13/Oct/2026
A expansão da produção de etanol de milho no Brasil pode encontrar limites na capacidade de absorção do mercado de combustíveis, exigindo uma desaceleração dos investimentos caso a oferta avance acima do consumo. A avaliação é da Grão Direto. O aumento do número de usinas e da capacidade industrial amplia a necessidade de acompanhar a evolução da demanda, diante do risco de excedente de combustível e de pressão sobre os preços. O avanço da produção também pode afetar a rentabilidade das usinas de cana-de-açúcar, especialmente em um cenário de preços mais baixos do açúcar. Caso a oferta total de etanol cresça em ritmo superior ao consumo, a concorrência entre as diferentes rotas de produção poderá se intensificar, pressionando as margens industriais e exigindo maior eficiência operacional e comercial dos produtores. Os dados mais recentes da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) evidenciam a mudança na composição da oferta brasileira de etanol.
Na safra 2025/2026, a produção nacional somou 37,5 bilhões de litros, aumento de 0,8% em relação ao ciclo anterior. Desse total, 10,17 bilhões de litros foram provenientes do milho, crescimento de 29,8%, com participação de pouco mais de 27% do volume total. Em sentido contrário, a produção de etanol de cana-de-açúcar recuou 6,9%, para 27,33 bilhões de litros. A evolução confirma o ganho de participação do milho na matriz nacional de biocombustíveis, embora o ritmo de expansão também amplie a necessidade de novos mercados consumidores. Entre as possibilidades de absorção adicional da oferta estão os combustíveis sustentáveis para aviação e o transporte aquaviário. Projeções da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam que a produção de combustível sustentável de aviação pela rota do etanol poderá demandar 900 milhões de litros em 2035 nos cenários de crescimento baixo e médio, alcançando 3,9 bilhões de litros no cenário alto. No transporte aquaviário, o consumo deverá começar em 2034, com previsão de 65 milhões de litros em 2035.
Esses segmentos representam oportunidades de diversificação da demanda, mas os volumes projetados variam conforme o cenário de expansão e o desenvolvimento efetivo dessas rotas tecnológicas. No mercado doméstico de combustíveis, a competitividade do etanol hidratado em relação à gasolina continua sendo um fator determinante para o consumo. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que as vendas de etanol hidratado diminuíram 5,9% em 2025, em razão da menor competitividade do biocombustível. Em contrapartida, a produção de etanol anidro cresceu 3,1%, em movimento associado à elevação da mistura obrigatória na gasolina de 27% para 30%, implementada em agosto de 2025. A diferença entre os desempenhos evidencia a importância das políticas de mistura obrigatória e da relação de preços na determinação da demanda por cada tipo de etanol. A expansão das usinas também está modificando a dinâmica de comercialização do milho nas regiões próximas às plantas industriais.
A entrada de novos compradores fortalece a demanda local, altera a formação de preços e reduz a influência relativa das exportações em determinadas praças. Segundo a Cofco, a indústria de etanol passou a exercer papel determinante na formação das cotações nas áreas próximas às unidades produtivas, além de estimular o plantio do cereal. Essa transformação amplia a importância da localização das usinas, da capacidade de processamento e dos custos logísticos para a competitividade do milho. Nas regiões com concentração de plantas industriais, a disputa pelo grão tende a se intensificar, enquanto a demanda das usinas passa a influenciar diretamente as decisões de comercialização dos produtores e a distribuição dos fluxos de abastecimento. A maior absorção regional também reduz, em determinadas áreas, a disponibilidade de excedentes destinados à exportação. Nos próximos anos, a demanda das usinas de etanol deverá permanecer entre os principais fatores de formação dos preços e das margens do milho.
A utilização da estrutura logística nos períodos de menor movimentação da soja também poderá contribuir para a eficiência operacional e para a redução de custos no escoamento do cereal. Dessa forma, a expansão do setor de biocombustíveis tende a consolidar mudanças estruturais no mercado brasileiro de milho, com efeitos sobre a produção, a comercialização e a competição entre destinos industriais e exportadores. O principal desafio será equilibrar o crescimento da capacidade de produção de etanol com a expansão do consumo interno e a abertura de novos mercados. Para o setor de milho, a ampliação da demanda industrial pode sustentar preços e estimular investimentos agrícolas nas regiões próximas às usinas. Entretanto, se a produção de etanol avançar acima da capacidade de absorção do mercado, a pressão sobre os preços do combustível poderá comprometer as margens das unidades industriais e limitar a continuidade dos investimentos. A sustentabilidade da expansão dependerá, portanto, tanto da disponibilidade de milho e da eficiência das usinas quanto da evolução da demanda por biocombustíveis no Brasil. Fonte: Canal Rural. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.