25/Aug/2026
As altas temperaturas e chuvas irregulares vêm modificando a distribuição de lavouras nas áreas de cultivos de importantes produtores de cereais da União Europeia. Trigo, milho, cevada, triticale, aveia e centeio são as principais culturas cultivadas no bloco econômico, tendo a França, Alemanha, Polônia, Espanha, Romênia, Itália e Hungria como maiores produtores. Em 2025, os cereais ocuparam 49,87 milhões de hectares da Europa, acréscimo de 1,6% em relação ao ano anterior, produzindo 289,93 milhões de toneladas, aumento de 14,2% no mesmo período de comparação. O milho e o girassol são as culturas que registraram o maior deslocamento de produção. A redução de área de produção de milho na região dos Cárpatos (Romênia e Hungria), que, apesar de possuir solo altamente fértil (do tipo chernozem), sofre com a elevação de temperatura e má distribuição de chuvas, tem gerado forte instabilidade nas respectivas ofertas domésticas.
Essas condições climáticas provocam déficit de umidade no solo, aumento da evapotranspiração e perda de água e falha na polinização. Em 2025, conforme dados da Eurostat, a Romênia produziu cerca de 7,72 milhões de toneladas de milho e a Hungria, 3,85 milhões de toneladas, contra respectivas colheitas romena e húngara de 10,34 milhões e de 9 milhões em 2005, reduções de 25,4% e de 57,2% no período. Nesses últimos 20 anos, a Romênia reduziu a área cultivada em 660 mil hectares e a Hungria, em 460 mil hectares. Por outro lado, a Polônia tem seguido o caminho inverso: o país vem avançando a sua área de cultivo ao longo dessas últimas safras, o que tem ajudado a suprir parte da oferta do bloco econômico e compensado os impactos das reduções registradas na Romênia e Hungria. Em 2025, a cultura do milho foi cultivada em 1,34 milhão de hectares, com produção de 10,5 milhões de toneladas; em 2005, a área de produção havia sido de apenas 339 mil hectares, com produção de 1,94 milhão de toneladas.
A área de milho polonesa expandiu mais de um milhão de hectares, gerando aumento de 8,55 milhões de toneladas na produção nesses 20 anos. Por fim, a produção de milho no bloco econômico somou 60 milhões de toneladas no ano de 2025, acréscimo de 1,6% em relação a 2024, mas 5,2% abaixo da média histórica dos últimos 20 anos, que é de 63,5 milhões de toneladas. A lavoura de girassol vem substituindo parte da área do milho devido a sua tolerância à seca. Em 2025, a Hungria cultivou uma área de cerca de 709,4 mil hectares, com produção de 1,7 milhão de toneladas, aumento de 198,3 mil hectares e de 613,5 mil toneladas em produção em relação ao ano de 2005. A Romênia cultivou 1,2 milhão de hectares de girassol, com produção de 2,06 milhões de toneladas em 2025, expandindo em superfície cerca de 234 mil hectares e em produção de 717 mil toneladas em relação ano de 2005.
Um exemplo prático foi observado na região de Tépe, Hungria, que passou por uma severa oscilação pluviométrica. Entre 2009 e 2026, a região viu oscilações brutais no volume de chuvas, saindo de 1000 mm para apenas 91 mm em um ano, e secas severas que afetaram diretamente as culturas de verão. Como consequência, uma fazenda dessa região precisou reduzir drasticamente a concentração de milho em sua matriz produtiva, de 75% em 2022 para 30%, apostando na expansão do girassol, na adoção rigorosa do plantio direto e no aumento da irrigação por pivô central como pilares de sobrevivência econômica e resiliência climática. Historicamente, a Hungria apresentava excedente de produção na Bacia do Cárpatos, o que fazia com que o preço negociado no campo húngaro ficasse em um patamar inferior às referencias internacionais ou a valores pagos em países europeus deficitários.
Esse cenário proporcionava vantagem competitiva das indústrias húngaras frente a concorrentes de outros países. Contudo, a retração na oferta interna de milho húngaro preocupa os setores agroindustriais locais de ração e etanol. Como a Hungria possui um dos maiores processadores de grãos da Europa Central, incluindo a maior biorrefinaria de etanol do continente, as fábricas de ração demandam, juntas, cerca de 5,1 milhões toneladas anualmente. Dentre as cadeias de carnes mais impactadas por sua escassez do cereal estão as aves (com destaques para aves aquáticas, como os patos e gansos que respondem por 48,3% do consumo de ração) e a de suínos (36,6%). Outro ponto que chama atenção é o agravamento fitossanitário provocado pelo calor extremo, que tem favorecido o desenvolvimento de fungos produtores de micotoxinas no grão, elevando as cargas rejeitadas nas fábricas de ração e etanol.
Embora Hungria e Romênia tenham registrado expressiva redução de área de cultivo de milho, o bloco econômico não enfrentou problemas de desabastecimento, uma vez que a expansão da Polônia ajudou a compensar essas perdas. Contudo, os impactos do aquecimento global já evidenciam mudanças nos sistemas de produção regionais. Mesmo que esse movimento ainda apresente caráter pontual, a tendência é que o tema ganhe força à medida que outros países passem a sofrer com essas mesmas alterações climáticas. Em 2026, no caso do milho, dados mais recentes do Eurostat indicam que a previsão é de colheita de 59,902 milhões de toneladas na Europa. A seca que atinge importantes regiões produtoras do bloco europeu, contudo, pode resultar em reajuste negativo dessa estimativa. Vale lembrar que, em 2022, uma severa seca prejudicou a produção do cereal, que somou apenas 53 milhões de toneladas, uma das menores marcas da série recente. Esse cenário, por sua vez, poderia deslocar parte da demanda internacional ao milho brasileiro. Fonte: Mauro Osaki. Cepea.