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26/May/2026

Etanol de Milho: entrevista Wellington Andrade-Bioind

O avanço acelerado da produção de etanol em Mato Grosso e no Brasil, impulsionado pela expansão do biocombustível feito a partir do milho e pela entrada de novas plantas industriais que processam o grão, já coloca o setor em alerta para um possível excesso de oferta. Como solução, será preciso acessar novos mercados externos para sustentar a demanda e evitar pressão sobre os preços, reconheceu o diretor executivo do Sindicato das Indústrias de Bioenergia do Estado de Mato Grosso (Bioind-MT), Wellington Andrade. A Bioind-MT projeta alta de 16,08% na produção de etanol em 2026/27 no Estado. Andrade afirmou que a possível adoção do E15 (mistura de 15% de etanol anidro à gasolina) nos Estados Unidos pode abrir espaço para o Brasil ampliar exportações e absorver parte do excedente, estimado em 4 bilhões de litros. "Se realmente se implementar o E15 nos Estados Unidos, vai abrir um mercado de mais de 8 bilhões de litros. A gente passa a ter mais demanda do que oferta", afirmou.

O executivo disse ainda que a expectativa do setor é a de que a demanda adicional venha mais do mercado externo do que do consumo doméstico brasileiro. Segundo Andrade, o setor já trabalha com a possibilidade de pressão sobre os preços diante da entrada simultânea de novos projetos de etanol de milho em Mato Grosso e em outros Estados. Mato Grosso já responde por 62% da produção nacional de etanol de cereais e deverá ampliar em 18,67% a produção de etanol de milho na safra 2026/27. "Com esse aumento de oferta, pode haver pressão sobre os preços. Como já está acontecendo agora", disse. Andrade também afirmou que o setor acompanha com atenção tanto a possível implementação do E32 no Brasil quanto as medidas do governo federal para evitar altas no preço da gasolina. Segundo ele, a preocupação é a de que o etanol perca competitividade frente ao combustível fóssil. "É uma das maiores preocupações do setor", reforçou, ao comentar as discussões envolvendo subsídios e redução tributária para a gasolina. Segue a entrevista:

O consumo consegue acompanhar o avanço da produção de etanol em Mato Grosso e no Brasil neste ano-safra?

Wellington Andrade: Vi o Plinio Nastari (CEO da Datagro, consultoria especializada no setor) falando que o Brasil pode ter um excedente de 4 bilhões de litros. Mas ele coloca também que os Estados Unidos estão para aprovar o E15. Consequentemente, os Estados Unidos passariam a absorver todo o excedente deles e deixariam de ser exportadores de etanol. Então, esses mercados poderiam ser abocanhados pelo Brasil. É um mercado de 8 bilhões de litros. Então, a gente pode até estar com 4 bilhões de litros excedentes, mas, se realmente se implementar o E15 nos Estados Unidos e abrir esse mercado, a gente passa a ter mais demanda do que oferta.

Então a expectativa de crescimento da demanda vem mais do mercado externo do que do interno?

Wellington Andrade: Sim. A própria União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) está com uma campanha agora para promover o uso do etanol. Ainda existe, em algumas praças, uma desmistificação do consumo do combustível, além da questão da paridade de preços em relação à gasolina. Em Mato Grosso, essa relação costuma ser mais favorável ao etanol, mas isso não acontece em todo o País. Então, hoje, a expectativa é realmente de uma expansão mais forte da demanda externa.

O setor já trabalha com risco de pressão sobre os preços diante do aumento da oferta?

Wellington Andrade: Esse risco não preocupa só a nós. Algumas usinas, principalmente as de etanol de milho, já têm isso no radar. São vários projetos entrando em funcionamento ao mesmo tempo, não só em Mato Grosso, mas também em outros Estados. Por isso, o setor está colocando muitas fichas na demanda externa, no avanço das exportações, no SAF e no uso de etanol no transporte marítimo. Com esse aumento de oferta, pode haver pressão sobre os preços, como já está acontecendo agora.

O E15 nos Estados Unidos pode mudar esse cenário?

Wellington Andrade: Sim. Se realmente se implementar o E15 nos Estados Unidos e eles passarem a consumir mais etanol internamente, eles deixam de exportar. Então, o Brasil pode ocupar esses mercados. Isso muda bastante a perspectiva de demanda global.

Quais gargalos ainda limitam o crescimento da exportação de etanol por Mato Grosso?

Wellington Andrade: Principalmente logística. Hoje, se tivéssemos um etanolduto, conseguiríamos colocar nosso etanol em Paulínia (SP) em dois ou três dias. Por trem, leva mais de sete dias. Então, basicamente, o principal gargalo de Mato Grosso ainda é este.

O DDG, subproduto da usina de etanol de milho usada em ração, já está mais consolidado na exportação do que o etanol?

Wellington Andrade: Até porque a China abriu o mercado no ano passado. O DDG já entra como complemento ou substituto do farelo de soja na ração animal.

E o E32 no Brasil? Qual seria o impacto sobre o mercado?

Wellington Andrade: O que deve ocorrer é um aumento da produção de etanol anidro. Em relação ao volume total produzido, não deve mudar tanto, mas muda o mix entre hidratado e anidro. Consequentemente, reduzindo um pouco a oferta de hidratado, isso pode ajudar em um equilíbrio maior dos preços. Ainda assim, existe bastante volume previsto para a próxima safra.

Hoje o foco está mais na adoção do E32 ou na preocupação com a competitividade do etanol frente à gasolina?

Wellington Andrade: Os dois temas são importantes e estão sendo discutidos ao mesmo tempo. O E32 já vem sendo debatido desde os testes do E30, mas hoje uma das maiores preocupações do setor é justamente a competitividade dos biocombustíveis frente aos combustíveis fósseis. Se houver medidas para segurar o preço da gasolina sem alguma compensação para o etanol, o biocombustível perde competitividade.

As medidas do governo para segurar o preço da gasolina preocupam o setor?

Wellington Andrade: Sim. O que a gente tem pleiteado é uma equiparação de medidas também para o etanol, porque senão ele perde competitividade em relação à gasolina. Isso tem preocupado muito o setor. Se a gasolina ficar muito barata, o consumidor migra para ela e o etanol hidratado perde espaço, principalmente fora de Mato Grosso, onde a paridade costuma ser menos favorável ao biocombustível.

Mato Grosso pode alcançar São Paulo na produção de etanol?

Broadcast Agro: A previsão nossa é chegar em São Paulo no início da década de 2030. O próprio Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) estima uma produção de 15 bilhões de litros em Mato Grosso em 2033/34. A gente acredita que a partir da próxima década consiga chegar em São Paulo e talvez até ultrapassar.

A entrada da Amaggi na FS pode acelerar investimentos no setor de etanol de milho?

Broadcast Agro: A gente acredita que vai ser muito bom para o setor. A Amaggi entrou realmente para investir. A gente acredita que agora possam sair novos projetos do papel. A própria Inpasa provavelmente deve investir mais também.

O setor pode passar por mais consolidação?

Broadcast Agro: Pode acontecer. Como ocorre em outros setores, grandes grupos sempre têm a possibilidade de comprar empresas menores ou fazer joint ventures. Isso é uma possibilidade dentro do setor, principalmente em um momento de expansão do etanol de milho e de necessidade de novos investimentos.

Fonte: Broadcast Agro.