04/Feb/2026
O encerramento do monitoramento coletivo da Moratória da Soja tende a tornar a cadeia produtiva brasileira mais cara, menos previsível e mais complexa do ponto de vista comercial e regulatório. A substituição de um sistema único e padronizado por controles individuais por empresa amplia a dificuldade de comparação de riscos por parte de compradores, indústrias e financiadores, reduzindo a eficiência dos processos de decisão.
A fragmentação do controle ambiental implica a coexistência de múltiplos padrões, metodologias e critérios de verificação. Esse ambiente obriga agentes de mercado a analisar diferentes relatórios e avaliações de risco que não são diretamente comparáveis, o que eleva custos operacionais, tempo de análise e incerteza ao longo da cadeia de suprimento.
Esse movimento ocorre em sentido oposto às principais exigências regulatórias internacionais. Normas recentes caminham para demandar sistemas robustos, alinhados e defensáveis de avaliação de risco socioambiental. Em contextos regulatórios mais rigorosos, a existência de metodologias fragmentadas dificulta a comprovação de conformidade e aumenta o risco de questionamentos por reguladores, clientes e investidores.
O fim do arranjo coletivo ocorre em um momento de maior pressão dos compradores internacionais. Grandes redes varejistas europeias têm reforçado exigências de rastreabilidade, verificação independente e exclusão de soja produzida em áreas desmatadas após julho de 2008 no bioma Amazônia. Esse posicionamento reforça a relevância de mecanismos reconhecidos e padronizados para sustentar a aceitação da soja brasileira em mercados importadores.
Até recentemente, o monitoramento da moratória era realizado por um sistema compartilhado, com análise padronizada de imagens de satélite, mapeamento em nível de fazenda e listas de exclusão atualizadas periodicamente. Com a saída do acordo coletivo, cada empresa passa a desenvolver e operar seu próprio sistema, com metodologias potencialmente distintas, o que amplia a complexidade de auditoria e prestação de contas.
Do ponto de vista operacional, a fragmentação também impõe desafios às próprias tradings. Em vez de recorrer a um framework coletivo amplamente reconhecido, cada empresa passa a ter de explicar e defender sua metodologia individualmente, aumentando o grau de escrutínio e a probabilidade de questionamentos sobre a robustez dos controles adotados.
Há ainda o risco de vazamentos na cadeia de suprimento. Modelos coletivos e territoriais permitem identificar transferências diretas ou indiretas de produção entre áreas regulares e áreas com histórico de desmatamento, algo mais difícil de capturar quando o monitoramento é feito de forma isolada. O desmatamento é um fenômeno sistêmico, que tende a exigir soluções coordenadas e não apenas ações individuais.
Sob a ótica econômica, o fim do sistema compartilhado elimina ganhos de escala relevantes. O monitoramento coletivo apresentava custos anuais estimados em torno de US$ 1,5 milhão, diluídos entre dezenas de empresas. Quando cada agente passa a estruturar seu próprio sistema, os custos de desenvolvimento, manutenção e integração com bases de dados tendem a aumentar de forma significativa.
Outro impacto direto é a redução da transparência. O modelo coletivo disponibilizava dados e listas de exclusão para pesquisadores, organizações da sociedade civil e órgãos públicos, ampliando o escrutínio externo. A migração para sistemas privados tende a aumentar a opacidade e a ampliar lacunas de informação nas cadeias globais de commodities.
Embora avanços tecnológicos, como inteligência artificial, imagens de satélite e sistemas digitais, ampliem a capacidade de monitoramento, essas ferramentas não substituem a necessidade de padronização, transparência e verificação independente. A ausência de um sistema coletivo reconhecido reduz a comparabilidade entre metodologias e pode enfraquecer a confiança de compradores e investidores na governança ambiental da soja brasileira. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.