03/Apr/2024
Responsável por projetos que prometem ajudar na redução de emissões de gases poluentes, a BBF atravessa uma crise financeira que ameaça seus investimentos. A fabricante de biocombustível que atua na Amazônia conseguiu na Justiça uma proteção contra credores, por 60 dias, enquanto renegocia dívidas, na tentativa de evitar uma recuperação judicial. No pedido de proteção, apresentado em fevereiro, a empresa afirmou que sua crise decorre do fato de ter virado “‘persona non grata’ no mercado” após recomendação feita pelo Conselho Nacional de Direitos Humanos (CNDH) a instituições financeiras. Criada em 2008, a BBF começou explorando óleo de palma em São João da Baliza (RR) para a produção de biodiesel. Com o biocombustível, gera energia elétrica em usinas termoelétricas. A empresa tem um projeto para produzir combustível sustentável de aviação (SAF) que prevê investimentos de R$ 2,2 bilhões em uma biorrefinaria em Manaus (AM), e de R$ 2,5 bilhões no plantio de palma, sua matéria-prima.
A companhia também já firmou contrato com a Vibra, que teria exclusividade para distribuir o SAF por cinco anos. Hoje, no entanto, a BBF tenta sobreviver a uma crise iniciada há oito meses. Em agosto do ano passado, o CNDH enviou uma carta a bancos em que recomendava que suspendessem empréstimos feitos à BBF em razão de provável violação dos Princípios do Equador, quanto às práticas socioambientais e violação aos Direitos Humanos e Territoriais dos povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, agricultores e agroextrativistas nos municípios do Acará e Tomé-Açu (no Pará). O conselho se referia às atitudes da empresa diante de um conflito fundiário. Algumas das áreas em que a companhia cultiva palma no Pará são alvo de disputa com comunidades quilombolas e indígenas. Segundo o Ministério Público do Pará, parte dessas áreas é considerada pública, dado que não há um histórico de documentação, e reivindicada pelas populações tradicionais
Também em agosto de 2023, poucos dias antes de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegar a Belém (PA) para participar da Cúpula da Amazônia, quatro indígenas foram baleados por seguranças da companhia. A versão da BBF é de que a empresa foi invadida e que atearam fogo em seus veículos. Os indígenas, por sua vez, dizem que estavam ocupando um território que entendem ser deles. O caso fez com que o CNDH fosse até as cidades de Acará e Tomé-Açu e, posteriormente, enviasse a carta às instituições bancárias. No pedido de tutela cautelar, a BBF afirmou que, depois disso, as renovações das linhas de crédito por parte dos bancos foram “subitamente interrompidas”. A referida recomendação feita pelo CNDH foi uma das, senão a maior, causas da crise financeira pela qual passa o grupo BBF, escreveram os advogados da empresa. Segundo a companhia, a queda no preço do óleo de palma no mercado internacional também a prejudicou. Desde abril de 2022, quando atingiu um pico, o preço recuou 40%. Sem caixa, a BBF deixou de pagar contas e hoje acumula R$ 43 milhões em protestos.
De acordo com o documento apresentado à Justiça, empresas prestadoras de serviços que transportam 3.200 funcionários diariamente ameaçam rescindir contratos. Ainda na solicitação feita à Justiça, a BBF afirmou que, se o pedido de proteção não fosse atendido, haveria corte de fornecimento de luz a seus clientes, dado que não seria capaz de comprar combustível para gerar energia. Hoje, a companhia tem 25 usinas em operação e atende 140 mil clientes nos estados de Rondônia, Acre, Amazonas e Roraima. Esses consumidores não estão conectados ao Sistema Interligado Nacional de energia. Também de acordo com a empresa, o CNDH não a consultou sobre os fatos (indígenas baleados) nem a intimou a se manifestar de qualquer maneira que seja antes da emissão da carta aos bancos. O CNDH afirmou ser fato público e notório que os indígenas foram baleados na sede da empresa por funcionários de segurança contratados pela BBF. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.