09/Feb/2026
A China deixou de perseguir a autossuficiência em soja e passou a aceitar uma dependência estrutural do abastecimento externo, com o Brasil ocupando posição central nesse arranjo. A mudança marca o esvaziamento da retórica oficial que, nos últimos anos, defendia substitutos ao farelo de soja, dietas animais com menor teor de proteína e rearranjos produtivos como forma de reduzir importações, discurso que ganhou força durante a guerra comercial com os Estados Unidos.
Indicadores recentes mostram que essa estratégia não se consolidou. No auge das iniciativas voltadas à autossuficiência, em 2019, a produção chinesa era de cerca de 16 milhões de toneladas, enquanto as importações somavam 88 milhões de toneladas, resultando em taxa de autossuficiência pouco superior a 15%. Em 2025, apesar do avanço da produção doméstica para aproximadamente 20,9 milhões de toneladas, as importações alcançaram 108 milhões de toneladas, evidenciando que o crescimento da oferta interna não acompanhou a expansão da demanda.
Entre 2018 e 2025, a produção doméstica aumentou menos de 5 milhões de toneladas, ao passo que as importações avançaram cerca de 20 milhões de toneladas. Com isso, o grau de dependência externa permaneceu praticamente inalterado: em 2025, cerca de 84% do suprimento total de soja teve origem no exterior, patamar muito próximo ao observado anos antes. A taxa de autossuficiência chegou a atingir um pico em 2022, mas voltou a recuar posteriormente, sem indicar ganho estrutural relevante.
O que mudou foi a forma como o governo chinês passou a enxergar essa dependência. A ampliação do fornecimento brasileiro permitiu ao país reduzir compras dos Estados Unidos em determinados períodos, reforçando sua margem de manobra em negociações comerciais. Nesse contexto, a dependência externa deixou de ser tratada como vulnerabilidade estratégica e passou a ser administrada como um componente funcional da segurança alimentar.
Autoridades chinesas têm destacado a estabilidade da produção doméstica acima de 20 milhões de toneladas como sinal de consolidação, não de expansão. A prioridade passou a ser preservar esse nível, reconhecendo que aumentos adicionais de autossuficiência seriam difíceis de alcançar. Ao mesmo tempo, importações acima de 100 milhões de toneladas passaram a ser tratadas como necessárias para atender à demanda por farelo de soja na ração animal.
A soja produzida internamente segue majoritariamente direcionada ao consumo humano, como tofu e bebidas à base de soja, segmento com demanda estável em torno de 16 milhões de toneladas anuais. O excedente é absorvido pelo governo por meio de compras para formação de estoques, mecanismo que sustenta preços domésticos, mas também torna a soja importada, especialmente a brasileira, mais competitiva para a indústria de esmagamento.
Esse arranjo reforça a dependência externa. Ao manter preços internos elevados via subsídios e compras governamentais, a China amplia a atratividade da soja importada para o processamento industrial. Estima-se que o país gaste cerca de US$ 3 bilhões por ano em subsídios à produção doméstica de soja, incluindo pagamentos diretos significativos aos produtores.
Apesar disso, há sinais de desconforto na indústria processadora, com relatos recorrentes de margens pressionadas, custos elevados da soja importada, questões de qualidade e atrasos logísticos. Ainda assim, do ponto de vista estratégico, o cenário é visto como administrável, sobretudo pela centralidade do Brasil como fornecedor confiável e de grande escala.
O resultado é um equilíbrio assimétrico: a China aceita a dependência externa como fato estrutural; os Estados Unidos lidam com necessidade de apoio governamental aos produtores; e o Brasil, embora consolidado como principal fornecedor global, enfrenta preços pressionados e margens apertadas ao longo da cadeia.
Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.