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23/Jan/2026

Etanol de Milho: ritmo de expansão supera demanda

Segundo o Rabobank, a capacidade de produção de etanol de milho no Brasil pode alcançar 16 bilhões de litros até o fim de 2028, ante cerca de 10 bilhões de litros projetados para o ciclo 2025/2026, criando risco de desequilíbrio estrutural no mercado de biocombustíveis com possíveis reflexos sobre a oferta e os preços do açúcar. O ritmo de expansão da capacidade instalada supera o crescimento esperado da demanda doméstica por combustíveis do ciclo Otto, estimado em torno de 2% ao ano. Esta ameaça de desequilíbrio no mercado de etanol cria um alerta amarelo para a indústria de açúcar no Brasil. Uma oferta excessiva de etanol colocaria os preços sob pressão, o que poderia se traduzir em aumento da produção de açúcar, à medida que as usinas arbitram as margens entre os dois produtos. A análise considera projetos já autorizados pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) e empreendimentos anunciados por grupos avaliados como financeiramente viáveis.

Além do milho, parte dessa capacidade poderá utilizar sorgo e trigo como matéria-prima. Projeções de consultorias e agentes do setor indicam que a capacidade instalada pode superar 20 bilhões de litros no início da próxima década. A produção de etanol de milho no Brasil saiu de volumes residuais há uma década para cerca de 10 bilhões de litros em 2025/2026, consumindo aproximadamente 23 milhões de toneladas do cereal. O setor opera majoritariamente com plantas industriais independentes, conhecidas como “full”, que funcionam ao longo de todo o ano e concentram a maior parte da capacidade instalada e em construção. O modelo mostrou-se resiliente até agora, sustentado por custos competitivos de matéria-prima, elevada utilização dos ativos e receitas relevantes com coprodutos como DDG e óleo de milho. No entanto, o ciclo 2023/2024 foi o mais desafiador até o momento, marcado por preços elevados do milho e valores deprimidos do etanol. Ainda assim, a análise histórica de dez anos aponta correlação razoável entre os preços do grão e do biocombustível.

Quando os preços do milho foram mais altos, os preços do etanol também foram mais altos. Vale lembrar que houve o impacto da guerra entre Rússia e Ucrânia sobre os mercados de energia e grãos em 2022. Outro ponto de atenção é o fornecimento de biomassa. As plantas independentes utilizam cavacos de madeira para geração de energia, o que melhora a pegada de carbono do etanol, mas exige grande disponibilidade de eucalipto. Cada milhão de toneladas de capacidade de processamento de milho demanda cerca de 10 mil hectares de florestas energéticas. Há preocupações de que o fornecimento de biomassa tenha dificuldade em acompanhar a expansão da indústria, pressionando custos. Fatores conjunturais que aceleraram os investimentos, como a corrida por localização em regiões com milho mais barato e a vigência temporária de incentivos fiscais, que devem expirar em 2032 com a conclusão da reforma tributária. Com o relógio correndo sobre esses incentivos, há um estímulo claro para antecipar projetos.

No cenário-base do Rabobank, o excesso de oferta pode ampliar o desconto do etanol hidratado em relação à gasolina para níveis próximos de 63%, abaixo da média histórica de cerca de 68%. O modelo sugere que o consumo de combustíveis Otto teria de crescer cerca de 4% ao ano para manter essa relação, o que parece improvável no curto prazo. Entre os possíveis vetores de demanda adicional estão o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, prevista na legislação do Combustível do Futuro, e, no longo prazo, o uso do etanol como insumo para combustíveis sustentáveis de aviação e marítimos. Essas perspectivas existem, mas são de longo prazo, enquanto o aumento da capacidade está programado para ser rápido. O principal desafio será o descompasso temporal entre oferta e demanda. Não é certo que a atual onda de investimentos criará um excesso estrutural, mas é possível, e merece atenção, pois qualquer mudança relevante no mercado de etanol do Brasil pode ter repercussões para o açúcar no mundo. Fonte: Broadcast Agro. Adaptado por Cogo Inteligência em Agronegócio.