05/Jan/2026
A estratégia chinesa de reduzir o uso de farelo de soja na alimentação animal tem apresentado avanços técnicos, mas ainda não produziu impacto relevante sobre o volume total de soja importado pelo país, que permanece próximo de 100 milhões de toneladas por ano. Apesar de ajustes nas formulações de ração, a dependência externa chinesa segue elevada, mantendo o país como o principal demandante global da oleaginosa.
Análises comparativas entre dados oficiais chineses, estimativas internacionais e informações privadas do setor indicam que a redução da participação do farelo de soja nas rações ocorreu de forma mais limitada do que a sugerida pelas estatísticas divulgadas por Pequim. Enquanto números oficiais apontam queda de cerca de 17% em 2017 para menos de 13% em 2023, reavaliações baseadas em fontes externas indicam que essa participação ainda se mantém próxima de 16% em 2024. As divergências tornam-se mais evidentes a partir de 2021, sugerindo que o ritmo efetivo de redução foi mais lento do que o inicialmente comunicado.
A evolução das importações reforça essa leitura. Tanto as estatísticas chinesas quanto as estimativas internacionais mostram compras externas em níveis historicamente elevados nos últimos anos, superando 100 milhões de toneladas. O fornecimento permanece altamente concentrado em dois grandes exportadores, responsáveis por mais de 90% do total adquirido, com destaque para o Brasil, que direciona entre 70% e 80% de suas exportações de soja ao mercado chinês.
A política adotada pela China baseia-se na formulação de dietas com menor teor de proteína bruta, compensadas pelo uso de aminoácidos sintéticos essenciais, além do estímulo à utilização de farelos alternativos e subprodutos industriais. As diretrizes técnicas recomendam reduções entre 0,5 e 1,5 ponto percentual no nível de proteína das rações destinadas a suínos e aves, buscando manter o desempenho zootécnico dos animais.
O principal fator que limita o impacto dessa política é o crescimento contínuo da produção de ração no país. Desde 2010, o volume industrial mais do que dobrou, alcançando cerca de 322 milhões de toneladas em 2023. Nesse contexto, mesmo com a redução da participação percentual do farelo de soja, o consumo absoluto do insumo permanece elevado. As reduções observadas, portanto, não são suficientes para compensar a expansão do setor de rações, o que mantém a necessidade de grandes volumes de soja importada.
As estimativas internacionais tendem a oferecer uma leitura mais consistente do mercado global, pois são conciliadas com dados de oferta, consumo e comércio mundial. Essa metodologia ajuda a explicar as divergências em relação às estatísticas oficiais chinesas, especialmente em um ambiente de baixa transparência quanto aos níveis de estoques internos.
Diante desse cenário, a avaliação predominante é de que os efeitos da política chinesa sobre os grandes exportadores de soja devem permanecer limitados no curto prazo. Embora fatores políticos possam provocar oscilações pontuais nos fluxos comerciais, as projeções indicam que a China continuará importando volumes elevados da oleaginosa nos próximos anos.
No horizonte de longo prazo, não se descartam mudanças mais estruturais. A desaceleração do consumo de carnes, o recente declínio populacional e possíveis ganhos de produtividade doméstica, inclusive com avanços tecnológicos no cultivo de soja, podem alterar gradualmente a trajetória da demanda. No momento, porém, a dependência chinesa da soja importada segue elevada, mantendo o país no centro da dinâmica do mercado global da oleaginosa. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.