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16/Jun/2026

Produtividade da soja mais estável do que o milho

Em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Paraná, a 2ª safra de milho é quase o dobro que a da soja e responde pela maior parte das quebras de produtividade do ciclo. A soja concentra a atenção do produtor: é a maior área, a primeira a ser colhida e a que dita o calendário comercial. Mas quando o assunto é o risco de quebra, o risco produtivo, da lavoura simplesmente não apresentar a produtividade esperada, o protagonista passa a ser a 2ª safra. Convém uma ressalva. O resultado financeiro de um ano não se resume à produtividade, porque depende também do preço da soja e do milho, do custo de produção e do câmbio. O que tratamos aqui é mais específico e, justamente por isso, mais acionável. Dentro do ciclo soja-milho é na 2ª safra que se concentra a incerteza de quanto a terra, de fato, produzirá. A produtividade da 2ª safra oscila quase o dobro da soja. Para comparar o risco das duas culturas, retiramos de cada série a tendência produtiva (tecnologia, manejo etc.) de longo prazo estimada para cada cultura e Estado.

Em outras palavras, comparamos a produtividade observada em cada safra com aquilo que seria esperado para aquele ano, dado o avanço estrutural da produtividade ao longo do tempo. Com isso, a análise deixa de comparar apenas o nível bruto de produtividade e mede o quanto soja e 2ª safra oscilam, ano a ano, em relação ao rendimento esperado para aquele período. Os dados vieram da série histórica da Conab. A soja é uma cultura comparativamente estável, a produtividade oscila de 7,5% a 13,6% ao ano, conforme o Estado. A 2ª safra balança de 13,7% a 29,7%, entre 1,7 vez e 2,2 vezes mais que a soja, em todos os quatro Estados sem exceção. Em termos práticos, a soja entrega um resultado relativamente previsível, enquanto a safrinha é a fonte real de surpresa, do ciclo. Mato Grosso, o maior e um dos mais tecnificados Estados, é o caso mais comportado de todos, e mesmo assim a sua 2ª safra oscila quase o dobro da soja. Em Mato Grosso do Sul, em Goiás e no Paraná, a distância entre as duas culturas é ainda maior.

A quebra mais severa foi a de 2016, quando o milho de 2ª safra rendeu cerca de 28,0% abaixo do esperado sob o El Niño daquele ano. A explicação está relacionada ao calendário e à chuva. A soja é semeada no início da primavera e atravessa o auge da estação chuvosa, entre outubro e fevereiro, com água relativamente farta e baixo risco de frio, é a aposta mais segura do produtor. A 2ª safra entra depois da colheita da soja e depende justamente do final da temporada de chuvas, entre março e maio, quando a água começa a ficar escassa e o tempo fecha contra o relógio. Soma-se a isso o risco de geada no Sul e nas áreas mais altas, e tem-se uma cultura que vive no fio da navalha. Pequenas diferenças na data de semeadura, ou quando a chuva vai embora, se traduzem em grandes diferenças de rendimento, daí a oscilação maior. A leitura prática é simples: no ciclo soja-milho, a soja tende a ser a parte previsível da conta, enquanto a 2ª safra exige cautela, acompanhamento e decisões bem calibradas.

Na 2ª safra, a decisão não pode se limitar à disponibilidade de área após a colheita da soja. É preciso acompanhar de perto a janela de semeadura, as previsões climáticas, o perfil de umidade no solo, o risco de corte precoce das chuvas e, nas regiões sujeitas, a possibilidade de frio ou geada. Pequenas diferenças no calendário podem separar uma lavoura bem-posicionada de uma lavoura exposta ao estresse no momento crítico. O mesmo vale para o mercado. Como o risco produtivo é maior, a informação de preço ganha peso. Relações de troca, custo dos insumos, travas, seguro, preço futuro e expectativa de oferta precisam entrar na conta antes e durante o desenvolvimento da cultura. Na soja, o produtor costuma trabalhar com uma base produtiva estável. Na 2 safra, a margem depende muito mais da combinação entre clima, produtividade e oportunidade comercial. Fonte: Alcides Torres. Broadcast Agro.