toneladas em 2025/2026, o menor volume desde 2012/2013, devem se recuperar para 46,3 milhões de toneladas em 2026/2027 com o aumento da demanda fora da China, e crescer gradualmente até 50,1 milhões de toneladas em 2035/2036. Ainda assim, a participação das exportações no uso total da soja norte-americana deve cair para 37% no curto prazo e se estabilizar em torno de 39% ao final da janela de projeção. A mudança estrutural também sustenta a projeção de aumento de 1,6 milhão de hectares na área plantada com soja em 2026/2027, revertendo parcialmente a queda de 2,5 milhões de hectares do ano anterior, com a produção projetada em 121,1 milhões de toneladas.

A relação de preços mais favorável da soja frente ao milho foi apontada pelo USDA como principal razão para a expansão. Para o Brasil, que consolidou sua posição como principal fornecedor da China durante a guerra comercial, o quadro de curto prazo preserva a vantagem competitiva da soja brasileira enquanto a tarifa de 10% sobre o grão norte-americano seguir em vigor. Mas, a expansão de área nos Estados Unidos, somada à safra recorde em curso no Brasil, aponta para um mercado global com oferta crescente disputando espaço em uma China que chegou ao teto da sua estratégia de autossuficiência e importa mais de 100 milhões de toneladas por ano sem perspectiva de reduzir essa dependência. Em um mercado assim, a disputa tende a ocorrer cada vez mais pelo preço. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.