19/Jan/2026
A disputa entre Estados Unidos e China pelo controle do processamento de minerais de terras raras está no centro da estratégia geopolítica do governo Donald Trump e pode ter impacto mais profundo sobre o comércio agrícola global do que tarifas ou acordos pontuais de compra de soja. É algo muito maior que soja ou veículos elétricos. A China controla entre 90% e 97% do processamento global de minerais de terras raras, insumos essenciais para fabricação de produtos que vão de celulares a sistemas de defesa militar. Em outubro do ano passado, a China anunciou que deixaria de exportar esses minerais para todos, exceto países considerados estratégicos, como integrantes do Brics.
Isso dá à China a capacidade de escolher vencedores e perdedores, decidir quais países podem ter uma economia manufatureira forte. Para o mercado agrícola, a leitura é que a soja deixou de ser o centro das negociações e passou a papel secundário em uma disputa que envolve segurança nacional e cadeias industriais críticas. Nesse ambiente, medidas comerciais tradicionais tendem a ter efeito limitado. Praticamente todas as ações internacionais recentes de Donald Trump têm conexão com essa disputa. Um documento divulgado pela Casa Branca em 14 de janeiro revelou que os Estados Unidos são totalmente dependentes de importações para 12 minerais críticos e têm dependência superior a 50% em outros 29.
O problema não está na mineração, mas na ausência de capacidade de processamento. Embora os Estados Unidos sejam o segundo maior produtor mundial de óxidos de terras raras não processados, o país precisa exportar esse material para refino antes de importá-lo. Minerar domesticamente não protege a segurança nacional se o processamento continua dependente de um país estrangeiro. Como resultado, a produção norte-americana atende apenas uma fração das necessidades de defesa. Nas últimas três décadas, a China executou um plano para dominar o processamento desses minerais. A combinação de controle de preços, volatilidade induzida e aquisições levou diversas empresas norte-americanas a fecharem as portas, concentrando ainda mais a cadeia produtiva na China.
Esse pano de fundo ajuda a explicar movimentos recentes da política externa norte-americana, como a atuação na Venezuela. O país é considerado rico em minerais estratégicos, embora grande parte permaneça subexplorada. Há indícios de que parte da mineração informal envolve interesses da China e do Irã. Estimativas indicam que a China concentra cerca de metade da oferta mundial de minerais de terras raras. A Venezuela pode ter algo próximo de 25% desse total. Isso pode ter sido a ‘gota d'água’ que levou Donald Trump a agir na Venezuela, para limitar o avanço de China e Irã e abrir alternativa de acesso a esses minerais.
Para o Brasil, a forte dependência chinesa da soja brasileira oferece alguma proteção no curto prazo. No entanto, a disputa por minerais estratégicos pode redefinir alianças comerciais e fluxos de investimento no médio prazo, com efeitos indiretos sobre o agronegócio. Praticamente tudo o que Donald Trump faz em relações internacionais, seja Venezuela, seja Oriente Médio, quase sempre tem a China como pano de fundo. O documento da Casa Branca reconhece que a dominância estrangeira em minerais críticos expôs o Departamento de Defesa a riscos significativos, com cadeias dependentes de um único país. Embora não cite a China nominalmente, o alvo da preocupação é claro. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.