03/Sep/2026
A expansão do etanol de milho está alterando o perfil de consumo doméstico do cereal no Brasil e a dinâmica de comercialização nas principais regiões produtoras. Com a entrada de novas usinas e a ampliação da capacidade instalada, volumes crescentes de milho são processados próximos às áreas de produção, criando uma demanda industrial recorrente e ampliando as alternativas de venda para os produtores. Dados da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) mostram que o volume de milho processado pelas usinas brasileiras aumentou de 1,3 milhão de toneladas na safra 2017/18 para 22,4 milhões de toneladas em 2025/26. Para 2026/27, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima produção de 11,91 bilhões de litros de etanol de milho, avanço de 17% em relação à temporada anterior. A tendência de crescimento deve continuar. A União Nacional do Etanol de Milho (Unem) projeta produção de 16,63 bilhões de litros em 2033/34.
Considerando os rendimentos atuais, estudo do Cepea estima que esse volume poderia representar demanda próxima de 38 milhões de toneladas de milho. A expansão coloca em discussão a possibilidade de formação de um novo piso estrutural de demanda para o cereal brasileiro, embora não represente um piso de preços ao produtor. A ampliação da indústria de etanol de milho cria uma nova dinâmica no mercado de grãos ao estabelecer consumidores permanentes próximos às regiões produtoras. Em Mato Grosso, por exemplo, a presença das usinas reduz a dependência da exportação de milho in natura e dos custos associados ao transporte até os mercados externos. Essa demanda recorrente aumenta a previsibilidade e as possibilidades de comercialização, mas as cotações continuam condicionadas às condições de oferta e demanda, ao câmbio, às exportações, ao tamanho das safras brasileira e internacional e às referências externas. Mato Grosso é um dos principais exemplos dessa transformação.
Para a safra 2026/27, o Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) projeta consumo interno de 27,04 milhões de toneladas de milho no Estado, crescimento de 16,23% em relação à temporada anterior. As exportações são estimadas em 17,50 milhões de toneladas, queda de 27,39%. O avanço do consumo doméstico está associado à abertura de novas usinas de etanol de milho e à expansão da capacidade das unidades existentes. Com maior absorção interna e menor excedente disponível para exportação, os estoques finais de milho em Mato Grosso são projetados em 290 mil toneladas, redução de 55,77% ante a temporada anterior. O movimento reforça uma tendência já observada nos dados nacionais, com o crescimento do consumo doméstico sendo impulsionado principalmente pela produção de ração animal e pelo etanol. Apenas o segmento de etanol poderia acrescentar quase 5 milhões de toneladas à demanda anual por milho. A expansão do consumo também é considerada estratégica diante da pressão sobre a rentabilidade dos produtores.
A Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT) destacou o forte crescimento da absorção doméstica do cereal no Estado e apontou os biocombustíveis como uma das principais oportunidades para ampliar a demanda. A avaliação também considera o potencial de agregação de valor à produção agrícola e a crescente demanda mundial por combustíveis de menor emissão de carbono. Em Mato Grosso do Sul, a presença das usinas também já amplia a competição pela matéria-prima. A disputa entre cerealistas e indústrias de etanol por milho produzido no Estado demonstra, na prática, a ampliação do número de compradores e a possibilidade de formação de preços mais competitivos nas regiões próximas às unidades industriais. A expansão do etanol, contudo, não significa que as exportações perderão relevância. O Brasil continuará produzindo volumes expressivos de milho que exigirão participação significativa no mercado internacional. A mudança ocorre na crescente parcela da produção que passa a encontrar demanda industrial dentro das próprias regiões produtoras, reduzindo a dependência relativa das exportações para absorver o crescimento da oferta.
O processamento industrial também amplia os destinos do milho por meio da geração de coprodutos, como os grãos secos de destilaria (DDGs), utilizados principalmente na alimentação animal. Com isso, as cadeias de produção de grãos, proteína animal e energia tornam-se mais integradas, criando novas possibilidades de aproveitamento econômico do cereal. A expansão das usinas e dos projetos de aumento de capacidade deve manter a demanda industrial em trajetória de crescimento nos próximos anos. Nesse contexto, o conceito de novo piso estrutural de demanda está relacionado à criação de uma base permanente de consumo, e não a uma garantia de preço mínimo para o produtor. A principal transformação para o agricultor está na maior previsibilidade de demanda e na ampliação das alternativas de comercialização do milho, especialmente nas regiões próximas aos polos de produção de etanol. Fonte: Notícias Agrícolas. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.