06/Feb/2026
A sinalização recente de ajuste na política agrícola da China pode abrir espaço para ampliação das importações de produtos agropecuários, inclusive dos Estados Unidos, mas não altera, no curto prazo, a lógica econômica que favorece a soja brasileira no mercado chinês. A avaliação é de que a solicitação do governo norte-americano para que Pequim amplie as compras da safra atual enfrenta limitações claras de oferta e de logística.
A proposta envolve a elevação das aquisições chinesas de soja dos Estados Unidos para cerca de 20 milhões de toneladas na safra em curso, o que implicaria volumes adicionais próximos de 8 milhões de toneladas. No entanto, o balanço de oferta norte-americano apresenta restrições relevantes. A expectativa é de estoques finais em torno de 300 milhões de bushels, abaixo das projeções oficiais do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, refletindo um ritmo mais forte de esmagamento impulsionado por políticas ligadas aos biocombustíveis. Esse quadro limita a disponibilidade para exportações adicionais sem provocar desequilíbrios no mercado interno.
Mesmo diante de eventuais compromissos políticos, a competitividade segue desfavorável aos Estados Unidos. A soja brasileira tende a permanecer mais barata nos portos chineses ao longo de 2026, sustentada por uma safra recorde e por uma estrutura logística consolidada ao longo das últimas décadas. Os compradores chineses seguem orientados por critérios econômicos, priorizando origens com melhor relação custo-benefício. Nesse contexto, qualquer ampliação relevante das compras de soja norte-americana dependeria de operações conduzidas por estatais chinesas.
Caso a China avance com aquisições adicionais, o efeito esperado seria uma reorganização global da oferta. Os preços nos Estados Unidos teriam de subir para racionar a demanda, enquanto os prêmios da soja brasileira tenderiam a recuar, dado que o produto é precificado com base na Bolsa de Chicago. Esse ajuste poderia, inclusive, gerar fluxos pontuais de importação de soja para regiões específicas dos Estados Unidos com infraestrutura portuária adequada, ainda que o sistema não esteja estruturado para volumes expressivos nesse sentido.
Há também restrições operacionais no lado chinês. A logística e a capacidade de armazenagem limitam a absorção imediata de volumes adicionais. Parte relevante das compras já realizadas foi programada para chegada antes do pico da entrada da safra brasileira, enquanto o restante está distribuído ao longo do primeiro semestre. A incorporação de novos volumes exigiria liberação de estoques de reserva, o que adiciona complexidade ao processo.
Apesar das limitações econômicas e logísticas, não se descarta totalmente um movimento adicional por razões políticas. A China enfrenta desafios internos e pode buscar reduzir tensões externas ao longo de 2026, abrindo espaço para concessões comerciais. Nesse cenário, a avaliação predominante é de que uma ampliação das importações chinesas deve se concentrar mais em outros produtos agropecuários, como milho, carnes ou trigo, do que em soja.
Essa leitura é reforçada por diretrizes recentes da política agrícola chinesa para 2026, que reduziram a ênfase na autossuficiência absoluta e passaram a defender explicitamente maior integração ao comércio agrícola internacional, com ampliação das importações de produtos cuja oferta doméstica é considerada insuficiente para garantir a segurança alimentar.
As declarações recentes dos Estados Unidos impulsionaram os futuros da soja em Chicago, gerando volatilidade e incentivando vendas no Brasil no início da colheita. A produção brasileira está estimada em 181,6 milhões de toneladas, volume suficiente para atender à maior parte da demanda chinesa ao longo do ano. No curto prazo, o mercado segue atento tanto aos desdobramentos políticos quanto à definição das regras do programa de biocombustíveis nos Estados Unidos, que podem influenciar o balanço global de oferta e demanda.
Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.