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12/Aug/2026

EUA: impasse sobre Farm Bill trava avanço do E15

A decisão do Comitê de Agricultura do Senado dos Estados Unidos de não avançar com o projeto da nova Lei Agrícola, Farm Bill, adiou a autorização permanente para a venda de gasolina com 15% de etanol (E15) durante todo o ano e em todo o território norte-americano. O impasse partidário interrompeu a tramitação do pacote defendido pelas associações de agricultores, em razão de divergências sobre as regras de repasse de custos e as taxas de erro do Programa de Assistência Nutricional Suplementar (SNAP). A paralisação legislativa representa um revés para o setor de biocombustíveis e para os produtores de milho dos Estados Unidos, que consideravam a ampliação da comercialização do E15 uma das principais alternativas para elevar a demanda doméstica por etanol e reduzir os excedentes de grãos. A ausência de aprovação no curto prazo mantém a atual estrutura de consumo e posterga uma mudança considerada relevante para a matriz de combustíveis e para o mercado de milho do país.

A autorização permanente do E15 é considerada estratégica porque permitiria ampliar estruturalmente o consumo doméstico de etanol, elevando sua participação na gasolina convencional e alterando a dinâmica de utilização das usinas, principalmente no Meio Oeste. Atualmente, a participação do etanol na matriz de combustíveis dos Estados Unidos permanece, em média, entre 9% e 10% nos últimos dez anos, com variações regionais. A eventual transição para uma mistura de 15% poderia acrescentar até 25 bilhões de litros por ano à demanda por etanol, conforme avaliação da Agrinvest Commodities. O aumento elevaria a utilização das usinas e reforçaria a demanda industrial por milho, especialmente nas principais regiões produtoras dos Estados Unidos. A postergação da medida mantém, portanto, uma fonte potencial de crescimento da demanda por milho fora do mercado de alimentação e exportação.

O impasse provocou reação negativa entre entidades do agronegócio norte-americano, principalmente entre os produtores de milho. A Associação Nacional dos Produtores de Milho (NCGA) considera a autorização do E15 durante todo o ano uma medida relevante para ampliar as alternativas de consumo do cereal e melhorar as perspectivas econômicas dos produtores. A manutenção do impasse em torno do E15 nos Estados Unidos ocorre paralelamente às tensões comerciais entre Brasil e Estados Unidos, incluindo o anúncio de uma sobretaxa adicional norte-americana de 25% sobre o etanol e o açúcar brasileiros. Apesar do impacto potencial das medidas comerciais, a exposição direta das exportações brasileiras de etanol ao mercado norte-americano é limitada. Em 2025, o Brasil exportou 1,6 milhão de metros cúbicos de etanol, com receita próxima de US$ 1 bilhão.

Os Estados Unidos absorveram 253 mil metros cúbicos, menos de 16% do volume exportado pelo Brasil e 17,5% da receita. A participação norte-americana já vinha diminuindo nos últimos anos, antes da adoção das novas tarifas, enquanto mais de 84% do volume exportado pelo Brasil teve outros destinos. Caso a autorização permanente do E15 seja aprovada futuramente de forma isolada nos Estados Unidos, a arbitragem para exportação de etanol norte-americano tende a se tornar menos favorável. O aumento da demanda doméstica poderia absorver parte da produção adicional das usinas dos Estados Unidos e reduzir a disponibilidade para o mercado externo, criando espaço para fornecedores alternativos. Nesse cenário, o Brasil apresenta potencial para ampliar sua participação no comércio internacional, mas enfrenta o desafio de aumentar a previsibilidade da oferta.

A maior parte do etanol brasileiro é produzida a partir da cana-de-açúcar, que representa 73% da matriz. Como as usinas podem alterar o mix entre açúcar e etanol de acordo com as condições de mercado, períodos de preços internacionais mais atrativos para o açúcar podem estimular maior produção do açúcar e reduzir a disponibilidade de etanol. A oscilação da oferta exportável entre ciclos dificulta a construção de contratos de longo prazo com compradores, especialmente na Ásia, que demandam previsibilidade de fornecimento. A estabilidade da oferta passa, portanto, a ser um fator relevante para a expansão das exportações brasileiras de etanol e para a consolidação do País como fornecedor internacional. A expansão do etanol de milho surge como uma alternativa para reduzir essa volatilidade. As usinas de milho apresentam produção contínua ao longo do ano, diferentemente da sazonalidade associada à moagem da cana, e apresentam custo estimado de produção inferior.

O custo por litro é estimado em R$ 1,90 para o etanol de milho, ante R$ 2,40 por litro para o etanol de cana-de-açúcar. O aumento da participação do milho na matriz brasileira poderá ampliar a capacidade do País de oferecer fornecimento mais estável ao mercado internacional, especialmente na Ásia. A combinação entre produção contínua, menor custo por litro, investimentos em infraestrutura portuária e melhoria da logística interna tende a reforçar a competitividade brasileira no comércio global de biocombustíveis. A ausência de consenso imediato nos Estados Unidos adia a autorização nacional permanente do E15 e mantém, no curto prazo, a pressão sobre os estoques de milho no Meio Oeste. A transição para misturas mais elevadas de biocombustíveis, contudo, permanece como uma questão relevante para o mercado energético e agrícola global.

Para o Brasil, o adiamento abre uma janela estratégica para ampliar sua capacidade de produção e exportação de etanol. A maturação das usinas de etanol de milho na Região Centro-Oeste, associada aos investimentos em logística interna e infraestrutura de escoamento portuário, pode elevar a capacidade de fornecimento contínuo e reduzir uma das principais limitações competitivas do País no mercado internacional. A evolução do comércio global de etanol nos próximos anos deverá depender da combinação entre políticas de mistura nos grandes mercados consumidores, disponibilidade de matéria-prima, custos de produção, tarifas comerciais e capacidade logística. Nesse ambiente, a estabilidade da oferta e a competitividade estrutural tendem a ganhar importância na disputa por participação nos mercados internacionais. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.