09/Feb/2026
O avanço do etanol de milho no Brasil constitui uma das transformações mais relevantes da agroindústria nacional na última década. Em um país historicamente associado ao etanol de cana-de-açúcar, a consolidação de um parque industrial baseado em cereais foi inicialmente recebida com ceticismo, tanto pela ausência de tradição tecnológica quanto pela pouca familiaridade do mercado com coprodutos como os DDGs. Ainda assim, o setor avançou de forma acelerada, alterando a dinâmica regional do milho, criando novos polos industriais no Centro-Oeste e reposicionando o Brasil no debate global sobre biocombustíveis.
Esse crescimento, no entanto, entra agora em sua fase mais sensível. Projeções do IMEA e da UNEM, divulgadas em setembro de 2025, indicam que a oferta de etanol de milho deverá crescer mais de 6,6 milhões de metros cúbicos por ano ao longo dos próximos oito anos. Esse volume adicional equivale a aproximadamente 66% da produção atual e representa cerca de 19% de todo o etanol comercializado no Brasil em 2025. Trata-se, portanto, de uma expansão estrutural, e não marginal, que exige uma análise cuidadosa da capacidade do mercado de absorver esse incremento.
O principal desafio apontado é o descompasso potencial entre oferta e demanda. Do lado da produção, a competitividade do milho como matéria-prima permanece favorável, sobretudo em regiões com excedente estrutural do grão e custos logísticos relativamente baixos. Contudo, a ampliação da capacidade instalada pode pressionar preços e margens caso a demanda não acompanhe o ritmo de crescimento projetado. O risco central deixa de ser tecnológico ou agrícola e passa a ser essencialmente econômico e comercial.
No mercado externo, as possibilidades de alívio são limitadas. Em 2025, o Brasil exportou cerca de 1,5 milhão de metros cúbicos de etanol, volume modesto diante do crescimento esperado da produção. Além disso, a concorrência internacional, especialmente dos Estados Unidos, restringe a competitividade do etanol brasileiro no comércio global, seja por custos, seja por logística e acordos comerciais. Dessa forma, a exportação tende a cumprir um papel complementar, e não estruturante, na absorção do excedente futuro.
A variável decisiva, portanto, é o mercado doméstico. Em 2025, o etanol hidratado respondeu por aproximadamente 24,2% da demanda do ciclo Otto no Brasil. Para que os 6,6 milhões de metros cúbicos adicionais projetados sejam absorvidos internamente, essa participação precisaria alcançar cerca de 33,9%. Isso implica um crescimento da demanda doméstica por etanol hidratado da ordem de 40% ao longo dos próximos oito anos, um movimento expressivo que dependerá diretamente da competitividade de preços frente à gasolina.
A estrutura da frota brasileira oferece, em tese, espaço para esse avanço. Mais de 80% dos veículos leves em circulação são flex, o que permite uma migração de consumo relativamente rápida em resposta a sinais de preço. No entanto, essa elasticidade não é uniforme no território nacional. Estados com menor penetração histórica do etanol hidratado, como Bahia, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, demandariam investimentos adicionais em infraestrutura de distribuição, armazenamento e bombas nos postos para ampliar de forma consistente o consumo.
A questão tributária emerge como um dos principais entraves de curto e médio prazo. As alíquotas de ICMS sobre o etanol hidratado variam significativamente entre os estados, afetando diretamente sua competitividade frente à gasolina. Em contraste, o ICMS incidente sobre a gasolina C é uniforme nacionalmente, o que cria distorções regionais relevantes na formação de preços ao consumidor. A reforma tributária, com a transição para o IBS, tende a corrigir essa assimetria, mas o processo será gradual e se estenderá até 2033, o que significa que o setor ainda conviverá por vários anos com um ambiente tributário heterogêneo.
Nesse contexto, o maior teste do boom do etanol de milho não está na capacidade de produzir, mas na capacidade de vender. A sustentabilidade do setor dependerá de um delicado equilíbrio entre expansão da oferta, crescimento efetivo do consumo interno, políticas tributárias mais neutras e preservação de margens industriais. Sem avanços consistentes do lado da demanda, o risco de compressão de preços e retorno sobre o capital investido aumenta de forma significativa.
O ciclo atual marca, portanto, a transição do etanol de milho de uma história de sucesso baseada em expansão rápida para uma fase de maturidade, na qual eficiência econômica, estratégia comercial e coordenação regulatória passam a ser determinantes. O setor já provou que consegue crescer; agora precisa demonstrar que consegue sustentar esse crescimento no longo prazo. Fonte: Clayton Melo - AgFeed.