23/Jan/2026
A Aliança Agrícola do Cerrado afirmou que enfrenta um cenário adverso, marcado por forte volatilidade de preços, compressão de margens, restrição de liquidez, juros elevados e desafios logísticos, e que a paralisação de suas plantas industriais no Brasil é temporária. A manifestação, divulgada nas redes sociais, é a primeira posição pública da empresa desde o encerramento abrupto das operações anunciado internamente em 14 de janeiro, quando 344 trabalhadores foram demitidos. Embora a operação de esmagamento historicamente apresente bom desempenho, perdas acumuladas no trading elevaram o endividamento da Companhia, afirmou a empresa no comunicado. Controlada pelo grupo russo Sodrugestvo, a Aliança Agrícola atua no Brasil desde 2010 como braço industrial e comercial do conglomerado, que opera globalmente em originação, processamento, trading e logística de cereais e oleaginosas.
No País, a empresa operava duas esmagadoras de soja, em Bataguassu (MS) e São Joaquim da Barra (SP), com capacidade combinada de processamento de 736 mil toneladas por ano, além de bases comerciais em diferentes Estados. Segundo a Aliança Agrícola, exigências adicionais de garantias por instituições financeiras, juntamente com retenção de recebíveis e caixa, limitaram a capacidade de financiar o ciclo operacional, especialmente entre safras. A companhia informou que mantém equipe ativa e trabalha na recomposição de sua posição financeira, revisão do modelo de negócios e busca de alternativas para continuidade das atividades. O texto acrescenta que, concluídas as negociações de capital e parcerias, pretende endereçar suas obrigações de forma responsável e estruturada. Para centralizar comunicações, a empresa indicou um e-mail.
A manifestação ocorre após o encerramento das operações das unidades industriais de Bataguassu e São Joaquim da Barra, além da interrupção de atividades de recebimento e comercialização de grãos em Mato Grosso, São Paulo, Minas Gerais e Goiás. O fechamento resultou na demissão de 344 trabalhadores, segundo números apurados em prefeituras e sindicatos locais, e deixou produtores com contratos de entrega e soja depositada sem interlocução imediata. No início desta semana, sindicatos rurais de Batatais e São Joaquim da Barra, de São Paulo, informaram que estiveram na unidade da empresa para buscar esclarecimentos sobre o pagamento de grãos entregues por produtores, mas não encontraram representantes aptos a prestar informações. Em Bataguassu, a prefeitura organizou um feirão emergencial de empregos em parceria com a Fundação do Trabalho de Mato Grosso do Sul (Funtrab), com foco na realocação dos trabalhadores desligados.
Em Mato Grosso, a companhia havia inaugurado em maio de 2024 um armazém em Porto dos Gaúchos, com capacidade estática de 66 mil toneladas, voltado ao escoamento pelo Corredor Norte. A unidade, que entrou em operação há menos de um ano, ficou ociosa após a paralisação. A empresa também mantinha escritórios comerciais em Sinop e Querência, deixando produtores dessas regiões com contratos em aberto para a safra 2025/2026. Indicadores financeiros apontavam que a Aliança Agrícola registrou receita líquida de cerca de R$ 4,6 bilhões na safra 2024/2025, com Ebitda de R$ 152 milhões e margem de 3,3%, além de endividamento concentrado em linhas bancárias ligadas a exportações. No mercado de capitais, a empresa captou R$ 200 milhões em julho de 2023 por meio de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRAs), estruturados pela Ecoagro e distribuídos a fundos de investimento do agronegócio. Documentos da operação indicavam a existência de recursos segregados para honrar o saldo desses títulos.
Não há, até o momento, divulgação oficial de faturamento consolidado referente ao exercício de 2025. O dado público mais recente consta do ranking Agro100 da Forbes, divulgado em novembro de 2024, no qual a companhia apareceu na 55ª posição, com faturamento de R$ 4,97 bilhões. À época, o levantamento apontava expectativa de crescimento apoiada na expansão industrial e na demanda externa, especialmente da Ásia. O cenário atual contrasta com declarações feitas em entrevista em dezembro de 2024. Na ocasião, o então CEO Danilo Dalia Jorge afirmou que a estratégia era ampliar a capacidade de processamento em Bataguassu, de 336 mil para 700 mil toneladas até 2027, com foco em ganhar competitividade no mercado asiático. “O foco é ganhar competitividade na Ásia”, disse o executivo na época, ao destacar também a diversificação logística, com maior uso de portos do Arco Norte. No comunicado mais recente, a empresa não detalha o cronograma de eventual retomada das operações, nem esclarece a situação dos contratos de compra, armazenagem e entrega de grãos firmados para a safra 2025/2026. Também não há informações sobre o impacto financeiro da paralisação sobre o exercício de 2026. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.