21/Sep/2026
O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) lançou uma estratégia para ampliar o acesso do etanol norte-americano aos mercados internacionais, tendo o Brasil como uma das principais variáveis para o comportamento das exportações em 2026. O plano prevê quatro frentes: aumento da mistura de etanol nos combustíveis rodoviários, redução de restrições aos biocombustíveis produzidos a partir de culturas agrícolas, abertura de mercados ainda pouco explorados e ampliação da atuação dos Estados Unidos em organismos internacionais. O documento foi divulgado em 16 de setembro e busca aproveitar o recorde de exportações norte-americanas registrado em 2025. Os Estados Unidos exportaram 8,4 bilhões de litros de etanol em 2025, com receita de US$ 4,7 bilhões, segundo os dados apresentados no relatório. O resultado representou o segundo recorde anual consecutivo, após embarques de 7,4 bilhões de litros, no valor de US$ 4,3 bilhões, em 2024.
Dados também mostram que as exportações de etanol combustível alcançaram 2,13 bilhões de galões no ano-safra 2024/25, alta de aproximadamente 23% em relação ao recorde anterior. A participação dos Estados Unidos nas exportações globais de etanol passou de uma média de 48% entre 2020 e 2023 para 64% em 2025, enquanto a fatia do Brasil recuou de 23% para 12% no mesmo intervalo. Em volume, o Brasil exportou 955 milhões de litros a menos em 2025 do que em 2023, enquanto os embarques norte-americanos cresceram 3 bilhões de litros no período. O USDA considera o Brasil a principal variável do lado da oferta para o mercado internacional de etanol em 2026. A avaliação considera o avanço da produção brasileira de etanol de milho e, simultaneamente, o crescimento do consumo doméstico. Caso a demanda interna avance mais rapidamente que a produção, a disponibilidade brasileira para exportação tende a permanecer limitada, abrindo espaço para maior participação dos Estados Unidos.
Em sentido contrário, uma expansão da produção de etanol de milho e de cana superior ao crescimento do consumo interno poderá ampliar o excedente exportável brasileiro. A expansão do etanol de milho é um dos principais elementos dessa equação. Segundo estimativas da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) citadas pelo USDA, o etanol produzido a partir do cereal passou de aproximadamente 5% da produção total brasileira na safra 2019/20 para mais de 25% em 2025/26. A produção total brasileira de etanol atingiu recordes em cada um dos últimos três anos, enquanto uma projeção do Rabobank, de janeiro de 2026, indica aumento de mais 3 bilhões de litros na capacidade brasileira de produção de etanol de milho até o fim deste ano. Apesar da expansão da oferta, o consumo doméstico absorveu parcela maior da produção brasileira nos últimos dois anos, restringindo o volume disponível para exportação e contribuindo para preços internos superiores aos praticados nos Estados Unidos.
Entre os fatores estão o aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina, a competitividade do etanol hidratado em relação à gasolina e o crescimento do consumo de combustíveis. O USDA destaca que o etanol hidratado é particularmente competitivo no Brasil quando seu preço corresponde a menos de 70% do valor da gasolina C. Durante quase todo 2024 e 2025, a relação média nacional permaneceu abaixo desse nível, favorecendo o consumo do hidratado. Paralelamente, o consumo brasileiro de gasolina cresceu 3% em 2024 e novamente em 2025, segundo estimativas da Agência Internacional de Energia (IEA), elevando também a demanda por etanol utilizado na mistura. A estrutura do mercado brasileiro também diferencia o País dos Estados Unidos. A produção brasileira tradicionalmente está concentrada na cana-de-açúcar, cuja safra ocorre principalmente entre abril e novembro. A disponibilidade de matéria-prima tende a diminuir entre dezembro e março, antes da colheita seguinte, período em que o etanol pode apresentar menor disponibilidade e preços mais elevados.
A produção também varia de acordo com o tamanho da safra e a rentabilidade relativa entre açúcar e etanol. O avanço do milho amplia a capacidade de produção e reduz parte dessa sazonalidade. Os Estados Unidos, por sua vez, produzem e exportam principalmente etanol anidro para mistura com gasolina, sem oferta relevante de etanol hidratado. Dessa forma, a demanda brasileira por etanol importado varia de acordo com a relação de preços entre gasolina C e hidratado, enquanto a expansão da produção nacional reduz a necessidade de compras externas. Dados do USDA mostram que a redução das vendas norte-americanas ao Brasil nos últimos anos foi compensada pelo crescimento dos embarques para outros mercados, com destaque para Canadá e Países Baixos. O cenário internacional de energia também poderá influenciar o comércio de biocombustíveis em 2026. O USDA considera que os preços elevados dos combustíveis, associados às tensões no Oriente Médio e às restrições de navegação no Estreito de Ormuz, podem estimular países a ampliar ou antecipar misturas obrigatórias de biocombustíveis.
No Brasil, a mistura obrigatória de etanol na gasolina C foi elevada temporariamente para 32% em julho, por 180 dias. A medida tende a elevar o consumo interno e reduzir a disponibilidade para exportação no segundo semestre, caso seja mantida conforme previsto. A estratégia norte-americana também busca ampliar mercados consumidores. No Reino Unido, o acordo comercial firmado com os Estados Unidos em 2025 estabeleceu cota de 1,4 bilhão de litros de etanol norte-americano com acesso livre de tarifas, após a retirada de uma tarifa de 19%. No Vietnã, a mistura obrigatória de 10% de etanol na gasolina, implementada em junho de 2026, deverá elevar o consumo do biocombustível para mais de oito vezes o volume do ano anterior. Como a produção doméstica deverá atender apenas cerca de um quarto da demanda, o país poderá ampliar as importações. Na Guatemala, a implementação gradual da mistura E10 começou no fim de junho.
Embora a produção local seja suficiente para atender à demanda interna prevista, o país poderá continuar exportando etanol para a União Europeia e importando etanol de milho norte-americano, de menor preço, para abastecer o mercado doméstico. Os embarques norte-americanos continuaram crescendo em 2026. Até junho, o volume exportado estava 12% acima do registrado em igual período de 2025, enquanto o valor das vendas acumulava alta de 21%. O USDA identifica como vetores para a continuidade desse crescimento a abertura de novos mercados, mudanças nas políticas de biocombustíveis dos Estados Unidos, acordos comerciais e aumento das misturas obrigatórias em outros países. No mercado norte-americano, alterações no crédito tributário passaram a incluir produtores de etanol e eliminaram a cláusula relacionada à mudança indireta do uso da terra.
Segundo o USDA, essas mudanças podem elevar a rentabilidade da produção, estimular a oferta e aumentar a competitividade do etanol dos Estados Unidos no mercado externo. Em contrapartida, uma eventual adoção nacional da mistura E15 poderá elevar o consumo doméstico e reduzir a disponibilidade para exportação, com potencial impacto sobre os preços. O cenário para 2026, portanto, combina expansão da capacidade produtiva brasileira e norte-americana com crescimento da demanda interna nos dois mercados e abertura de novos destinos consumidores. Para o Brasil, o principal fator de definição da disponibilidade exportável será a relação entre o crescimento da produção de etanol de milho e cana e o avanço do consumo doméstico, enquanto os Estados Unidos buscam ampliar sua participação internacional por meio da abertura de mercados e da redução de barreiras comerciais. Fonte: CNN Brasil. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.