23/Feb/2024
No meu artigo em dezembro comentei um pouco sobre a reação pouco expressiva das cotações da soja em Chicago, mesmo com as perspectivas de quebra aqui no Brasil. Estamos na segunda quinzena de fevereiro, com mais de 30% das lavouras colhidas, em média, para o Brasil e com uma ideia melhor de qual vai ser o tamanho da safra nacional de soja 2023/2024. O cenário de preços, todavia, não mudou, com a soja continuando pressionada e registrando quedas na Bolsa de Chicago (CBOT). A maior parte das estimativas para a safra brasileira de soja indica uma produção em torno de 150 milhões de toneladas, com o último número da StoneX em 150,35 milhões e o da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) em 149,4 milhões.
Por outro lado, o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) ainda apresenta uma estimativa bastante elevada, em 156 milhões de toneladas, enquanto há projeções abaixo de 140 milhões de toneladas de algumas instituições privadas. De qualquer maneira, a safra da Argentina está indo bem, mesmo após a onda de calor registrada entre o fim de janeiro e início de fevereiro. A Bolsa de Cereais de Buenos Aires estima uma produção de 52,5 milhões de toneladas de soja no ciclo 2023/2024, em comparação com 21 milhões no ano passado, quando as lavouras sofreram sob influência do La Niña. O cenário atual representa um crescimento de mais de 30 milhões de toneladas no comparativo com o ciclo anterior, e mais que compensa a quebra brasileira.
Por mais que variações na produção sejam mais frequentes de um ano para o outro, já que o clima pode sempre trazer surpresas, afetando consequentemente os preços, é preciso olhar mais de perto a demanda, que usualmente é crescente e mais previsível. Antes da pandemia de Covid-19, a demanda por soja e grãos, em geral, vinha em tendência de crescimento importante, com destaque para a China. A economia asiática avançou rapidamente desde os anos 2000, mudando a dinâmica do mercado mundial de soja, tornando-se o maior consumidor global da oleaginosa e importando cerca de 100 milhões de toneladas por ano atualmente. A demanda por grãos é puxada pelo aumento da população e da renda das pessoas, o que permite uma maior diversificação do consumo de alimentos, com maior proporção de proteína na dieta.
Com isso, há uma estreita relação entre o avanço do PIB mundial e o consumo de soja e milho, principais insumos da ração animal. Atualmente, a população mundial continua crescendo, com estimativas de que em 2050 seremos mais de 9,5 bilhões. Quanto ao PIB também se esperam avanços ano a ano. Contudo, é importante avaliar que, por mais que sigamos crescendo, esses avanços tendem a ser mais lentos. A população tem apresentado taxas de crescimento cada vez menores, com a queda da natalidade, em especial nos países de maior renda. A África é o continente que vai liderar o aumento da população nos próximos anos, mas onde o poder aquisitivo da população ainda é considerado baixo. Além das perspectivas de avanço mais lento da população e da economia mundial, não existe no radar algum país que vai “ocupar” o lugar da China, registrando taxas de crescimento anuais na casa dos dois dígitos.
A Índia, que ultrapassou a China em população no ano passado, ainda conta com uma renda per capita relativamente baixa e não se espera que registre um crescimento econômico tão acelerado quanto o que foi observado na China e uma diversificação tão rápida do consumo de alimentos. A população indiana também diverge em média dos chineses na composição de sua dieta, em virtude de questões culturais e religiosas, apresentando uma maior prevalência do vegetarianismo e veganismo. Ainda que o aumento no consumo não se dê exclusivamente pela introdução de mais proteína nos hábitos alimentares, o crescimento da economia indiana, além de outros países da Ásia, como os do Sul e do Sudeste, vai continuar sendo muito importante para a demanda mundial de grãos, de maneira geral.
Cabe destacar que a Índia é um player importante no mercado de óleos vegetais, sendo a maior importadora mundial de óleo de soja. A conjuntura atual para os principais demandantes parece estar consolidando uma tendência de avanço mais moderado do consumo de soja e outros grãos no mundo, em comparação com o passado recente, e que deve exigir ajustes também pelo lado dos ofertantes para enfrentarem essa possível nova realidade. Alternativamente, a introdução e o incentivo à produção de biocombustíveis avançados, como o diesel renovável (HVO) e o combustível sustentável de aviação (SAF), podem contrabalançar essa perspectiva nos próximos anos, a depender dos esforços globais por meio de políticas de descarbonização e combate às mudanças climáticas. Fonte: Ana Luiza Lodi. Broadcast Agro.