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21/Sep/2026

Etanol de Milho: biomassa vira desafio no Brasil

A expansão acelerada do etanol de milho no Brasil amplia o desafio de abastecimento de biomassa para as usinas, em especial diante da necessidade de aumentar a oferta de cavacos de madeira em ritmo compatível com o crescimento da capacidade industrial. Segundo avaliação do Rabobank, a biomassa representa aproximadamente 7% a 8% do custo total de produção do etanol de milho, enquanto a formação de florestas de eucalipto exige anos de planejamento e capital, criando um descompasso entre a expansão das usinas e a disponibilidade de matéria-prima energética. Estudo do Itaú BBA indica que a capacidade instalada de produção de etanol de milho deve crescer de 10,9 bilhões de litros em 2025 para 25,3 bilhões de litros em 2030, avanço de 132%. Para atender a essa capacidade exclusivamente com eucalipto, seriam necessários aproximadamente 816 mil hectares de florestas plantadas no Brasil. Em Mato Grosso, principal polo produtor de etanol de milho, a capacidade projetada deve avançar de 6,9 bilhões para 11,9 bilhões de litros entre 2025 e 2030.

No cenário estimado pelo Itaú BBA, a expansão exigiria cerca de 383 mil hectares de eucalipto, ante 165 mil hectares atualmente. Considerando custo de implantação e condução de R$ 35 mil por hectare ao longo de 13 anos, os 218 mil hectares adicionais demandariam investimentos próximos de R$ 7,6 bilhões. Em um cenário de menor eficiência industrial e florestal, o investimento poderia alcançar R$ 14,3 bilhões. A limitação está relacionada principalmente ao tempo necessário para formar as florestas energéticas. Avaliações do Rabobank identificaram pastagens degradadas e áreas menos favoráveis ao cultivo de soja como potenciais locais para a expansão do eucalipto nas proximidades das usinas de etanol de milho. Em estudo realizado há cerca de um ano e meio, o banco estimou a necessidade de aproximadamente 10 mil hectares de eucalipto para abastecer uma operação capaz de processar 1 milhão de toneladas de milho. A questão do abastecimento também envolve mudanças regulatórias.

Em junho, o governo de Mato Grosso e o Ministério Público estadual firmaram um Termo de Compromisso Ambiental com o objetivo de reduzir o uso de biomassa proveniente da supressão de vegetação nativa pelas grandes indústrias consumidoras. Posteriormente, o Ministério Público aceitou pedido do governo estadual para suspender o prazo de 30 dias para edição do decreto que regulamentaria a transição, sem definição, naquele momento, de uma nova data limite. A incerteza regulatória adiciona dificuldade ao planejamento das empresas, especialmente porque outras indústrias também utilizam biomassa para geração de energia. A necessidade de ampliar florestas energéticas, portanto, depende simultaneamente de disponibilidade de áreas, prazo de formação das plantações, capital para investimento e definição das regras para utilização de biomassa. Nesse contexto, a integração entre cana-de-açúcar e milho surge como alternativa para determinados projetos. O bagaço gerado pelas usinas canavieiras pode ser utilizado como fonte de energia para a produção de etanol de milho, permitindo aproveitar uma biomassa já disponível.

A integração também possibilita compartilhar mão de obra e parte da estrutura industrial existente, incluindo a destilaria. As usinas flex, capazes de processar cana e milho, apresentam essa vantagem principalmente em regiões onde a cadeia canavieira já está consolidada, como Goiás, Triângulo Mineiro e São Paulo. São Martinho e Cargill são exemplos de empresas com operações desse tipo. Para as usinas canavieiras, a incorporação do milho permite diversificar a produção e ampliar a utilização da estrutura industrial e da biomassa disponível. A vantagem econômica da integração, contudo, não elimina a competitividade das plantas dedicadas exclusivamente ao milho, conhecidas como full. Essas unidades se beneficiam da escala industrial e apresentam menor investimento por litro de capacidade instalada de etanol. Além disso, o modelo de produção baseado na aquisição do milho no mercado e em investimentos em armazenamento permite organizar o abastecimento sem a necessidade de desenvolver uma atividade agrícola própria. Para as plantas full, a instalação de canaviais como alternativa para solucionar o abastecimento de biomassa tende a apresentar maior complexidade.

Essas unidades são normalmente implantadas em regiões com abundância de milho e condições favoráveis de aquisição do cereal, que não necessariamente coincidem com áreas de oferta de cana-de-açúcar. A produção de cana também exigiria investimentos agrícolas recorrentes e uma estrutura operacional adicional. A biomassa representa uma parcela relevante dos custos, mas o milho continua sendo o principal componente da estrutura de custos do etanol produzido a partir do cereal. Um aumento expressivo do preço da biomassa reduziria as margens das usinas, embora as empresas estejam buscando elevar a eficiência de conversão da biomassa por metro cúbico de etanol produzido. As usinas que dispõem de bagaço excedente também enfrentam uma decisão econômica sobre sua utilização. O material pode ser empregado para processar milho, utilizado na geração de eletricidade para comercialização ou vendido como biomassa para outras indústrias. A escolha depende do retorno esperado e do investimento necessário em cada alternativa. A rentabilidade do etanol de milho também é influenciada pelas receitas dos coprodutos, principalmente os grãos de destilaria utilizados na alimentação animal, como DDG e DDGS, e o óleo de milho.

Esses produtos complementam a receita das usinas e contribuem para a formação da margem em um cenário de preços do etanol mais pressionados. A integração com a cana tende, portanto, a apresentar maior potencial para usinas canavieiras já estabelecidas do que para empresas dedicadas exclusivamente ao milho que pretendam implantar uma operação de cana. A localização das plantas, a disponibilidade regional de matéria-prima, a estrutura industrial existente e as condições de investimento são fatores determinantes para a viabilidade do modelo. O avanço do etanol de milho, que já representa cerca de 25% do mercado segundo a avaliação do Rabobank, deverá manter a pressão sobre a oferta de biomassa. A expansão da capacidade industrial exige planejamento antecipado das florestas energéticas, enquanto a integração com a cana oferece uma alternativa para determinadas regiões. O principal desafio será compatibilizar a velocidade de crescimento das usinas com o prazo necessário para garantir uma fonte sustentável e competitiva de biomassa. Fonte: Money Times. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.