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23/Sep/2026

Sorgo: demanda impulsiona a produção brasileira

A produção brasileira de sorgo ganha relevância no agronegócio, impulsionada pela abertura do mercado chinês, pela expansão do uso do cereal na produção de etanol e pela maior tolerância ao déficit hídrico em relação ao milho. A produção, que estava em aproximadamente 6 milhões de toneladas no ano passado, avançou para cerca de 7,5 milhões de toneladas neste ano. Goiás lidera o volume produzido, com aproximadamente 2 milhões de toneladas, seguido por Minas Gerais, com cerca de 1,4 milhão de toneladas. O avanço também ocorre em novas fronteiras agrícolas, com destaque para o Matopiba. No Maranhão, a produção regional registra crescimento de 110%. O mercado externo passou a representar um novo vetor de expansão para o sorgo brasileiro. Em 2024, o Brasil exportou cerca de 180 mil toneladas, recorde até então, com destaque para os embarques destinados à África do Sul. A abertura do mercado chinês amplia o potencial de crescimento das exportações, em um cenário em que a China é o principal importador mundial de sorgo e, apesar da produção doméstica, mantém dependência de compras externas.

A Abramilho participou, no ano passado, de uma missão com técnicos chineses que visitaram lavouras e unidades de beneficiamento em Minas Gerais e Goiás, movimento que antecedeu o avanço do protocolo de abertura do mercado. As exportações brasileiras já haviam superado 250 mil toneladas até o mês anterior, acima do volume embarcado em todo o ano de 2024. Para setembro, projeções da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais (Anec) indicam possibilidade de embarques de até 1 milhão de toneladas. O aumento da demanda externa já produz reflexos no mercado doméstico, com registros nesta safra de comercialização do sorgo por preços superiores aos do milho, situação considerada incomum para o cereal. A abertura do mercado chinês ocorreu simultaneamente à expansão das usinas de etanol que utilizam sorgo como matéria-prima, resultando em aumento rápido e acima do inicialmente esperado da demanda.

A indústria de biocombustíveis constitui outro importante vetor de crescimento do consumo interno. Quatro usinas já foram mapeadas utilizando tanto milho quanto sorgo, localizadas em Balsas (MA), Luís Eduardo Magalhães (BA), Ulianópolis (PA) e Sidrolândia (MS). Uma vantagem industrial é a possibilidade de adaptação de usinas de etanol de milho para o processamento de sorgo com alterações relativamente pequenas nas plantas. O processamento também gera DDG, coproduto destinado à alimentação animal. Milho e sorgo apresentam diferenças no processo industrial: o sorgo gera maior volume de DDG, enquanto o milho proporciona maior produção de óleo e de etanol. No campo, a maior tolerância do sorgo ao estresse hídrico amplia as possibilidades de utilização da cultura na 2ª safra, especialmente em períodos ou regiões em que o plantio do milho apresenta maior risco climático. A cultura se ajusta ao modelo de produção baseado em soja na 1ª safra e pode ocupar áreas em que a janela de plantio do milho já esteja comprometida.

O sorgo não necessariamente substitui o milho, podendo ser utilizado como alternativa de escalonamento conforme o avanço da colheita da soja e a evolução das condições meteorológicas. Em situações de atraso na colheita da soja ou de redução da janela adequada para o milho, as primeiras áreas disponíveis podem ser destinadas ao cereal, enquanto o sorgo pode ocupar áreas implantadas posteriormente. A maior tolerância a períodos sem chuva permite que a cultura permaneça viável em determinadas regiões mesmo em março, quando o risco climático para o milho de 2ª safra é mais elevado. Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia) e partes de Mato Grosso do Sul estão entre as áreas com potencial de expansão. A escolha entre milho e sorgo, entretanto, depende da relação entre custos, produtividade, preços e risco climático. O sorgo pode demandar menor quantidade de fertilizantes e não é afetado pela cigarrinha-do-milho, reduzindo a necessidade de gastos específicos com o controle dessa praga.

Em determinadas lavouras de milho, podem ser realizadas seis ou sete aplicações de inseticidas para o manejo da cigarrinha. Por outro lado, o sorgo apresenta produtividade inferior à do milho e, historicamente, também tende a receber preços menores, fatores que precisam ser considerados na decisão de plantio. Outro ponto de atenção está no manejo nutricional. A maior resistência do sorgo não significa que a cultura possa ser conduzida sem adubação adequada. A deficiência de fertilização pode reduzir a produtividade e levar a cultura a utilizar nutrientes disponíveis no solo, com potencial de comprometer a disponibilidade para a cultura subsequente. A alimentação animal continua sendo o principal destino doméstico do sorgo. O cereal é utilizado na alimentação de aves, suínos e bovinos e pode substituir parcialmente o milho nas formulações. A substituição exige ajustes nutricionais, pois o sorgo apresenta teor de proteína ligeiramente maior, mas menor densidade energética em relação ao milho.

Dessa forma, a formulação das rações precisa considerar as diferenças nutricionais entre os dois cereais. A expansão da produção de etanol pode fortalecer essa integração entre agricultura, energia e pecuária, uma vez que o processamento do sorgo gera DDG para utilização nas dietas animais. O potencial de expansão da cultura permanece elevado. Projeções da Embrapa indicam que o Brasil pode alcançar 15 milhões de toneladas de sorgo entre 2030 e 2035, praticamente o dobro das 7,5 milhões de toneladas atuais. Esse crescimento pode ocorrer tanto pelo aumento da produtividade quanto pela incorporação de áreas atualmente destinadas apenas à soja no verão e que permanecem sem cultivo na 2ª safra. O potencial de área e de produtividade se combina ao aumento da demanda externa, especialmente da China, e ao crescimento do consumo para produção de etanol. A expansão do sorgo também pode provocar mudanças na logística de comercialização e exportação.

Atualmente, parcela relevante dos embarques passa pelo Porto de Santos, mas a necessidade de segregação do sorgo em relação a outros grãos estimula a busca por rotas alternativas, como o Porto de Tubarão, no Espírito Santo. O desafio para a consolidação do crescimento será transformar a expansão recente da demanda em um mercado permanente, especialmente diante do comportamento das compras chinesas. Com a combinação entre exportações para a China, crescimento do etanol, utilização na alimentação animal, maior tolerância ao déficit hídrico e possibilidade de ocupação de áreas com menor janela para o milho, o sorgo amplia seu espaço na matriz brasileira de grãos. A cultura passa a representar uma alternativa adicional para produtores que atualmente trabalham com soja e milho, com potencial para estruturar uma terceira cadeia produtiva relevante, especialmente na 2ª safra. Fonte: Canal Rural. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.