ANÁLISES

AGRO


SOJA


MILHO


ARROZ


ALGODÃO


TRIGO


FEIJÃO


CANA


CAFÉ


CARNES


FLV


INSUMOS

29/Jun/2026

Etanol de Milho: entrevista Airton Galinari - Coamo

A usina de etanol de milho da Coamo Agroindustrial, com mais de 50% das obras concluídas em Campo Mourão (PR), deve iniciar as operações em março de 2027. O empreendimento de R$ 1,948 bilhão, que conta com o reforço de R$ 500 milhões captados via notas comerciais pelo Programa Eco Invest Brasil - marca a entrada da maior cooperativa da América Latina em um novo segmento, passando a verticalizar também a produção de milho, o que já faz com soja e trigo. A planta processará 1,7 mil toneladas diárias de milho, absorvendo, nesta primeira fase, 15% do volume total de grãos recebido dos seus 33 mil cooperados. Em entrevista, o presidente executivo da Coamo, Airton Galinari, avalia que o novo ativo valorizará o cereal no mercado local e permitirá remunerar melhor o produtor. Diante de um cenário de preços internacionais acomodados e crédito escasso, Galinari destaca que a diversificação industrial é o caminho para mitigar as margens apertadas do campo e garantir a distribuição de sobras recordes, que superaram os R$ 716 milhões no último ciclo. Segue a entrevista:

O que levou a Coamo a investir em etanol de milho justamente em um momento de margens estreitas para o produtor?

Airton Galinari: Nosso histórico sempre foi balizado pela verticalização. Processamos cerca de 50% do trigo que recebemos em nossos moinhos e quase 45% da soja em nossas três indústrias de esmagamento e refino. No milho não tínhamos essa estrutura porque a cooperativa não opera com proteína animal. Estudamos diversas alternativas de agregação de valor desde a década de 1990, como amidos modificados e xaropes de glicose, mas os projetos não evoluíram. Com a consolidação das primeiras indústrias de etanol de milho no Brasil a partir de 2017, os números mostraram que o processo é mais produtivo e competitivo do que o modelo baseado na cana-de-açúcar. Como o nosso cooperado é um grande produtor de milho, encontramos o caminho ideal. A indústria de rações da Coamo consumia apenas 1,5% do nosso recebimento. Nesta primeira fase da usina de etanol, a absorção vai saltar para 15% e a engenharia do projeto já está totalmente preparada para uma futura duplicação.

Qual será a capacidade diária da planta de etanol de milho? Já há uma estimativa de volume de subprodutos gerados?

Airton Galinari: A indústria vai esmagar 1,7 mil toneladas de milho por dia, o que representa entre 600 mil e 650 mil toneladas por ano. A capacidade diária será de 750 mil litros de etanol e cerca de 500 toneladas de DDG (grãos secos de destilaria). Um diferencial importante é a cogeração de energia: a planta vai gerar 30 MW de eletricidade a partir de biomassa de eucalipto originada de reflorestamento próprio. Essa energia será integralmente consumida no nosso complexo industrial de Campo Mourão, que conta com oito indústrias. O parque se tornará praticamente autossuficiente, fechando um ciclo altamente sustentável de combustíveis renováveis.

Os preços do etanol hoje estão em queda. O metro cúbico do etanol recuou de R$ 3.000,00 no ano passado para R$ 2.200 a R$ 2.300 atualmente. Como esse cenário afeta a rentabilidade projetada por vocês?

Airton Galinari: A entrada de uma safra robusta de cana-de-açúcar elevou substancialmente a oferta e retirou rentabilidade do mercado de forma severa nos últimos meses. No entanto, sabemos que esse movimento é volátil e momentâneo. O mercado de biocombustíveis é maduro e o consumo de etanol no Brasil supera 1,5 bilhão de litros, o que garante liquidez. O produtor precisa compreender que haverá oscilações de margem, mas a atividade industrial raramente remunera menos do que o mercado de grãos in natura. Nosso objetivo de pagar acima da média histórica do balcão permanece inalterado.

