13/Apr/2026
A rápida expansão da produção de etanol de milho no Brasil, especialmente no Centro-Oeste, passou a expor um desequilíbrio estrutural entre a demanda crescente por biomassa e a capacidade de oferta sustentável desse insumo, criando um dilema ambiental relevante para o setor de biocombustíveis. O avanço da indústria, sustentado pela ampla disponibilidade de milho e pela competitividade energética do biocombustível, elevou de forma significativa o consumo de biomassa utilizada na geração de energia térmica nas usinas.
A base desse modelo produtivo depende do uso de biomassa lenhosa, majoritariamente oriunda de florestas plantadas, como o eucalipto, para alimentar caldeiras industriais. No entanto, a expansão da capacidade instalada ocorreu em ritmo superior ao desenvolvimento de projetos florestais dedicados, resultando em um déficit estrutural de matéria-prima energética. Esse descompasso levou ao aumento do uso de madeira proveniente de desmatamento, intensificando questionamentos ambientais e jurídicos sobre a sustentabilidade da cadeia produtiva.
Dados recentes indicam que, entre 2023 e 2024, o fornecimento de biomassa oriunda de madeira nativa cresceu 97% em Mato Grosso, enquanto a oferta proveniente de florestas plantadas recuou 29%, evidenciando a substituição de fontes sustentáveis por alternativas associadas à supressão vegetal. Estimativas apontam ainda que cerca de 80% do consumo de biomassa por grandes indústrias no Estado esteja vinculado a áreas desmatadas, reforçando o caráter estrutural do problema.
O crescimento da indústria explica parte dessa pressão. O consumo de milho para produção de etanol em Mato Grosso avançou de 200 mil toneladas na safra 2014/15 para 13,7 milhões de toneladas em 2025/26, com projeção de atingir 30,2 milhões de toneladas até 2030/31. Para sustentar essa expansão exclusivamente com biomassa de florestas plantadas, seria necessária uma área estimada de 436 mil hectares, mais que o dobro da área atual de eucalipto no Estado, de aproximadamente 211 mil hectares.
Além disso, o consumo de biomassa mais que dobrou entre 2021 e 2024, passando de 3,4 milhões para 7,4 milhões de metros cúbicos, enquanto a área plantada com florestas energéticas apresentou retração de 3,5% no mesmo período. Esse cenário evidencia um descompasso entre oferta e demanda que tende a se agravar com a entrada de novas plantas industriais e a continuidade da expansão do setor.
Do ponto de vista ambiental, o modelo brasileiro de etanol de milho é frequentemente associado a uma menor pegada de carbono em comparação ao padrão norte-americano, principalmente pela utilização de biomassa renovável em substituição a combustíveis fósseis e pelo uso de milho de 2ª safra, que reduz a pressão por abertura de novas áreas agrícolas. No entanto, a crescente utilização de madeira nativa compromete esse diferencial competitivo, podendo afetar o acesso a mercados internacionais e a precificação do biocombustível.
A controvérsia também envolve divergências regulatórias. A legislação federal proíbe o uso de vegetação nativa como biomassa, ainda que proveniente de desmatamento legal, enquanto normas estaduais flexibilizaram essa prática, criando insegurança jurídica e ampliando o risco de judicialização. Esse ambiente regulatório incerto adiciona complexidade à expansão do setor e reforça a necessidade de harmonização normativa.
Sob a ótica econômica, a disputa por biomassa já evidencia sinais de escassez em polos industriais, com diferentes setores competindo pelo mesmo insumo energético, o que pode levar a um estreitamento de oferta e aumento de custos operacionais. Esse fator tende a impactar a competitividade das usinas e pode limitar o ritmo de crescimento da produção de etanol de milho no médio prazo.
Como resposta, iniciativas de política pública e planejamento setorial vêm sendo estruturadas para estimular a expansão de florestas plantadas e reduzir gradualmente a dependência de biomassa oriunda de desmatamento. A transição para uma base florestal sustentável é apontada como condição necessária para preservar a credibilidade ambiental do etanol de milho e garantir a continuidade de sua expansão.
Em síntese, o setor enfrenta um trade-off entre crescimento acelerado e sustentabilidade da base energética. A consolidação do etanol de milho como biocombustível competitivo e de baixo carbono dependerá da capacidade de alinhar a expansão industrial à oferta sustentável de biomassa, reduzindo riscos ambientais, regulatórios e reputacionais no longo prazo.
Fonte: The AgriBiz. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.