03/Feb/2026
O avanço acelerado do etanol de milho vem promovendo uma transformação estrutural na dinâmica do setor sucroenergético brasileiro, ao mesmo tempo em que impõe novos desafios à indústria de cana-de-açúcar, especialmente em um contexto de margens mais apertadas. Durante décadas, a produção de etanol no país esteve majoritariamente concentrada na cana, mas esse cenário vem se alterando de forma consistente e irreversível.
Atualmente, o etanol de milho já responde por cerca de um quarto da produção total de etanol no Brasil. Projeções de médio prazo indicam que, até o final da década, a produção a partir do grão pode se aproximar de 20 bilhões de litros, o que resultaria em uma composição aproximada de 60% de etanol de cana e 40% de etanol de milho. Esse movimento reforça o caráter estrutural da expansão do etanol de milho e reduz a percepção de que se trata de um fenômeno conjuntural.
Diante dessa nova realidade, ganha força a estratégia de integração entre os dois modelos produtivos. A incorporação de plantas de etanol de milho a estruturas industriais já existentes no setor sucroenergético surge como alternativa para ampliar a competitividade, diluir riscos e otimizar o uso de ativos ao longo do ano. O modelo flex, que combina cana e milho, permite melhor aproveitamento da infraestrutura industrial, utilização do bagaço da cana como fonte energética e maior eficiência operacional quando comparado a plantas dedicadas exclusivamente a uma única matéria-prima.
Apesar das vantagens operacionais, esse tipo de investimento envolve desafios relevantes. O nível de capital requerido é elevado, o que amplia a exposição financeira em um mercado ainda relativamente jovem no Brasil. Experiências recentes demonstram que períodos de preços elevados do milho combinados a cotações deprimidas do etanol podem pressionar severamente as margens, como ocorreu em anos recentes, quando o setor enfrentou o pior momento desde o início da produção de etanol de milho em escala comercial no país.
Nesse contexto, o ambiente atual não se mostra favorável para uma nova onda de investimentos em plantas de etanol de milho, considerando o estreitamento das margens e o elevado volume de capital imobilizado necessário. Ainda assim, a avaliação de longo prazo permanece positiva, uma vez que a diversificação produtiva representa uma resposta racional do setor de cana frente às mudanças estruturais do mercado de biocombustíveis.
O ano de 2026 se apresenta como um período-chave para o setor de etanol, marcado por um cenário de sobreoferta tanto do biocombustível quanto do açúcar. Nos últimos anos, o mercado internacional estimulou o direcionamento da cana para a produção de açúcar, em função de preços mais elevados. Esse estímulo, no entanto, resultou em um mercado global bem abastecido, levando a uma correção significativa das cotações da commodity.
Diante desse novo equilíbrio, as usinas enfrentam um dilema estratégico na alocação da matéria-prima. Um aumento excessivo da produção de etanol tende a pressionar os preços domésticos do biocombustível, enquanto a ampliação da oferta de açúcar contribui para a manutenção de um ciclo prolongado de preços baixos no mercado internacional. Esse ambiente reforça o risco de sucessivos anos de rentabilidade comprimida, o que pode comprometer a sustentabilidade financeira de parte do setor.
A combinação de margens reduzidas, elevada necessidade de capital e maior competição entre matérias-primas sinaliza um momento de atenção para o setor sucroenergético. Embora ainda não configure um cenário crítico, o acúmulo de fatores adversos aumenta a probabilidade de um período prolongado de ajustes, exigindo maior disciplina financeira, eficiência operacional e diversificação estratégica por parte das usinas. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.