No Paraná, a demanda por milho vinda da indústria de proteína animal e de rações é firme. Com a retirada do mercado, pela Coamo, dessas 650 mil toneladas de milho os preços do grão no mercado local não tendem a subir e elevar os custos da indústria da região?

Airton Galinari: De fato, a retirada desse volume vai reduzir a oferta para o mercado tradicional de proteína animal. A valorização regional (do milho) ocorreu em todas as praças onde usinas de etanol foram instaladas, inclusive em Mato Grosso do Sul. Pela lei da oferta e da demanda, a tendência é de que o preço suba regionalmente. Para a Coamo, esse efeito é positivo, pois nossa missão principal como cooperativa é maximizar a renda e a remuneração do produtor associado.

O DDG produzido em Campo Mourão será comercializado prioritariamente para cooperados que têm criações ou a Coamo colocará a produção no mercado?

Airton Galinari: Não haverá canais de exclusividade. O DDG será destinado para a melhor oportunidade comercial que se apresentar, seja no mercado aberto para cooperados e não cooperados, indústrias de ração parceiras ou mercado interno regulamentar. Também miramos a exportação. A Coamo possui uma musculatura logística consolidada no comércio externo - exportamos mais de 95% do nosso farelo de soja - e o DDG entrará nessa mesma esteira de comercialização internacional.

Como será desenhada a engenharia de originação do milho para abastecer a planta de etanol?

Airton Galinari: O milho será originado 100% dentro do Estado do Paraná, concentrando-se em um raio curto de ação que engloba as regiões centro-oeste, oeste e as novas unidades que incorporamos no norte do Estado. Trazer grãos de Santa Catarina ou Mato Grosso do Sul inviabilizaria o projeto devido à incidência de tributação interestadual. O objetivo é operar no menor raio logístico possível, utilizando nossa frota própria de caminhões para verticalizar a margem do frete. A logística de biomassa (lenha) também será robusta e centralizada regionalmente, dado que, excluindo o milho, a lenha representa o maior custo operacional de uma planta de etanol.

O foco no refino doméstico de biocombustíveis sinaliza uma mudança estrutural na estratégia de exportação de grãos da Coamo?

Airton Galinari: Não há nenhuma mudança de rota ou restrição de mercados. Como a primeira fase da usina vai demandar 15% do nosso recebimento, mais de 80% do milho da Coamo continuará sendo direcionado para os canais tradicionais de exportação e atendimento ao mercado interno nacional. Vale pontuar que o milho que originamos em Mato Grosso do Sul, por exemplo, praticamente não sai mais do Estado, sendo quase todo absorvido pelas usinas locais de etanol de lá. O excedente do Paraná continuará abastecendo os portos. Inclusive, atualmente as vendas domésticas têm apresentado margens mais atrativas do que a exportação física do grão.

A Coamo planeja estruturar canais para a exportação direta do etanol de milho ou o foco no futuro está em mercados emergentes como o combustível sustentável de aviação (SAF)?

Airton Galinari: Estaremos atentos a todas as janelas. O mercado de SAF é uma realidade em expansão global e o etanol de milho brasileiro possui um perfil de pegada de carbono altamente competitivo para essa transformação técnica. Acompanhamos de perto a evolução regulatória tanto no mercado interno quanto no exterior. Seja exportando o biocombustível hidratado/anidro tradicional ou participando de cadeias de conversão para aviação, a Coamo se posicionará onde houver a melhor rentabilidade líquida para o negócio.

Qual é o pipeline industrial da Coamo para os próximos cinco anos?

Airton Galinari: Nosso planejamento estratégico industrial foca na conclusão, até o fim do próximo ano, da usina de biodiesel em Paranaguá (PR), projetada para processar 1.000 toneladas de óleo por dia (1 milhão de litros de biodiesel/dia). As duas plantas de biocombustíveis atuarão de forma integrada: a usina de etanol de milho em Campo Mourão foi desenhada para absorver até 5% de trigo de baixa qualidade em sua receita de destilação, oferecendo uma solução comercial importante para as safras frustradas de inverno. O plano se completa com a ampliação da capacidade de esmagamento de soja em Paranaguá e Campo Mourão e, eventualmente, a duplicação da própria usina de etanol de milho.

Fonte: Broadcast Agro.