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06/Nov/2026

Fertilizantes: entrevista com Marcos Stelzer - OCP

A garantia de suprimento de fertilizantes para as próximas safras ganhou um novo capítulo em setembro, com a assinatura de um Memorando de Entendimento (MoU) entre o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e o Grupo OCP, estatal marroquina e maior produtora global de fertilizantes fosfatados. O documento estabelece um volume de referência de 3,8 milhões de toneladas de fertilizantes fosfatados para o ciclo 2026/2027. No entanto, a efetivação desse volume de importação dependerá do ritmo de compras do mercado interno, ressalta o CEO da OCP Brasil, Marcos Stelzer. Segundo o executivo, o desembarque do produto acompanhará a demanda dos produtores rurais em um momento desafiador para o setor, marcado por custos do enxofre pressionados após o conflito entre Irã e Estados Unidos, em fevereiro, pela paralisação temporária de misturadoras locais no Brasil e por um recuo de até 30% na procura por fósforo no País. Fontes cruciais de fósforo para as lavouras, os fertilizantes fosfatados, representados principalmente por Fosfato Monoamônico (MAP), Fosfato Diamônico (DAP) e Superfosfato Simples (SSP), desempenham papel estratégico na agricultura do País. Com capacidade global de aproximadamente 15 milhões de toneladas por ano, a OCP Brasil tem adaptado suas rotas fabris globais para elevar a produção de Superfosfato Triplo (TSP), que exige 25% menos enxofre do que o DAP e dispensa o uso de amônia, e aposta em soluções de maior eficiência agronômica para contornar o ambiente de margens mais apertadas. Segue a entrevista:

O Memorando de Entendimento assinado com o Ministério da Agricultura estabeleceu o volume de 3,8 milhões de toneladas de fosfatados para o ciclo 2026/2027. Como avançam as negociações privadas para efetivar essas entregas e qual é o cronograma de chegada dos navios aos portos?

Marcos Stelzer: Os 3,8 milhões de toneladas previstos no Memorando representam um volume de referência para o período 2026/2027, e não uma compra ou um compromisso de fornecimento previamente contratado. A realização efetiva desse volume estará diretamente ligada à evolução da demanda do mercado brasileiro ao longo do período. O objetivo do acordo é fortalecer um abastecimento confiável e resiliente. A OCP planeja o abastecimento continuamente, alinhando embarques e janelas logísticas às projeções de compra e de plantio nas diferentes regiões do País.

A oferta global de fosfatados enfrenta gargalos com a alta do enxofre e tensões em rotas marítimas. Como a OCP garantiu matérias-primas e de que forma essa pressão de custos causará impacto nos preços no Brasil?

Marcos Stelzer: O enxofre é hoje uma das principais fontes de pressão na cadeia de fosfatados. No primeiro trimestre de 2026, garantimos estoques preventivos de enxofre e aumentamos a flexibilidade do nosso mix industrial. Ampliamos a produção de TSP (Superfosfato Triplo), que exige cerca de 25% menos enxofre que o DAP (Fosfato Diamônico) para a mesma quantidade de fósforo e não requer amônia. Também aproveitamos a qualidade da nossa rocha fosfática e desenvolvemos rotas alternativas, como a recuperação de pirita e pirrotita. Os preços no Brasil dependem da combinação de oferta, demanda, fretes e insumos globais; portanto, não seria adequado antecipar uma trajetória específica de cotações.

Diante da alta dos custos de insumos importados, misturadoras no Brasil suspenderam temporariamente operações em unidades locais de fosfatados. A OCP tem capacidade para suprir uma fatia maior do mercado caso a produção nacional siga limitada?

Marcos Stelzer: Nossa plataforma industrial e logística possui capacidade global de cerca de 15 milhões de toneladas por ano. Estamos expandindo essa capacidade e adaptando linhas para ampliar a produção de TSP. Essa escala nos dá flexibilidade para responder ao aumento da demanda no Brasil. No entanto, nossa abordagem não se baseia na substituição da produção nacional. O objetivo é atuar de forma complementar aos diferentes agentes da cadeia de valor, garantindo um sistema competitivo e sustentável.

Estimativas indicam queda de até 30% na demanda por fertilizantes fosfatados no Brasil em razão da redução do poder de compra dos produtores e dos juros elevados. O que a empresa tem feito do ponto de vista comercial e técnico para evitar que os produtores reduzam a adubação?

Marcos Stelzer: As condições comerciais são definidas diretamente com nossos clientes. Nosso foco principal está no aumento da eficiência no uso de nutrientes. Em um cenário de margens apertadas, o produtor precisa maximizar o retorno de cada quilo aplicado. Oferecemos soluções personalizadas que combinam fósforo solúvel, nitrogênio, enxofre e cálcio em alta concentração. Isso permite aplicar volumes menores por hectare, reduzindo os custos de transporte, armazenagem, manuseio e aplicação no campo.

O acordo com o governo brasileiro prevê cooperação em biofertilizantes, mapeamento de solos e descarbonização. À luz do Programa Nacional de Fertilizantes (Profert), a OCP considera novos investimentos em infraestrutura de mistura, armazenagem ou novas tecnologias no País?

Marcos Stelzer: Já atuamos fortemente em pesquisa e desenvolvimento no País. Em 2025, firmamos o Master Research Agreement entre a Embrapa, a OCP Brasil, a OCP Nutricrops e a Universidade Politécnica Mohammed VI (UM6P) para desenvolver fertilizantes inovadores, agricultura digital e biofortificação. Também conduzimos o Projeto BOTA, voltado para agricultura regenerativa e manejo de carbono no solo tropical. Quanto a novos investimentos em infraestrutura e logística, acompanhamos continuamente as oportunidades do mercado brasileiro para avaliar iniciativas que fortaleçam nossa presença.

Fonte: Broadcast Agro.